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Pé na estrada da reinvenção de carreira: caminhoneiras 50+, por que não?

Arquivo pessoal

As caminhoneiras 50+ Cátia Pires e Ruzi Mel encontraram nas estradas uma forma de transformar suas carreiras - Arquivo pessoal
As caminhoneiras 50+ Cátia Pires e Ruzi Mel encontraram nas estradas uma forma de transformar suas carreiras
Por Alexandre Barreto

15/08/2026 | 08h00

São Paulo - Aos 50 anos ou mais, mulheres caminhoneiras têm encontrado nas estradas uma oportunidade de recomeço profissional. Embora ainda sejam minoria, elas vêm conquistando espaço ao volante de caminhões no Brasil e enfrentam desafios como o preconceito, a falta de estrutura nas estradas e os estereótipos de gênero.

Dados exclusivos do Ministério dos Transportes, enviados ao VIVA, mostram que, entre 31 de dezembro de 2025 e 31 de julho de 2026, havia 35.724 mulheres trabalhando como caminhoneiras de forma remunerada.

No recorte por faixa etária, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) registrou 3.436 motoristas de caminhão com 50 anos ou mais e vínculo empregatício em 2025. O número representa um aumento de 35,5% em relação a 2023, quando eram 2.536. Em 2024, foram contabilizadas 2.773 profissionais.

Ao todo, eram 16.349 mulheres com vínculo CLT na categoria em 2025. Porém, o número pode ser maior, já que muitas caminhoneiras atuam como autônomas, MEIs ou sem registro formal. Elas representavam apenas 1,38% dos profissionais registrados no setor. Os homens somavam 1.170.195 vínculos, ou 98,6% do total.

Pé na estrada é um recomeço

Os dados mostram que a presença feminina nas estradas continua distante da paridade, mas também revelam que mulheres maduras estão ocupando um espaço historicamente associado aos homens. Para muitas delas, a profissão surge como uma possibilidade de recomeço depois dos 40 ou 50 anos.

Ruzi adotou o rosa como parte de sua identidade em seus caminhões
Ruzi adotou o rosa como parte de sua identidade em seus caminhões - Arquivo pessoal

É o caso de Ruzimélia Basso, mais conhecida como Ruzi Mel, que acumula quase duas décadas ao volante de caminhões aos 59 anos. Antes de entrar no transporte, ela trabalhou em escritório e no setor de bijuterias. A falência do negócio, quando tinha 38 anos, marcou o início de uma mudança profissional que ela não havia planejado, mas que se transformou em carreira.

Ela conta que entrou no setor quando buscava uma nova oportunidade profissional. Como sempre gostou de dirigir, chegou a pensar em trabalhar como motorista particular “de madame”. Porém, a ideia de conduzir um caminhão surgiu de uma conversa do dia a dia.

“Eu sempre gostei de carro grande. Aí conheci uma pessoa cuja esposa trabalhava como motorista de caminhão e me interessei”, lembra. Na época, Ruzi não tinha habilitação para conduzir caminhões e estava sem dinheiro. Para conseguir a carteira necessária, vendeu um computador que possuía. Depois, começou a procurar empresas que contratassem mulheres sem experiência.

A primeira oportunidade demorou cerca de um ano para aparecer. Quando foi chamada para o processo seletivo, fez o teste e iniciou uma carreira que já dura 19 anos.

Eu nem sabia dirigir caminhão, mas fiz o teste, passei e comecei a trabalhar. Desde então, sempre trabalhei com carteira assinada”, afirma.

Ao longo desses anos, Ruzi transportou diferentes tipos de carga e também trabalhou em serviços urbanos. Já dirigiu caminhão de coleta de objetos, caminhão-pipa e veículos de carga para entregas de produtos como peças automotivas, equipamentos e outros materiais.

Atualmente, ela administra um grupo chamado "Mulheres Caminhoneiras", com 165 mil integrantes no Facebook, entre profissionais e simpatizantes. Ruzi diz receber frequentemente mensagens de mulheres interessadas em começar na profissão, inclusive após os 50 anos.

"Muitas falam que se inspiram em mim e perguntam como começar. Algumas acham que já passaram da idade, mas eu digo para não desistirem e irem atrás”, afirma.

