CONFIRA

Foco e atenção são vítimas da hiperconectividade no trabalho, diz escritora

Autora de "Ser é a Nova Revolução", Lygia Flaiano Nyikos analisa os impactos da hiperconectividade e a influência da IA no trabalho

Claudio Marques

Por Claudio Marques

09/10/2026 | 08h00

Divulgação

Lygia Flaiano Nyokos propõe reflexão sobre os impactos da cultura do excesso de estímulos - Divulgação
Lygia Flaiano Nyokos propõe reflexão sobre os impactos da cultura do excesso de estímulos
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A autora de 'Ser é a Nova Revolução', Lygia Flaiano Nyikos discute como a hiperconectividade e a busca incessante por produtividade afetam a atenção e a saúde mental dos profissionais, levando a um esgotamento cognitivo nas empresas.

Ela destaca que a cultura organizacional muitas vezes confunde disponibilidade com comprometimento, resultando em um ambiente onde a velocidade de resposta é valorizada em detrimento da qualidade do trabalho, o que pode gerar fadiga e perda de eficiência.

Para enfrentar esses desafios, Nyikos sugere práticas de atenção consciente e mudanças na cultura corporativa, como a redução de notificações e a definição de períodos sem reuniões, promovendo uma relação mais equilibrada com a tecnologia.

Resumo gerado por IA

São Paulo - A hiperconectividade e a busca constante por produtividade fragmenta a atenção e esgota os recursos cognitivos dos profissionais nas empresas. É o que afirma a autora do livro "Ser é a Nova Revolução: Da performance à presença" (Labrador Editora), Lygia Flaiano Nyikos.

Em algumas organizações, criou-se uma expectativa silenciosa de disponibilidade permanente. O colaborador sente que precisa responder imediatamente, inclusive fora do expediente, para demonstrar responsabilidade e produtividade. Como empresária, acredito que precisamos questionar essa lógica.
Lygia Flaiano Nyokos, escritora e empresária

Sua trajetória une pensamento crítico e sensibilidade: da gestão de pessoas à escrita, da filosofia às práticas de autocuidado. Advogada de formação, com especialização em Ciências Humanas e História da Arte, é também empresária, dona de negócio de cosméticos e estética.

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Seu livro propõe uma reflexão sobre os impactos da cultura da produtividade, da hiperconectividade e do excesso de estímulos na vida contemporânea, estabelecendo diálogos entre neurociência, filosofia, comportamento e experiências pessoais. 

VIVA Entrevista

A hiperconectividade está presente também nas empresas? 

Lygia Flaiano Nyikos: Sem dúvida. E acredito que as empresas sejam um dos ambientes em que essa hiperconectividade se manifesta de maneira mais evidente, porque muitas vezes confundimos disponibilidade com comprometimento e velocidade de resposta com eficiência. Hoje, um profissional pode estar participando de uma reunião enquanto recebe mensagens pelo WhatsApp, notificações de e-mail e solicitações de diferentes plataformas. Ele está aparentemente realizando várias atividades, mas dificilmente consegue dedicar atenção plena a todas elas.

Existe também uma dimensão cultural importante. Em algumas organizações, criou-se uma expectativa silenciosa de disponibilidade permanente. O colaborador sente que precisa responder imediatamente, inclusive fora do expediente, para demonstrar responsabilidade e produtividade. Como empresária, acredito que precisamos questionar essa lógica.

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Por quê?

Uma organização não deveria medir o comprometimento de seus profissionais pela velocidade com que respondem uma mensagem, mas pela qualidade das suas entregas, pela capacidade de reflexão e pelos resultados que produzem.

A tecnologia deveria facilitar o trabalho, não transformar cada profissional em alguém permanentemente de prontidão. Estar disponível o tempo inteiro não significa estar verdadeiramente presente em momento algum.

Quais são as consequências da hiperconectividade? 

Uma das principais consequências é justamente a fragmentação da atenção. Quando alternamos repetidamente entre mensagens, reuniões, documentos e notificações, nosso cérebro precisa reorganizar os recursos cognitivos para acompanhar cada nova demanda. Na neurociência e na psicologia cognitiva, esse fenômeno é estudado por meio do chamado task-switching cost (em inglês), ou custo da alternância entre tarefas.

Em atividades complexas, o cérebro não realiza necessariamente tudo ao mesmo tempo. Ele alterna o foco entre diferentes demandas, e essa alternância envolve custos de tempo e esforço mental.

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O que isso provoca?

Pode comprometer a concentração, a memória de trabalho, a capacidade de aprofundamento e a qualidade das decisões. Para o trabalhador, pode representar maior fadiga mental e sensação de sobrecarga. Para as empresas, pode significar retrabalho, erros, perda de eficiência e menos espaço para criatividade e pensamento estratégico. 

A inteligência artificial acrescenta uma discussão interessante. Ela pode ser uma ferramenta extraordinária para reduzir tarefas repetitivas, organizar informações e ampliar nossa capacidade de realização. Entretanto, também pode intensificar a hiperconectividade, quando aumenta a quantidade de informações, solicitações e resultados que esperamos processar.

