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Exclusivo: governo Lula estuda batizar nova pasta de Ministério da Longevidade

O novo órgão do governo federal deverá ter foco na saúde, fundamentada no conceito da nova geriatria, segundo médico que assessora o governo

Paula Bulka Durães

Por Paula Bulka Durães

30/10/2026 | 13h46 ● Atualizado | 13h59

Ricardo Stuckert

O presidente reeleito se emocionou com os vídeos de pessoas idosas sendo carregadas para votar - Ricardo Stuckert
O presidente reeleito se emocionou com os vídeos de pessoas idosas sendo carregadas para votar
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O governo de Luiz Inácio Lula da Silva planeja criar um novo ministério, possivelmente chamado Ministério da Longevidade, para atender a população idosa, em resposta ao apoio significativo desse grupo durante as eleições, o que pode impactar as políticas públicas voltadas para a saúde e bem-estar dos idosos.

A proposta, defendida por especialistas como Renato Peixoto Veras, busca um modelo de cuidado centrado na funcionalidade e saúde dos idosos, refletindo uma mudança na abordagem médica tradicional, que historicamente focou em doenças agudas.

Entidades estão pressionando pela criação da nova pasta, enquanto especialistas alertam sobre a necessidade de garantir financiamento adequado para que o ministério não se torne inoperante, destacando a importância de integrar políticas públicas que vão além da saúde, como direitos e assistência social.

Resumo gerado por IA

São Paulo - O quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deverá contar com a abertura de uma nova pasta, focada na política de atenção à pessoa idosa. O órgão, especulado inicialmente como Ministério do Idoso, poderá ganhar corpo como Ministério da Longevidade.

A proposta é defendida pelo médico epidemiologista Renato Peixoto Veras, diretor do Núcleo do Envelhecimento Humano da UERJ (NucEH) e fundador da Universidade Aberta à Terceira Idade (UnATI), que está em diálogo direto com Brasília (DF) para dar o escopo científico à formulação da supersecretaria ou ministério.

O movimento que foi feito pelo presidente foi muito importante de declarar um novo ministério, que não vai ser Ministério do Idoso. O nome que eu proponho é Ministério da Longevidade.
Renato Peixoto Veras, diretor do NucEH/UERJ

De acordo com ele, a sugestão está sendo avaliada pelo governo. A informação sobre a intenção de criar um órgão destinado à população idosa foi confirmada ontem, 29, com exclusividade ao VIVA pelo coordenador de campanha de Lula, Marco Aurélio de Carvalho.

Ministério terá foco em saúde

Médico Renato Peixoto Veras discursa ao microfone em púlpito com veste acadêmica.
Renato Peixoto Veras está em diálogo direto com representantes do governo federal - Acervo Pessoal

Agora, em entrevista ao VIVA, o médico Renato Peixoto Veras, que tem recebido telefonemas constantes de representantes do governo, reforça que a nova pasta terá um olhar focado em saúde, em especial no que chamou de nova geriatria.

"A medicina tem que abrir os olhos para essa questão, porque a grande chave hoje em dia é o monitoramento, a participação social, a funcionalidade do idoso", afirma.

O epidemiologista argumenta que o ensino médico tradicional nas faculdades foi estruturado historicamente para a medicina de episódios agudos, focada em "curar, dar remédio e mandar para o hospital".

"A faculdade de medicina ensina para os meus colegas jovens médicos a 'cura, cura, cura'. Mas cura o quê, se as doenças são crônicas? O papel do médico é estabilizar e acompanhar. As pessoas não acreditam que a pessoa de 80 anos tem alguma coisa a contribuir, mas o mundo mudou."

O que motivou a ideia para criar um novo ministério?

O pesquisador reforça que a motivação do governo Lula para estruturar a nova pasta nasce do sentimento de gratidão pela participação cívica das pessoas idosas, as quais protagonizaram um comparecimento maciço no segundo turno, o que, segundo o médico, foi decisivo para a vitória presidencial.

Essa versão foi endossada ao VIVA pelo coordenador de campanha. Ele afirmou que o presidente reeleito se emocionou com os vídeos de pessoas idosas sendo carregadas pelos filhos e netos, superando as limitações físicas para ir às urnas no domingo, 25.

