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Etarismo por quem sofreu na prática: leia depoimentos

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Casos de etarismo crescem em meio ao envelhecimento da população - Envato
Casos de etarismo crescem em meio ao envelhecimento da população
Por Alexandre Barreto

05/03/2026 | 12h03

São Paulo, 05/03/2026 - Em meio ao envelhecimento da população brasileira, cresce a presença de profissionais com mais de 60 anos no mercado de trabalho. Esse grupo ocupa desde posições júnior até cargos de liderança. Ao mesmo tempo, também surgem relatos de discriminação por idade, prática conhecida como etarismo, que pode resultar em exclusão profissional e dificuldades de permanência no emprego.

Apenas na região da Grande São Paulo, mais de 3,4 mil ações relacionadas ao etarismo tramitam atualmente na Justiça do Trabalho, envolvendo denúncias de discriminação, demissões consideradas abusivas e dificuldades de reinserção profissional.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que pessoas com mais de 50 anos já representam cerca de 22% da força de trabalho no País. O número reflete uma mudança demográfica e indica que trabalhadores mais experientes permanecem ativos por mais tempo, seja por necessidade financeira ou por escolha profissional.

Um levantamento do Grupo Croma, com base no estudo Oldiversity, indica que 86% das pessoas no Brasil com mais de 60 anos afirmam já ter sofrido algum tipo de discriminação no ambiente de trabalho, independentemente da experiência ou qualificação.

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Para a advogada trabalhista e especialista em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Raquel Morandi, o aumento dos casos de etarismo no ambiente profissional reflete uma mudança de comportamento nessa nova realidade social.

“Existe, sim, um aumento das demandas envolvendo discriminação etária, o que também está relacionado ao fato de que os trabalhadores estão mais informados e menos dispostos a aceitar determinadas condutas como naturais.”

Segundo a especialista, esse movimento também acompanha o envelhecimento do brasileiro e a necessidade de permanecer ativo por mais tempo. Mas identificar uma dispensa discriminatória por idade é um processo delicado, já que o preconceito é raramente declarado diretamente.

“Dificilmente esse tipo de conduta se apresenta de forma explícita. É necessário analisar toda a relação de trabalho com profundidade para reunir o maior número de detalhes para configuração deste tipo de dispensa ilegal”, explica.

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Profissionais 50+ ouvidos pelo Portal VIVA relatam experiências de retirada de projetos, exclusão de treinamentos e isolamento dentro das equipes, o que acaba levando muitos a repensarem seus caminhos profissionais. Leia a seguir alguns depoimentos:

“Precisei empreender para fugir do etarismo”

Após sentir na pele o peso do etarismo no mercado de trabalho, Rosane Maia, 58, decidiu empreender e ajudar outros profissionais a seguirem pelo mesmo caminho.

“Eu iria precisar empreender justamente para fugir do etarismo. Por já vir da área de RH e entender esse mercado com esse problema de exclusão de profissionais mais robustos, eu já fiz esse planejamento", conta a gerente de Recursos Humanos de Curitiba (PR). O negócio começou quando ela fez 50 anos, em 2017, e abriu a consultoria chamada Ro Maia DHO.

Rosane Maia é gerente de Recursos Humanos em uma empresa em Curitiba - Foto: Arquivo pessoal
Rosane Maia é gerente de Recursos Humanos em Curitiba - Foto: Arquivo pessoal

A mudança de mentalidade é o primeiro passo para transformar a forma de enxergar a carreira e driblar a exclusão.

“Ao invés do emprego, pense na possibilidade de ser um consultor especialista na área que você domina. Não tenha vergonha de se reinventar, nem de vender. Qualquer profissional precisa saber se vender hoje, mesmo numa entrevista”, pontua.

A empreendedora sabia que recomeçar exigiria coragem, mas também preparo. Segundo ela, o conhecimento acumulado ao longo de duas décadas no mundo corporativo foi o ponto de partida para essa virada.

“Naquele momento, não houve medo de recomeçar, porque eu fiz um planejamento. Eu conhecia o mercado em que iria atuar, já fazia o trabalho como CLT e tinha maturidade profissional para encarar esse novo cenário”, afirma.

Rosane conta que, pouco tempo depois, veio a pandemia de Covid-19, que colocaria os negócios à prova. Com ajustes, como o trabalho home office, foi possível superar.

Hoje, Rosane Maia atua como consultora, mentora e treinadora. Com base na própria experiência, ela orienta profissionais 50+ que enfrentam as mesmas barreiras que a motivaram a empreender.

“Nós não podemos entrar num mercado querendo concorrer com o pessoal mais jovem. Somos profissionais mais robustos, com qualificação e conhecimento maiores. Temos que nos posicionar de forma diferente e entender qual é o nosso espaço”.

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“Falas preconceituosas são ditas covardemente em particular”

O carioca Arthur Nemer, 68, afirma que é difícil comprovar o etarismo como causa de uma demissão no Brasil, pois a exclusão costuma ocorrer sutilmente e sem registros explícitos.

“A demissão por etarismo nunca é explícita. Ela se camufla sob justificativas genéricas como 'reestruturação interna', ‘necessidade de renovação do time’ e 'falta de fit cultural', dentre outras, mais ou menos subjetivas”, afirma.

Segundo ele, raramente há provas diretas de discriminação, já que empresas e profissionais evitam deixar qualquer comunicação que evidencie esse tipo de prática.

“Falas explícita ou implicitamente preconceituosas são ditas, covardemente, em particular, sem testemunhas. E nunca no momento de demitir".

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O professor de inglês diz que a própria legislação trabalhista abre brechas para que o etarismo aconteça sem punição. Como a empresa pode demitir um funcionário sem justa causa e não é obrigada a explicar o motivo, uma eventual discriminação por idade pode ocorrer sem deixar provas ou justificativas formais, dificultando qualquer contestação.

