'A universidade deve ser espaço para 60+ se reinventar', diz reitora da UFRGS
Acervo Pessoal/ Márcia Barbosa
São Paulo - "Gesticula demais", "é engraçada demais", "não se veste de acordo com a idade", "não age como uma representante de universidade"... Esses são apenas alguns dos comentários que pipocam nas redes sociais quando o tema é a reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Márcia Barbosa, de 66 anos.
Apesar de um currículo consolidado na ciência - já atuou como diretora do Instituto de Física e na coordenação da pós-graduação em física na UFRGS, foi secretária de Políticas e Programas Estratégicos no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e é membro da Academia Brasileira e Mundial de Ciências - a física frequentemente se vê no centro de debates que pouco têm a ver com educação ou pesquisa.
Em vez disso, sua imagem pública vem sendo analisada sob filtros de comportamento, idade e gênero. Apesar de notar que as críticas se intensificaram em 2024, após a nomeação à reitoria, ela contou em entrevista ao VIVA que sempre conviveu com elas.
Eu não me visto para o padrão da minha idade, isso sempre foi um conflito, mas que à medida que eu vou tendo essa idade, ele é um conflito que se torna maior."
Mais do que reagir, ela decidiu observar. Cientista de formação, transformou o incômodo sobre gênero e discurso de ódio em objeto de investigação. "Eu vou ser quem eu quero ser e o preconceito vai acontecer e eu vou ter que aprender a lidar com ele".
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Machismo acadêmico
Ao longo da carreira, Márcia Barbosa afirma ter sido frequentemente minoria em ambientes acadêmicos. "Quase sempre fui a única mulher na sala. [...] É uma carreira marcada pelo estereótipo". No campo da ciência, ela explica que a qualidade do trabalho costuma reduzir esse tipo de questionamento com o tempo, embora o preconceito permaneça.
A gente está num mundo misógino, machista e mesmo a ciência sofre disso. Então, não importa o que eu faça como cientista, eu vou sofrer misoginia."
Ainda assim, destaca que sua produção científica funcionou como proteção. "Na área de física as pessoas terminaram se acostumando que eu faço uma boa ciência". Já na gestão, viu o foco se deslocar. "Eles não podiam atacar minha carreira como cientista, então atacam o gesto, o jeito."
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Um dos temas levantados frequentemente pela reitora é o machismo no ambiente acadêmico. "As mulheres no meio acadêmico têm essa fantasia de que se elas se comportarem direito, se elas forem quase invisíveis, meio transparentes, elas não vão sofrer preconceito por serem mulheres."
Apesar da exposição atual, ela conta que o incômodo a acompanha desde a entrada na universidade. "Eu olhava e dizia: ‘Nossa, tem algo errado aqui. Vou fazer alguma coisa a respeito ao longo do meu caminho’."
"Tem um mecanismo da gente, como mulher, para se proteger, de ignorar os desafios. Tu não finge que não vê que tem mais homens do que mulheres. Tu finge que não vê que as mulheres não estão no poder. Mas eu não consegui fingir."
Universidade 60+
Para a reitora, a discussão sobre diversidade precisa incluir também a idade. "A universidade está aprendendo, ela se assusta um pouco porque está mais acostumada a formar jovens. Mas se as pessoas estão vivendo até os 90, por que não começar com 60 a se reinventar, a estudar alguma coisa que sempre quis estudar?
Eu acho que a universidade também tem que ser esse espaço para as pessoas se reinventarem nos seus 60+."
Mas, para isso, ela diz que é preciso 'desconstruir o etarismo'. "É isso de olhar para uma pessoa e pensar: ‘Essa pessoa é velha, ela já não tem utilidade’", destaca, e complementa:
"A sociedade interpreta as mulheres velhas como descartáveis. Mas é uma interpretação muito equivocada. Na verdade, o sucesso da nossa sociedade tem muito a ver com as mulheres no pós-menopausa, que são as avós, as tias mais velhas, que enriquecem a vida desta geração mais jovem, não só com o cuidado que elas provêm, mas com histórias."
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Ódio digital
A relação da reitora com as redes sociais, que inicialmente se apresentou como um espaço de ataque, acabou se transformando em campo de pesquisa.
"Normalmente, um reitor ou reitora quando é atacado, eles se recolhem, diminuem o que fazem nas redes sociais ou mesmo fecham suas redes sociais." Ela seguiu o caminho oposto.
"Eu fiquei fascinada pelo movimento, porque eu sou uma cientista. Eu quero entender por que uma pessoa que não me conhece olha um vídeo meu sobre um assunto que não tem nada a ver com a vida dessa pessoa e gasta seu tempo para me dizer que eu tinha que mudar ou me chamando de ridícula."
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Por que alguém se sente feliz em xingar uma pessoa que não conhece? Que mecanismo é esse do ódio? Eu tenho olhado números da questão de gênero, percentual de mulheres publicando em artigos de alto impactom e é por isso que digo: 'seu ódio vai virar meu paper'."
Ela diz que estudo já está em andamento em parceria com uma aluna e pondera que a exposição também se conecta com a forma como conduziu sua campanha para a reitoria. "Minha campanha foi toda indo nas unidades fisicamente, mas a propaganda foi pelo Instagram. [...] Eu ganhei nos alunos com uma diferença brutal. Por quê? Porque eu utilizei a linguagem e a maneira de fazer."
Para ela, essa comunicação amplia o alcance da universidade. "Ajuda a chegar nas pessoas, ajuda as pessoas a discutirem e falarem das coisas da universidade."
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Financiamento universitário
Ao analisar o cenário atual, a reitora aponta desafios estruturais, atralados especialmente ao baixo financiamento e contradições na alocação de verbas. "A gente tem uma casa velha e tem financiamento apenas para manter a infraestrutura básica. Temos bastante financiamento para equipamentos, para fazer a ciência. Só que esse dinheiro da ciência não pode ser usado para consertar o telhado. Então, eu não tenho dinheiro para consertar o telhado, mas compro um microscópio de ponta e coloco em um lugar que tem goteira."
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Outro ponto de atenção é a atração de estudantes. Segundo ela, sua postura comunicativa e presença nas redes sociais mostram impacto. "No vestibular, a gente teve um aumento em mil inscrições de um ano para outro ano, a partir da campanha que a gente está fazendo com os jovens. Essa linguagem mais descolada traz jovens."
Diz ainda que a universidade vem investindo em iniciativas ligadas ao monitoramento de eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul, à criação de uma secretaria de emergência climática ambiental e projetos de expansão, como um novo campus na Serra Gaúcha. Para ela, esse movimento passa pela abertura ao diálogo. "Eu quero que as pessoas conheçam quem são essas pessoas da universidade, o que elas fazem de excelente."
Apesar de otimista nesse sentido, pondera que o cenário político amplia as tensões. "Teremos um ano bem desafiador, haverão eleições e a universidade está sendo um instrumento do ataque de quem quer destruir o conhecimento, porque pessoas informadas são coisas muito danosas."
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