Quebra de estereótipos no setor de transporte

Apesar do aumento da presença feminina, o ingresso no setor ainda é marcado por dificuldades. Ruzi afirma que já encontrou empresas que se recusavam a contratar mulheres.

Já liguei para uma empresa para saber se podia levar currículo e ouvi: ‘Aqui a gente não contrata mulher’. Essa foi uma das primeiras experiências que tive.

O preconceito também aparece no dia a dia das entregas. Segundo ela, não é raro que funcionários de empresas presumam que uma mulher que chega ao local seja esposa de um caminhoneiro, e não a profissional responsável pela direção do veículo.

Ruzi também relata resistência por parte de alguns colegas de trabalho. “Tinha homem que nem falava com a gente. Alguns conversavam normalmente, outros nem olhavam. Existe muito preconceito, inclusive por outros motoristas", conta.

Além dos desafios relacionados ao machismo, a feminilidade também aparece como um ponto crucial na quebra de estereótipos associados às caminhoneiras. A ideia é desconstruir a visão de que mulheres que trabalham na estrada necessariamente têm "aparência ou comportamento masculinizados" ou "são lésbicas".

Por isso, algumas profissionais fazem questão de preservar e expressar a própria feminilidade, seja pelas roupas, pela maquiagem ou até pela escolha de cores, como forma de reafirmar sua identidade no setor.

Ruzi afirma que, mesmo no caminhão, gostava de se arrumar e mostrar feminilidade
Ruzi afirma que, mesmo no caminhão, gostava de se arrumar e mostrar feminilidade - Arquivo pessoal
Eu ia sempre maquiadinha [para o trabalho], com o cabelo arrumado. Meu filho até falava assim: ‘Pra quê, mãe? Vai trabalhar no caminhão de lixo’. Aí eu falava: ‘Por isso mesmo. Eu já vou num caminhão que é feio. Então, a gente tem que ir bonita.’

Em seus caminhões, Ruzi adotou o rosa como parte de expressão e passou a decorar a cabine com cortinas e outros itens da mesma cor. “Eu amo tudo rosa. Na minha casa tem panela, talher, cortina, tudo rosa. E no caminhão também. Meu chefe deixava eu colocar do jeito que eu quisesse”, conta.

Para ela, que está iniciando em um novo desafio profissional como caminhoneira nas próximas semanas, a ampliação da presença feminina exige que mais mulheres tenham acesso à formação e encontrem empresas dispostas a oferecer oportunidades.

Ser autônoma traz mais liberdade na profissão

Ao contrário de Ruzi, a mudança de Cátia Pires para os caminhões aconteceu mais recentemente. Prestes a completar 51 anos, ela decidiu investir no próprio negócio junto com o marido caminhoneiro.

O casal comprou o primeiro caminhão, apelidado de Belezinha, e atualmente tem dois veículos. Depois de deixar o emprego formal, ela passou a trabalhar de forma autônoma com o transporte de contêineres.

Cátia Pires começou no setor de transporte aos 21 anos e, hoje, aos 51, é caminhoneira
Cátia Pires começou no setor de transporte aos 21 anos e, hoje, aos 51, é caminhoneira - Arquivo pessoal

Para Cátia, a principal vantagem de trabalhar por conta própria é ter mais autonomia para decidir quando trabalhar. “A gente cansou de trabalhar para os outros. A gente quer agora ter nossa liberdade”, afirma.

No entanto, ela relata que a rotina nas estradas ainda apresenta obstáculos para as mulheres. Uma das principais dificuldades citadas por ela é encontrar estrutura adequada para banho e descanso. “Muitos lugares não estão preparados para recepcionar as mulheres. É tudo que você vai encontrar pensado em termos de homem”, relata.

Mesmo diante disso, Cátia diz que gosta da liberdade, de dirigir e de conhecer novos lugares. A experiência acumulada ao longo dos anos também, segundo ela, faz diferença. "Particularmente, pela idade e por já ter passado por outros serviços, ter trabalhado como CLT por muitos anos como motorista de ônibus, vejo isso como um diferencial muito grande".

A caminhoneira também já enfrentou situações em que era a única mulher entre dezenas de motoristas. Em uma viagem para Minas Gerais recentemente, ela era a única mulher entre cerca de 20 caminhões e recebeu apoio dos colegas.

