Facebook Viva Youtube Viva Instagram Viva Linkedin Viva

Aposentadoria ativa: profissionais reconfiguram carreira e se reinventam

Envato

Mentoria é uma das atividades que pode ser adotada por profissionais maduros ao se aposentarem - Envato
Mentoria é uma das atividades que pode ser adotada por profissionais maduros ao se aposentarem
Por Claudio Marques

24/01/2026 | 14h00 ● Atualizado | 14h01

São Paulo, 24/01/2026 - Foi-se o tempo em que a aposentadoria encerrava a vida profissional de um trabalhador. Pesquisa realizada pela Serasa em 2024 mostra que 60% dos aposentados continuam trabalhando. Dados do INSS mostram que existem em torno de 24 milhões de aposentados pelo Regime Geral de Previdência. Ao mesmo tempo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou aumento no nível de ocupação de pessoas com 60 anos, em 2024, com recorde de 24,4% ante 23,0% em 2023.

Leia também: Dia do aposentado para além do INSS: o novo perfil do idoso

Embora dois terços precisem continuar trabalhando para complementar a renda, conforme a pesquisa da Serasa, feita em 2024, o aumento da longevidade e da vitalidade leva muitos aposentados a optarem por uma nova atividade ou transição de carreira quando, ao menos teoricamente, seria o momento de dar baixa na carteira de trabalho. 

Marco simbólico

“A aposentadoria não encerra a vida profissional, mas redefine alguns limites. Ela passa a funcionar como um marco simbólico, uma reconfiguração. Não é apenas um evento previdenciário”, diz a sócia e CDO da Talento Sênior, Cris Sabbag. A empresa conecta organizações a profissionais com mais de 45 anos.

Leia também: Ao procurar ou manter emprego, flexibilidade é importante para 100% da geração 65+

Para ela, não se deve reduzir esse movimento a uma questão financeira, já que a aposentadoria pode criar uma espécie de liberdade psicológica, ao oferecer a possibilidade de romper com a lógica do emprego tradicional. E passar a revisar suas escolhas e se reinventar. 

“Claro, uma grande parte pensa na questão financeira, precisa dela. Mas uma outra parte vai se reinventar e aí sim vai fazer a transição, vai revisar a sua escolha, os ritmos e os formatos de atuação que antes pareciam imutáveis. Então, pode ser um excelente momento de virada”, reforça Sabbag.

Tempo de mudança

“Há quatro anos eu mudei 100% a minha carreira”, afirma Jaime Caetano de Almeida, que depois de 32 anos de atuação na indústria farmacêutica, hoje é sócio e VP da Fesa Group, que se dedica ao recrutamento executivo, desenvolvimento de talentos e estratégia de pessoas. Ele se aposentou há 8 anos e continuou atuando no setor, mas a virada só veio quando decidiu se tornar consultor. 

[Colocar ALT]
Jaime de Almeida deixou a vida corporativa e se tornou consultor depois se aposentar - Divulgação / Fesa

Ele atuou em vendas, depois migrou para marketing. “Depois comecei a juntar as duas áreas, marketing e vendas, fui diretor comercial durante muitos anos”, conta. Em seguida, derivou para outras áreas, como planejamento estratégico, desenvolvimento de negócios até começar a se envolver com a área de inovação e melhoria contínua. Mas, em certo ponto, caiu a ficha: o que o seduzia era tratar com pessoas. Então, passou a atuar no treinamento, desenvolvimento e onboarding de executivos.

Ao deixar o mundo corporativo, procurou uma carreira nova e se decidiu pela consultoria, na área em que gosta: gente. “Passei a atuar no desenvolvimento de carreiras, incluindo as de pessoas de grupos minorizados”, detalha. “Hoje, eu me vejo num cenário nessa nova profissão de poder trabalhar com diversas empresas, atuando em frentes múltiplas.”

Necessidade de se preparar

No entanto, tanto Almeida quanto Sabbag alertam para a necessidade de se preparar para esse momento. Afinal, as pessoas costumam se preparar para entrar no mundo do trabalho, mas não para sair dele. Desde cedo, por exemplo, ele começou a se planejar e investiu em uma carreira paralela. E em 2002 se tornou professor – dá aulas no MBA da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq).

Chris Sabbag sentada em um sofá, sorrindo e com echarpe no pescoço caindo a frente de seu corpo
Chris Sabbag é CDO da Talento Sênior e autora do livro Trabalhabilidade - Divulgação

Sabbag é incisiva: “Não dá para romantizar”. É preciso reconhecer que nem todo aposentado tem capital de saúde, rede e escolaridade para fazer essa virada de forma planejada.

“Quando a transição não é feita de forma planejada, vai virar uma condição que não é sustentável”, avalia.

Nessa situação, muitos devem migrar para atividades menos intensivas e, às vezes, menos chamativas e desejadas. “É um momento crítico de ajuste”, diz ela. A continuidade do trabalho, então, vai se dar na base de sobrevivência e não de estratégia. 

Perennials

No caso de Almeida, além do preparo financeiro, ele também buscou apoio em mentoria. “Eu tive uma mentora espetacular, que é a Rosa Alba Bernhoeft. E ela falava muito da segunda e terceira carreira, porque se continuarmos com essa mania de viver até os 80, 90 anos de idade, vai dar para fazer no mínimo duas, se não três carreiras”, comenta.

Leia também: Dia do Aposentado: história evidencia luta por dignidade e proteção social

É essa longevidade e resiliência no trabalho que está levando as gerações mais velhas a serem chamadas de perennials (perenes), como admitem Almeida e Sabbag. “Eu gosto quando as pessoas vêm com um jargão melhor, mas é preciso não generalizar”, diz ela.

A importância do aprendizado contínuo

A transição de carreira ou permanência no mercado implica em atualização. Principalmente quando o aprendizado durante toda a vida está cada vez mais presente nas discussões do mercado. "O lifelong learning pode ser muito importante nessa hora”, diz Muller Gomes, especialista em recrutamento da consultoria Robert Half. 

“A maior discussão que temos hoje no mercado de trabalho é sobre profissionais qualificados. E aqui não estamos falando do ensino tradicional, acadêmico, mas sim de aprendizado contínuo. Surgem tecnologias, novas ferramentas a todo momento, surgem necessidades de habilidades novas, sejam técnicas ou comportamentais a todo momento. Se a pessoa não está aberta a aprender, a estudar, fica ultrapassada”, compelmenta.

Onde estão as oportunidades

Algumas áreas ou atividades podem apresentar mais oportunidades para esses profissionais. Como no caso de consultoria. Também em educação, oferecendo mentorias ou treinamentos corporativos, compartilhando o saber acumulado ao longo do tempo. Em design, projetos, atividades ligadas à área do cuidado. 

Sabbag defende que o modelo de trabalho remoto ou híbrido também ajuda o profissional aposentado a se recolocar no mercado. E o empreendedorismo pode ser outra fonte de atividade. Ela afirma estar ocorrendo movimento relevante de profissionais 60+ que estão estruturando os seus talentos como negócio. “Vendem o seu trabalho, o seu intelecto, é um empreendedor de si mesmo”, diz, referindo-se ao modelo de contratação sob demanda, também conhecido como talent as a service (TaaS). 

Segundo ela, esse modelo mais flexível dá a possibilidade de o profissional 60+ trabalhar. “Nossos maiores clientes contratam profissionais que foram de bancos, diretores de grandes empresas, para trabalhar com eles duas vezes por semana”, exemplifica.

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.

Gostou? Compartilhe

Últimas Notícias