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Dependência química acompanha pacientes até a velhice e exige cuidados

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Dependentes químicos ficam em tratamento até a velhice, segundo profissionais - Pexels
Dependentes químicos ficam em tratamento até a velhice, segundo profissionais
Por Bárbara Ferreira

15/08/2026 | 10h00

São Paulo - O envelhecimento de pessoas que lidaram com o vício em álcool ou drogas em algum momento da vida mostra como a dependência química pode perdurar. Mesmo após décadas sem recaídas, muitos adictos não se consideram curados. "Meu nome é Márcio*, eu não uso drogas há 16 anos, 11 meses e 15 dias".

"Bem-vindo", disseram os outros seis homens na sala em um coro forte. Essa hospitalidade é característica das unidades do Narcóticos Anônimos, grupo de ajuda para pessoas que desejam parar de usar drogas. Márcio, de 50 anos, frequenta as reuniões todos os dias.

As reuniões do NA são totalmente gratuitas e anônimas em todo o mundo
As reuniões do NA são totalmente gratuitas e anônimas em todo o mundo - Bárbara Ferreira / VIVA

Quando foi convidado a participar pela primeira vez, em 1997, estava alterado e não entendeu o que foi dito ali. Mas conta que ter sido "bem-vindo" no local foi o que o fez retornar. "Essa palavra ninguém me falava mais, nem na minha casa. Às vezes, quando chegava em alguns alguns ambientes da minha família, o pessoal já começava a esconder coisa, a desconfiar".

Vício é doença

A dependência muitas vezes não é percebida como doença por que é socialmente vista como falha de caráter, explica a psicogeriatra Miriam Gorender, diretora secretária adjunta da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). "As pessoas não pensam em dependência em termos de tratamento, sendo que é difícil", disse.

Justamente por ser delicado, o que mais funciona para o tratamento é considerar o paciente "em recuperação" eternamente, segundo Miriam. A psiquiatra defende que não existe dose segura ou tolerável de álcool e drogas para nenhuma idade, já que não há garantia de que doses pequenas não possam fazer mal.

Uma pessoa que fica dependente do que quer que seja, não vai deixar de ser. Pode estar em abstinência há décadas, mas continua dependente e pode ter uma recaída", afirma a psquiatra.

Envelhecer com dependência

A exposição repetida ao álcool e outras drogas promove alterações na relação com recompensa, motivação, aprendizagem, memória, tomada de decisão e controle de impulsos. A informação é do psicogeriatra Pablo Henrique Cardoso, que atua no CAPS AD III (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas), em São Paulo.

Segundo o psiquiatra, alguns processos próprios da velhice são intensificados pelo vício, o que pode prejudicar a adesão ao tratamento de doenças comuns com o avanço da idade, como diabetes e hipertensão. Ele ainda defende que a preocupação maior sobre quem envelhece dependente químico é a questão psicosocial.

"Esses prejuízos sociais dizem respeito ao enfraquecimento dos vínculos sociais, perda de autonomia, dificuldades financeiras, negligência no próprio cuidado. Isso reflete no aumento do número de hospitalizações, conflitos familiares e perda da qualidade de vida", descreveu Pablo.

Impactos na saúde

De acordo com dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), as internações atribuíveis ao álcool nos homens de 55 anos ou mais cresceram 73% entre 2010 e 2024. Com as mulheres dessa faixa etária, aumentaram 97,6% no mesmo período. Os principais motivos para as internações causadas pelo álcool são:

  • quedas: 25.154 casos
  • acidentes de trânsito: 16.126 casos
  • lesões não intencionais: 21.525 casos

Um dos motivos é que o idoso costuma ter menos reserva metabólica do que pessoas jovens, um processo natural do envelhecimento. Na prática, isso significa que a mesma dose que não deixava tantas consequências a curto prazo antes, vai fazer muito mais mal. "Esses danos perpetuam até a velhice", aponta a psiquiatra.

O que caracteriza vício?

José* tem 59 anos de idade e está sem usar entorpecentes há 29 anos. Conta que começou para se sentir pertencente em um grupo de colegas, se apaixonou pela droga e o uso se tornou rotina.

Eu estava deixando de fazer as coisas que gostava para usar. Deixava de comprar algo para mim para poder comprar droga Se tornou uma coisa diária até que chegou em um ponto que ficou muito difícil viver", relata José.
Para ser membro do NA, é preciso se voluntariar e dizer ao grupo que quer participar
Para ser membro do NA, é preciso se voluntariar e dizer ao grupo que quer participar - Bárbara Ferreira / VIVA

A psiquiatra da ABP aponta que não é possível estipular qual quantidade e frequência do uso de álcool e drogas para caracterizar vício. Essa é uma percepção individualista e diz respeito às consequências diárias e alteração de comportamento. 

O primeiro sintoma é a "fissura ou craving", um desejo intenso, uma necessidade, explica Miriam. Alguns pacientes chegam a sonhar com drogas por não suportarem ficar sem.

Aquilo que provoca a dependência começa a tomar uma parcela cada vez maior da vida e as outras coisas vão diminuindo de importância".

"Só por hoje"

O grupo Narcóticos Anônimos incentiva seus membros a ficarem sóbrios "só por hoje", levando um dia de cada vez
O grupo Narcóticos Anônimos incentiva seus membros a ficarem sóbrios "só por hoje", levando um dia de cada vez - Bárbara Ferreira / VIVA

Mesmo depois de três décadas limpo, José continua frequentando as reuniões do NA diariamente, que compara com um remédio. Apesar da dependência exigir cuidado por toda a vida do paciente, o NA não coloca o tempo nos holofotes.

O grupo acredita que reforçar a idade que começou ou o que usava pode influenciar negativamente outros participantes. José explica que, assim como a droga não escolhe idade, a recuperação também não.

A recuperação é abrangente a todos. Independente de idade, de qualquer forma de vida que você tem", afirmou.

O lema do grupo é tentar se manter limpo por hoje, um dia de cada vez. "Só por hoje", repetem nas reuniões. "A ideia de de evitar o pensamento não dá, eu não consigo, mas importa o que eu vou fazer com ele. Quando eu pratico o programa consigo me habituar. Com o tempo, esse pensamento vai ficando distante", disse.

Como procurar ajuda

José e Márcio continuam em tratamento por conta do vício. Hoje, os dois têm trabalho, família, dignidade e qualidade de vida. "Eu não era uma pessoa bem vista pela sociedade. Hoje sou importante. Faço muitas coisas legais, as pessoas confiam em mim, tenho minhas responsabilidades, sou honesto", relatou José.

Se você precisa de ajuda para lidar com o vício, entre em contato:

  • Narcóticos Anônimos: Encontre uma reunião gratuita aqui
  • Alcóolicos Anônimos: Converse com um membro por telefone ou WhatsApp
  • Caps: Tratamento gratuito pelo SUS com médicos, psicólogos e assistentes sociais. Você pode ir direto ao posto sem precisar de guia ou marcar hora.
  • Ligue 132: Central de atendimento do governo federal, gratuita e sigilosa
  • Ligue 188: CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional sigiloso 24 horas por dia 

*José e Márcio não são os verdadeiros nomes dos entrevistados, que optaram por manter o anonimato do grupo.

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