“O trabalhador que se sente discriminado por sua idade fica com pouca ou nenhuma materialidade para demonstrar o motivo real perante a Justiça”, afirma.

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Nemer afirma que profissionais com mais de 50 ou 60 anos, mesmo sendo experientes e qualificados, acabam se sentindo mais inseguros no emprego. Para ele, esse grupo é mais vulnerável e costuma enfrentar maior dificuldade para se recolocar no mercado, já que currículos são frequentemente filtrados por critérios de idade.

Ele relata, com base em sua experiência, que o RH exige “experiência mínima de 'X' anos”, mas programa os algoritmos de triagem de currículos para excluir candidatos nascidos antes de 1976, descartando assim profissionais potencialmente mais experientes.

Com perfil ativo no LinkedIn, ele acompanha de perto casos e padrões de empresas que desligam profissionais mais velhos. Segundo Arthur, o etarismo costuma aparecer disfarçadamente, em reestruturações com critérios pouco claros, na troca por jovens com salários menores e na valorização de características subjetivas, como energia e dinamismo, usadas para justificar a preferência por candidatos mais novos.

“É comum um processo de desgaste antes da demissão, como retirada de projetos, esvaziamento de responsabilidades, exclusão de reuniões e de treinamentos em novas tecnologias e ausência em projetos estratégicos”, diz. “Outro padrão é o isolamento social do profissional sênior, cujas opiniões passam a ser vistas como ultrapassadas”, complementa.

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Para Arthur, é necessária uma jurisprudência mais robusta que deixe claro que o etarismo não se resume a uma ofensa isolada, mas se configura quando há um padrão de exclusão, como a repetida preterição de profissionais 50+ em promoções, projetos estratégicos ou processos de reestruturação.

“A Justiça do Trabalho ainda carece de uma compreensão mais profunda sobre o etarismo estrutural na sociedade e no mercado de trabalho”.

Ele ainda destaca ser preciso definir indícios claros de etarismo, como o isolamento do funcionário ou a redução do número de profissionais mais velhos após cortes, além de ampliar a cultura de compliance nas empresas, com treinamentos, critérios objetivos e auditoria de decisões.

“A experiência é o seu maior ativo, e nenhuma empresa tem o direito de desvalorizá-la com base em uma data de nascimento. Sua competência e sua dignidade profissional não têm prazo de validade”, diz.

CEO do LinkedIn tambem teve de lidar com etarismo

Milton Beck, 63, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina, revelou em entrevista ao VIVA que ele mesmo já sofreu etarismo. “Há um viés negativo com relação a pessoas mais velhas. Com a expectativa de vida maior, se não fizermos algo para mantê-las ativas no mercado de trabalho, se elas começarem a não encontrar emprego acima dos 45 anos, a situação ficará crítica, não tem como crescer e essas pessoas se manterem”, disse.

Milton Beck, CEO do LinkedIn no Brasil, aponta um viés negativo com relação a pessoas mais velhas
Milton Beck, CEO do LinkedIn no Brasil, aponta um viés negativo com relação a pessoas mais velhas - Foto: Divulgação/LinkedIn

O CEO criticou o despreparo dos recrutadores, relatando casos em que candidatos são descartados por fatores como idade ou aparência, em vez de competência. “Em uma entrevista de menos de 15 minutos, o recrutador me dispensava. É dura a vida de quem está buscando um emprego”, afirmou.

Na entrevista, ele afirmou que uma recrutadora questionou se não seria velho demais para um cargo de marketing digital.

“A pessoa fala algo como: 'obrigado, vou te contactar', e depois não te procura. E aí você fica imaginando qual foi o problema que aconteceu, será que meu currículo não era bom, será que eu não fui bem na entrevista, etc. Essa comigo foi muito clara. Eu tinha 47 anos, um bom perfil, currículo acadêmico, performance. Uso minha experiência para tangibilizar, para que fique bem visível o que acontece”, disse.

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Etarismo é difícil de comprovar e exige análise

A advogada Raquel Morandi observa que a comprovação é complexa e exige a análise de padrões internos de conduta. “É uma prova difícil de produzir, pois demanda o levantamento de práticas como demissões reiteradas de trabalhadores de determinada faixa etária, pressão para aposentadoria, esvaziamento de função e rebaixamento de cargo, entre outras”, diz.

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Ela destaca ainda que, embora a legislação brasileira proíba qualquer tipo de discriminação, os impactos do etarismo são sentidos de forma mais intensa entre os profissionais 50+ e 60+.

Raquel Morandi é advogada trabalhista brasileira com mais de 20 anos de atuação, sócia no escritório Cayres Morandi Queiroz (CMQ Advogadas) - Foto: Divulgação/Felipe Zidane
Raquel Morandi, advogada trabalhista da CMQ Advogadas, alerta que idade não é problema profissional - Divulgação/Felipe Zidane

“É fato que esses profissionais enfrentam maior dificuldade de recolocação no mercado. Esse aspecto costuma ser levado em conta tanto na caracterização da discriminação quanto na fixação do valor da indenização.”

Para a advogada, o preconceito etário ainda está enraizado em muitas culturas corporativas e “há uma valorização quase automática da juventude”, enquanto a experiência é vista como um custo a mais. 

O preconceito na prática aparece, por exemplo, quando profissionais mais velhos são deixados de fora de projetos estratégicos, têm promoções negadas com justificativas vagas ou deixam de receber investimento em capacitação.

“Muitas vezes, o trabalhador, por desgaste emocional, toma decisões precipitadas que podem fragilizar sua posição. Acima de tudo, é fundamental não internalizar a narrativa de que a idade é um problema”, afirma.

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