Emilio Moriguchi
Colunista VIVA
11/05/2026 | 10h44
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Médico PhD e geriatra é fundador do Instituto Moriguchi, em Veranópolis (RS), a 'blue zone' brasileira. É professor de medicina na UFRGS e professor-visitante em Chiba e Keio (Japão).
O conceito da melhor idade deveria acontecer, mas não é a realidade
Envato
Veranópolis (RS) - “Doutor, me faz alguma coisa, porque ficar velho está sendo um castigo”. Essa é uma queixa relativamente comum nos pacientes que me procuram e que me deixa muito triste na minha prática como médico geriatra. Porque, se temos um objetivo na vida, todos nós queremos ser felizes e, chegar nos últimos capítulos da vida, ter que se queixar que viver está sendo castigo é muito triste.
O conceito da “melhor idade” deveria acontecer, mas, infelizmente, vejo que não é a realidade para muitas pessoas no nosso meio. O que temos que fazer para que o envelhecimento não seja um castigo?
Do ponto de vista biológico, é realidade inevitável que as funções físicas começam a declinar após a terceira década da vida. O segredo está em não deixar que esse declínio possa afetar a nossa qualidade de vida e que possamos nos manter satisfeitos e felizes com a vida até que possamos dormir em paz."
Esse segredo não está nas últimas descobertas da medicina nem nos suplementos com promessas atraentes que inundam a nossa sociedade.
O segredo está em viver bem a vida, com motivação e em boa companhia, como tem ficado evidente nos grandes trabalhos de pesquisa no mundo.
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Há várias áreas no mundo que chamam a atenção pela longevidade saudável e pelos idosos muito alegres e felizes. Nós temos acompanhado esses estudos, inclusive com nosso próprio estudo em Veranópolis (RS) há mais de 30 anos, e aprendemos lições importantes para se atingir um envelhecimento ativo e feliz.
Lições para o envelhecimento feliz
Apesar das culturas e etnias diversas: em todos os continentes, locais diferentes: áreas montanhosas ou no litoral, alimentação diversa: passando por dieta japonesa, mediterrânea, vegetariana ou misturada, algumas características se destacam nessas localidades de longevidade feliz.
Uma das características é o espírito de família, de comunidade, de convívio que as pessoas dessas comunidades aprendem, desde o início das suas vidas nas famílias (geralmente com várias gerações juntas), com refeições tomadas juntas nas famílias e nas comunidades locais, regadas com espírito de partilha e de bem comum.
Nesses locais, nos finais de semana e nas festas locais, as famílias se reúnem e realizam atividades em conjunto, cultivando um espírito comunitário e de bem, a onde as pessoas se ajudam e o contato face-a-face é constante no dia a dia.
As boas companhias que surgem neste convívio familiar e de comunidade, aonde surgem os amigos para a vida, sabidamente é um dos fatores dos mais importantes para um envelhecimento saudável e feliz.
A saúde não é ausência de doenças, pois todos nós podemos ficar doentes ao longo do envelhecimento, mas o conceito da saúde está muito acima disso: é o de bem-estar físico, emocional e social, apesar das doenças."
Por outro lado, mesmo nessas comunidades, as pessoas que ficam isoladas, em solidão, são aquelas que vão declinando das suas capacidades funcionais e mentais, ficam doentes e são infelizes.
A solidão é um grande problema para o envelhecimento feliz, o que tem acontecido muito nas grandes cidades e sociedades muito competitivas a onde os mais jovens não ficam nas suas famílias e comunidades e os idosos ficam sozinhos, sem condições de interagirem com outros idosos da sua comunidade.
Outra característica importante nesses idosos longevos e felizes é de se ter motivação para o seu dia a dia, um propósito de vida. É acordar todos os dias agradecido pela vida e ter propósitos do que fazer de bem naquele dia: para si, para a família ou para a comunidade: sentir-se útil e necessário para as pessoas que rodeiam a sua vida.
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Esse sentimento de motivação, de propósito de vida, chamada em japonês de IKIGAI é o que essas pessoas idosas, independente do local em que vivem, cultivam no seu espírito e vão envelhecendo saudáveis e felizes. Os estudos sobre ter uma vida com propósito e motivação para o dia a dia são inúmeros e mostram o seu impacto positivo para longevidade saudável e feliz não somente no Japão, mas na Europa, nos Estados Unidos e na América Central.
“Doutor, me faz alguma coisa, porque ficar velho está sendo um castigo...”
Para que esse tipo de queixa possa diminuir no nosso meio, temos que começar por nós mesmos, educando-nos para uma vida em família, em boa companhia:
- criar tempo para nós mesmos (tempo para atividade física, repouso e lazer),
- criar tempo para o convívio com família e amigos, cuidar dessas pessoas (até com conselhos sobre a sua saúde)
- e realizar atividades em comum que nos motivem para fazermos coisas boas juntos.
Os estudos mostram que viver atividades juntos, com um propósito (de fazer o bem, ajudar as pessoas ou comunidades necessitadas) em companhia de pessoas que têm a mesma motivação, faz as pessoas viverem mais e serem mais felizes na sua velhice.
Ninguém envelhece feliz sozinho: podemos envelhecer felizes junto com as pessoas próximas com quem podemos fazer o mundo melhor. Feliz envelhecimento para todos!
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