Longevidade acelerada faz carreira linear perder espaço, dizem especialistas
Presença maior de 60+ em atividade reabre a discussão sobre modelos que tratam a aposentadoria como "ponto final" da vida profissional
Alexandre Barreto/VIVA
A longevidade crescente está transformando a percepção sobre a carreira, permitindo que profissionais acima de 50 anos explorem novas oportunidades, como mudar de área ou empreender, em vez de seguir um caminho linear até a aposentadoria.
O painel 'O trabalho depois da linha reta', realizado no 8º Fórum e Festival Longevidade, destacou que as organizações precisam adaptar suas estruturas para aproveitar a experiência e a qualificação de trabalhadores mais velhos, que podem ser produtivos por mais tempo.
Especialistas sugerem que a preparação para a aposentadoria deve incluir o desenvolvimento de novas habilidades e interesses, além de considerar a possibilidade de atuar em diferentes papéis, com quase 50% das posições de C-Level ocupadas por profissionais com mais de 50 anos nos últimos dois anos.
São Paulo - A ideia de que a carreira começa, cresce e termina com a aposentadoria está deixando de ser o único modelo possível para quem chega aos 50, 60 anos ou mais. Com a longevidade acelerada, novas possibilidades se abrem: mudar de área, empreender ou voltar a estudar, transformando a experiência acumulada em um ponto de partida para novos caminhos.
O tema foi discutido no painel “O trabalho depois da linha reta”, realizado nesta quinta-feira, 24, durante o 8º Fórum & Festival Longevidade, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo.
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Participaram do debate Maria José Tonelli, da FGV, Ricardo Voltolini, da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Renata Fabrini, da Plongê, e Rodrigo Goulart, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho de São Paulo. A mediação foi de Juliana Ramalho, da Talento Sênior.
Carreira não é mais uma linha reta
A discussão partiu da mudança demográfica que afeta diretamente o mercado de trabalho: as pessoas estão vivendo mais, mas as organizações ainda carregam estruturas profissionais criadas para uma realidade em que a carreira tinha um percurso mais previsível.
Para Maria José Tonelli, professora da FGV, a longevidade exige repensar a relação entre trabalho, formação e tempo de vida. Ela destacou que profissionais podem chegar a idades mais avançadas ainda qualificados e produtivos, enquanto o mercado precisa encontrar novas formas de aproveitar essas trajetórias.
Se vamos viver mais, precisamos de mais educação, pois o processo de envelhecimento no mercado de trabalho é muito rápido."
Maria José Tonelli
A professora também chamou atenção para a necessidade de novas qualificações ao longo da vida. Segundo ela, a formação profissional não deveria ficar concentrada apenas no início da carreira.
Além disso, Tonelli diz que o trabalho não representa apenas uma fonte de renda, pois também pode estar relacionado à identidade, à rotina e à maneira como uma pessoa se reconhece socialmente.
Por isso, deixar o mercado de trabalho pode representar uma mudança maior do que simplesmente "parar de receber um salário".
Identidade depois da aposentadoria
Ricardo Voltolini, da ABRH, apresentou uma reflexão sobre o que acontece quando pessoas que passaram décadas associando sua identidade ao trabalho chegam à aposentadoria. Para ele, a preparação precisa considerar também os anos que vêm depois do fim de uma carreira tradicional.
O fim da linha, a linha reta, é previsível. Mas é marcado pela previsibilidade. E agora as questões não são tão previsíveis".
Ricardo Voltolini
O ponto levantado por ele é que a aposentadoria pode abrir diferentes caminhos, desde que a pessoa tenha construído interesses e habilidades que não estejam ligados exclusivamente à profissão que exerceu durante décadas.
"A questão deixa de ser apenas 'quando vou me aposentar?' e passa a incluir perguntas como: o que quero fazer depois? Quais conhecimentos posso usar em outra atividade? Quero continuar trabalhando? Quero estudar? Existe outra área na qual posso atuar?", questiona.
Entre os pontos levantados, os principais são: manter-se atualizado, desenvolver interesses fora da profissão, aprender novas habilidades e construir diferentes possibilidades de atuação.
Para ele, esse processo passa também pelo autoconhecimento e permite pensar em diferentes trajetórias ao longo da vida. “Acho que dá para a gente se reinventar aos 60, aos 70, aos 80, aos 90, talvez aos 100", disse. O especialista também afirma que trabalhar depois dos 60 deixa de ser visto "apenas como uma obrigação" e passa a incluir diferentes escolhas.
Maturidade traz novas perspectivas
Renata Fabrini, da Plongê, consultoria de seleção e recrutamento executivo, destacou que a mudança também depende das organizações. Para ela, empresas precisam considerar quem é o profissional em cada momento da vida e quais possibilidades existem além do cargo ocupado anteriormente.
Uma das alternativas citadas no painel foi o modelo de “talent as a service”, em que profissionais podem contribuir com organizações em outros papéis, sem necessariamente seguir a trajetória tradicional de ascensão dentro de uma empresa.
Fabrini afirmou que essa abertura permite pensar em outras formas de aproveitamento da experiência acumulada. “Às vezes não é só naquela linha reta que você vai se realizar profissionalmente."
Segundo ela, a maturidade profissional pode estar relacionada à capacidade de considerar novas perspectivas e estabelecer conexões diferentes.
A beleza da maturidade é essa: entender que, dependendo do setênio, você está muito mais apto a fazer escolhas e muito mais consciente do que quer para pensar os próximos setênios que, sim, serão longevos."
Renata Fabrini
De acordo com o dado da Plongê apresentado no painel, quase 50% das posições de C-Level concluídas pela empresa nos últimos dois anos foram ocupadas por profissionais 50+.
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