"O número de pessoas de mais de 60 anos indo votar foi uma coisa fantástica. O Lula ficou muito grato a esse segmento etário. Eles conseguiram botar o Lula na Presidência porque a mobilização foi absolutamente incrível", disse.

Saúde é o foco, mas e os direitos?

A criação da pasta encontra respaldo científico e metodológico no livro de Veras, "Compêndio do Envelhecimento: Um novo modelo de cuidado à pessoa idosa centrado na funcionalidade", que será publicado ainda neste ano.

A obra sintetiza décadas de pesquisas acadêmicas e práticas na UERJ e na saúde suplementar (Caberj). Para o pesquisador, o Ministério da Longevidade traduzirá a vitória de 20 a 30 anos adicionais de vida conquistados pela população brasileira.

Em seus escritos, Veras defende um modelo assistencial no território, com uma equipe multiprofissional integrada — médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, farmacêuticos e assistentes sociais —, em que a saúde é avaliada pela capacidade funcional, e não mais pelo número de exames e diagnósticos no prontuário.

Contudo, a criação do novo ministério pode significar o desmonte da Secretaria dos Direitos da Pessoa Idosa, hoje vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Segundo o coordenador de campanha de Lula, a pasta deixará de existir para não haver sobreposição.

Fontes que atuam na área afirmaram ao VIVA que a articulação de uma secretaria junto aos Direitos Humanos foi uma conquista inquestionável, que não deveria sofrer retrocessos, uma vez que a pauta do envelhecimento não se limita às condições de saúde.

No plano de governo de Lula, está especificado que as políticas públicas não devem se limitar à saúde, contemplando parcerias com o setor privado, políticas de transferência de renda, capacitações digitais e ações focadas no cuidado.

Entre as pendências para a próxima gestão do Executivo e do Legislativo, estão a ampliação do Plano Nacional de Cuidados, a ratificação da Convenção Interamericana de Direitos da Pessoa Idosa e a formalização da profissão de cuidador, que voltou ao Congresso após ser vetada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2019.

O contraponto econômico

Apesar de reconhecer a visibilidade institucional, o economista político e professor de Gerontologia da USP Jorge Félix adverte que a criação do ministério exige cautela diante do atual cenário de restrição e pressão fiscal.

Félix ressalta que a proposta já circulava nos bastidores políticos, mas adverte que a pasta corre o risco de se tornar inoperante se não possuir verbas vinculadas e garantidas.

"Com um ministério, sem dúvida nenhuma, vai se dar visibilidade para as políticas públicas que são necessárias para a população idosa. No entanto, a gente deve observar se esse ministério terá orçamento, porque nós estamos numa pressão fiscal muito grande", pondera.

Quem tem interesse na pasta?

Segundo o economista, as secretarias da pessoa idosa já existentes em alguns municípios — como Londrina (PR) e Niterói (RJ) — atraem um forte interesse de bancadas partidárias, como a bancada evangélica, com o potencial de unir a oposição e a base governista.

Além disso, a criação de uma nova pasta poderá enfrentar a pressão do mercado privado e de fundos de private equity interessados em financeirizar Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) e serviços de saúde.

Existe, assim como no SUS, uma reação do mercado para que o País não faça políticas públicas em torno do cuidado, porque eles querem mercantilizar.
Jorge Félix, economista político

Entidades pressionam a criação

Desde que especulações sobre a criação de um novo ministério voltado à população idosa vieram à tona, entidades vêm se mobilizando para pressionar o governo Lula a estruturar a pasta com o nome de Ministério da Longevidade.

Nesta sexta-feira, 30, foi enviada a "Carta Aberta ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva", elaborada pelo Coletivo pelo Ministério da Longevidade. O documento é subscrito por dezenas de especialistas, promotores de Justiça, pesquisadores e representantes de entidades de classe.

No manifesto, as entidades fazem um apelo explícito pelo aperfeiçoamento do nome e do escopo do órgão, excluindo o termo "idoso", rótulo que reforça o idadismo, contrariando as diretrizes da Década do Envelhecimento Saudável da OMS (2021–2030).

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