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Anorexia do envelhecimento: o transtorno alimentar invisível na velhice

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Estima-se que até 15% das pessoas idosas apresentem algum grau de alteração no comportamento alimentar - Adobe Stock
Estima-se que até 15% das pessoas idosas apresentem algum grau de alteração no comportamento alimentar
Por Emanuele Almeida

09/05/2026 | 12h48

São Paulo - Quando se discute saúde alimentar, o imaginário social quase sempre volta suas atenções para adolescentes e jovens adultos, deixando na invisibilidade uma realidade silenciosa: a existência de transtornos alimentares em pessoas idosas.

Entre as condições que mais afetam essa população está a anorexia do envelhecimento, um quadro ainda desconhecido que se difere da anorexia nervosa clássica por não estar focado no medo de engordar ou na busca por um corpo padrão imposto esteticamente. 

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É o que explica o professor doutor de nutrição e epidemiologia do curso de gerontologia da Universidade de São Paulo (USP) João Valentini. “Trata-se, na verdade, de uma perda de apetite e diminuição do consumo alimentar impulsionada por um conjunto de fatores biológicos, psicológicos e sociais inerentes a essa fase da vida”. 

Dessa forma, enquanto a anorexia nervosa é pautada pelo medo de engordar e pela busca por um padrão estético de corpo, a anorexia do envelhecimento se caracteriza principalmente por uma grave perda de apetite e diminuição inconsciente do consumo de alimentos. Outros fatores são: 

  • Fatores biológicos e fisiológicos: o processo de envelhecimento pode trazer alterações hormonais e quadros de inflamação sistêmica que afetam o apetite. Além disso, ocorre uma forte diminuição sensorial do olfato e do paladar, fazendo com que a comida deixe de ser atrativa e saborosa, o que reduz o estímulo para se alimentar.
  • Problemas mecânicos e de saúde bucal: a perda de dentes, o uso de próteses mal ajustadas (que causam feridas) e a diminuição da salivação tornam a mastigação difícil e dolorosa. Por conta do incômodo e esforço físico, a pessoa idosa passa a evitar consumir os alimentos.
  • Doenças crônicas e polifarmácia: o uso contínuo de muitas medicações e as próprias doenças desenvolvidas pela pessoa idosa podem causar alterações gastrointestinais e comprometer ainda mais o paladar.
  • Fatores psicológicos e sociais: quadros muito prevalentes de depressão e ansiedade também engatilham a redução alimentar. Além disso, o luto pela perda de companheiros, o isolamento social e a solidão também são causas centrais.

O professor da USP ainda acrescenta que mesmo quando a pessoa idosa é independente, morando sozinha e consciente de suas ações cotidianas, a perda de apetite também pode acontecer. “É muito comum que a pessoa idosa perca a vontade de preparar comida apenas para si mesma, adotando o pensamento de que ‘não vou cozinhar só para mim’ e passando a negligenciar refeições por conveniência”, adiciona. 

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Transtornos alimentares em idosos

O especialista aponta que é estimado que até 15% das pessoas idosas apresentem algum grau de alteração no comportamento alimentar, um número expressivo, porém subdiagnosticado

A falta de diagnóstico ocorre tanto pela carência de ferramentas de rastreio adequadas na prática clínica quanto pela percepção equivocada de que esses transtornos são exclusivos dos mais jovens e do sexo feminino”. 

A psicóloga especialista em gerontologia, Valmari Cristina Aranha acrescenta que a anorexia na velhice, por exemplo, é frequentemente mascarada pela perda de peso decorrente de outras doenças crônicas ou pelo uso excessivo de medicações.

“Por conta dessa sobreposição de sintomas e à crença de que a perda de apetite e de peso são apenas desdobramentos naturais dessas outras condições de saúde, a verdadeira existência da anorexia e outros transtornos acaba sendo ocultada na prática clínica, impedindo que a pessoa idosa receba o diagnóstico e o cuidado em saúde mental adequados”, observa a psicóloga. 