É o paradoxo da eficiência: quanto mais rapidamente conseguimos produzir, mais podemos passar a exigir de nós mesmos. A questão central não é quanto a tecnologia consegue fazer por nós, mas o que escolhemos fazer com o tempo e a atenção que ela nos devolve. Não precisamos apenas de tecnologias que acelerem processos, mas de consciência para decidir o que merece ser acelerado.

Existem pesquisas a respeito?

Sim, e algumas pesquisas ajudam a compreender como a presença constante da tecnologia pode interferir nos nossos recursos cognitivos. Estudo publicado em 2017 no "Journal of the Association for Consumer Research" e realizado por pesquisadores como Adrian Ward, investigou o impacto da simples presença do smartphone sobre a capacidade cognitiva.

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Em um dos experimentos, com 520 participantes, aqueles que deixaram o celular em outra sala apresentaram melhor desempenho em determinadas tarefas cognitivas do que aqueles que mantiveram o aparelho sobre a mesa. É um resultado interessante porque sugere que não precisamos necessariamente utilizar o aparelho para que sua presença dispute parte dos nossos recursos cognitivos.

Outro aspecto relevante é o custo da alternância entre tarefas, documentado em pesquisas da psicologia cognitiva. Trocar constantemente de atividade exige ajustes mentais, e esses pequenos custos podem se acumular ao longo do dia. No ambiente corporativo, o relatório "Work Trend Index", divulgado pela Microsoft em 2025, identificou que, entre os trabalhadores analisados por meio de dados do Microsoft 365, havia, em média, uma interrupção por reunião, e-mail ou mensagem a cada dois minutos durante o horário central de trabalho.

Esses estudos investigam aspectos diferentes, mas ajudam a compreender um fenômeno contemporâneo: vivemos cercados por estímulos que competem continuamente pela nossa atenção. 

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E considero importante lembrar que atenção não é um recurso ilimitado. Ela precisa ser direcionada, preservada e recuperada.

A busca por desempenho e cumprimento de metas, então, pode levar à hiperconectividade?

Sim, especialmente quando a produtividade deixa de ser uma ferramenta de realização e passa a representar uma medida de valor pessoal. No livro "Ser é a Nova Revolução", discuto justamente essa transformação cultural. Aprendemos a associar estar ocupado a ser importante, estar disponível a ser comprometido e produzir continuamente a ser bem-sucedido. Naturalmente, metas são importantes.

Como empresária, reconheço a necessidade de planejamento, desempenho e resultados. O problema não está na ambição, mas na ausência de limites. Quando uma organização valoriza exclusivamente a velocidade e a quantidade de entregas, pode criar um ambiente em que ninguém se permite desconectar.

Pessoa digita teclado de um computador com a mão direita e confere o celular segurado pela mão esquerda
Pessoas passam a trabalhar em estado permanente de urgência - Adobe Stock

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E qual é a consequência?

A consequência é que muitas pessoas passam a trabalhar em um estado permanente de urgência, mesmo quando nem todas as demandas são verdadeiramente urgentes. Existe ainda uma questão que considero fundamental: precisamos diferenciar produtividade de ocupação. Um profissional que passa o dia respondendo mensagens pode terminar o expediente com a sensação de ter trabalhado intensamente, mas sem ter conseguido avançar nas atividades que exigiam reflexão e profundidade. 

E uma empresa que confunde movimento com resultado pode acabar estimulando exatamente os comportamentos que prejudicam sua eficiência. O verdadeiro desafio não é fazer cada vez mais coisas, mas preservar a capacidade de fazer bem aquilo que realmente importa.

Como é possível enfrentar esse processo?

Acredito que precisamos enfrentar a hiperconectividade em duas dimensões: individual e organizacional. No plano individual, defendo pequenas práticas de atenção consciente. Uma delas é estabelecer períodos de atenção exclusiva, nos quais realizamos uma atividade sem interrupções digitais desnecessárias. Também podemos criar contratos pessoais com a tecnologia, desativar notificações que não são essenciais, estabelecer horários para consultar mensagens e reservar momentos cotidianos sem telas.

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No meu livro, apresento um conceito que chamo de “sacramento do instante”, a possibilidade de interromper o piloto automático e recuperar a experiência consciente das pequenas coisas, como tomar um café sem olhar para o celular ou conversar com alguém sem dividir a atenção com uma tela. Mas seria injusto atribuir toda a responsabilidade ao indivíduo.

E nas empresas?

Nas empresas, é necessário rever a cultura de comunicação, estabelecer critérios de urgência, respeitar períodos de concentração e compreender que disponibilidade permanente não é sinônimo de desempenho. Uma organização pode, por exemplo, adotar horários de trabalho sem reuniões, reduzir notificações desnecessárias e definir prazos realistas para respostas. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de construir uma relação mais consciente com ela. A tecnologia deve servir à nossa capacidade de viver e realizar, e não determinar permanentemente o ritmo da nossa existência.

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