Para outras mulheres que pensam em entrar no setor, ela resume o conselho em uma frase:

Mete a cara e vai. Ninguém nasceu sabendo. O medo e a dificuldade fazem parte do começo, mas não devem impedir quem tem vontade de seguir na profissão."

Nunca é tarde para ocupar um espaço

Vittória Gabriela, fundadora da comunidade Dona Meu Destino, voltada à educação automotiva feminina, destaca que o crescimento da participação das mulheres no transporte está relacionado tanto à abertura gradual do mercado quanto à mudança na forma como elas enxergam suas possibilidades profissionais.

“Durante muito tempo, algumas profissões foram vistas como essencialmente masculinas. Isso fazia com que o mercado oferecesse menos oportunidades, mas também fazia com que muitas mulheres nem se enxergassem ocupando esses espaços”, afirma.

A especialista explica que as gerações mais velhas cresceram sob restrições culturais que influenciavam a escolha de carreira. Agora, esse cenário começa a mudar também para quem já está em uma fase mais madura da vida profissional.

Hoje, mulheres de 40, 50 ou até mais de 60 anos continuam ativas profissionalmente, buscando qualificação e fazendo transições de carreira. Isso mostra que nunca é tarde para ocupar um espaço que antes parecia impossível”, diz.

Porém, ela destaca que a formação ainda é um desafio para aumentar a presença feminina em áreas técnicas. No curso de Mecânica que frequentou, por exemplo, ela era a única mulher da turma. “A demanda por profissionais existe, mas ainda estamos formando poucas mulheres para atender esse mercado”, afirma.

Conhecimento ajuda a aumentar a segurança

Para quem decide ingressar na profissão depois dos 50 anos, a experiência de vida pode ser um diferencial, mas a qualificação técnica continua sendo fundamental. Conhecer o funcionamento básico do caminhão, identificar sinais de falhas e adotar uma condução preventiva são alguns dos pontos destacados por Vittória.

Ela ressalta que o condutor precisa compreender as particularidades de um veículo pesado, como a maior distância necessária para frenagem, o comportamento do caminhão carregado e a necessidade de antecipar situações de risco. O conhecimento sobre freios, pneus e alertas do painel também pode ajudar a identificar problemas antes que se transformem em falhas mais graves.

Embora a manutenção preventiva seja responsabilidade da empresa no caso de motoristas contratados, é o profissional que convive diariamente com o veículo. “Muitas vezes, pequenos sinais são o primeiro aviso de que algo precisa ser verificado”, diz Vittória.

A especialista afirma que, para quem trabalha na estrada, o senso de responsabilidade é uma característica importante, que geralmente vem com a maturidade.

Com o tempo, as pessoas passam a avaliar melhor os riscos, a pensar nas consequências das próprias decisões e a compreender que segurança precisa estar sempre em primeiro lugar".

Setor discute adaptação e qualidade de vida

A entrada de mais mulheres no transporte também exige mudanças nas condições oferecidas pelas empresas. Para Vivian Nunes, gerente de RH do Instituto Setcepar de Educação no Transporte, o setor ainda é majoritariamente masculino por razões culturais, mas há iniciativas para incentivar a contratação feminina.

O que nós percebemos [quando contratamos mulheres] é um ganho ainda maior no atendimento ao cliente. Costumeiramente, somos mais atenciosas, mais solícitas, então esse cuidado com o caminhão acaba sendo um destaque.”

Segundo Vivian, a discussão não deve se limitar à contratação. As empresas precisam considerar condições adequadas de trabalho durante as viagens, incluindo estrutura e segurança nos locais de parada.

“Existe essa preocupação com o local onde ela vai parar, para garantir que essa mulher tenha condições de tomar um banho e tenha segurança para fazer a higiene feminina necessária, porque nós não temos as mesmas necessidades dos homens. O olhar está muito mais para garantir conforto, qualidade de vida e equidade”, explica.

A preocupação com a qualidade de vida também se estende ao envelhecimento da força de trabalho. Motoristas passam longos períodos sentados e, em muitos casos, ficam dias longe de casa. Por isso, Vivian afirma que empresas têm ampliado ações relacionadas à ergonomia, alimentação, pausas, movimentos laborais e acompanhamento de saúde.

Cada vez mais vemos as empresas investindo nessa conscientização das paradas obrigatórias, no incentivo à boa alimentação e em exames voltados para esse universo, além das obrigatoriedades legais”, finaliza.

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