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Terrorismo nutricional

Se por um lado o apetite diminui naturalmente, por outro, a intervenção externa pode trazer problemas para a relação da pessoa idosa com a comida. Dessa forma, a imposição de dietas rigorosas e restritivas costuma ser um perigo. 

Após operar um câncer em 2007,  Marly Corrêa, de 89 anos precisou colocar uma bolsa de colostomia definitiva. O problema na sua relação com a comida surgiu quando ela se mudou para Brasília (DF) e foi submetida a um cardápio rígido elaborado por sua filha nutricionista, que ficou preocupada com sua condição.

A imposição de regras a deixou tão enjoada de certos alimentos que ela pegou aversão a sucos impostos na dieta, como o de goiaba, recusando-se a tomá-lo até hoje. “Perdi muito peso depois disso", relembra. 

Marly é uma mulher idosa que está sentada, usa uma blusa branca e preta com cardigan azul
Marly passou por mudanças na alimentação depois de intervanção dos filhos. Arquivo pessoal

Segundo a psicóloga Valmari Aranha, na maioria dos casos, são os próprios familiares que interferem excessivamente na alimentação do idoso, em forma de preocupação com agravamento de condições de diabetes ou outras comorbidades e, assim, impondo restrições generalizadas sem considerar a condição clínica e emocional da pessoa idosa. 

João Valentini, da USP, corrobora esse cenário alertando para o que chama de "terrorismo nutricional" e destacando que o medo de adoecer ou de piorar quadros como colesterol e diabetes faz com que os idosos recebam informações reducionistas em consultas rápidas que vilanizam os alimentos. 

Privar a pessoa idosa de alimentos que lhe dão prazer, como restringir um prato de carboidrato tradicional em famílias de ascendência italiana, por exemplo, pode resultar em um profundo isolamento afetivo e social”.  


Quando a comida é a única fuga

A extrema restrição também pode engatilhar um efeito rebote: a compulsão alimentar e o comer escondido. Valentini relata que em atendimentos é comum ouvir casos de pessoas que escondem caixas de bombons e alimentos nas mesas de cabeceira do quarto. 

“Isso ocorre porque, diante de tantas proibições impostas em casa, o doce se torna um objeto de desejo consumido em desespero nos poucos momentos em que o idoso tem acesso a ele, já que ele mesmo ou a família o impede de ir ao mercado comprar o que gosta”, relata.

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Aranha explica que a compulsão e o ato de comer acabam se tornando, para muitos, uma válvula de escape e a única fonte de prazer imediato na velhice, o que se reflete principalmente no consumo de ultraprocessados e doces para aqueles que lidam com o isolamento.

Prazer de comer

A chave para um cuidado efetivo e respeitoso é devolver o protagonismo à pessoa idosa. O professor da USP é categórico ao afirmar que as pessoas idosas têm autonomia: “Elas não são crianças e, desde que não haja comprometimento cognitivo severo, devem participar ativamente das decisões sobre o que vão ingerir”. 

Ele relata que, curiosamente, estudos populacionais mostram maior procura por qualidade de dieta nesse grupo etário, em comparação às demais faixas, em grande parte por cultivarem costumes saudáveis ao longo de toda a vida, como o consumo contínuo de frutas, hortaliças e grãos. 

Foi exatamente a devolução dessa autonomia que transformou a rotina de Marly Corrêa. A família buscou o olhar de uma nutricionista especialista em pacientes com colostomia e descobriu que toda a dieta restritiva era desnecessária: ela poderia comer de tudo, bastando apenas a simples orientação de deixar o feijão de molho para retirar os gases. 

Hoje, ela recuperou sua alegria e o prazer de se alimentar: “Apesar de tudo isso, hoje eu como de tudo e adoro macarrão alho e óleo e bife a milanesa com batata frita. Também não dispenso uma bananada”, conta Marly. 

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