Das telas para a história: O fim dos orelhões
Foto: Victor Jucá/Divulgação
01/02/2026 | 13h45
São Paulo, 01/02/2026 - Em muitas cenas do premiadíssimo filme “ O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, o ator Wagner Moura aparece utilizando um orelhão,o que foi fundamental para recriar o cenário da década de 1970. Estes aparelhos telefônicos agora deixam as telas para começarem a ser desativados definitivamente. Com o fim das concessões de telefonia fixa em 2025, as empresas Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica deixam de ter a obrigação legal de manter uma infraestrutura de telefones públicos.
Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), cerca de 38 mil aparelhos ainda permanecem no território nacional, por isso sua extinção total, que teve início em janeiro, não será imediata. Os orelhões ainda serão mantidos até 2028, mas somente em cidades com pontos considerados problemáticos de rede de celular, tais como zonas rurais.
Em contrapartida a Anatel determinou que as empresas devem redirecionar seus recursos para investimentos em redes de banda larga e telefonia móvel, tecnologias que hoje dominam a comunicação no país.
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A história do símbolo Nacional
O orelhão surgiu em 1971, criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Seu design icônico foi originalmente batizado como "Projeto Chu 1" e "Projeto Chu 2" pela Companhia Telefônica Brasileira (CTB).
A cabine foi lançada primeiramente no Rio de Janeiro e em São Paulo, em janeiro de 1972. Por seu formato lembrar uma orelha, logo passou a ser popularmente conhecida por "Orelhão". Ela possuía um desing moderno, que proporcionava abrigo do sol e da chuva além de proteger o usuário do barulho externo.
Em entrevista ao podcast Witness History, da BBC World Service, Alan Chu, filho de Chu Ming, compartilhou lembranças de sua mãe e de seu legado.
Eu lembro de sentir orgulho dela, porque ela tinha projetado algo que estava em todo lugar nas ruas, como as cabines de telefone em Londres, que se tornaram um símbolo do país, o mesmo aconteceu no Brasil com os orelhões, diz Alan, que é arquiteto e mora em Brasília.
Da necessidade ao desconhecimento
No começo os orelhões funcionavam com fichas, que eram moedas feitas exclusivamnete para seu uso, e que mais tarde foram substituídas por cartões. Quem não dispunha de fichas ou cartões fazia chamadas a cobrar, uma alternativa paga por quem aceitava as ligações. Sua utilização sempre foi fácil, democrática e muitas vezes necessária.
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Quem já foi office-boy, por exemplo, deve se recordar que três coisas eram indispensáveis: o guia de ruas, os passes de ônibus que garantiam o acesso ao transporte público e a cartela de fichas do orelhão, no caso de algum imprevisto.
Estes telefones públicos também foram usados com a frequência, até o começo dos anos 2000, por boa parte da população que não tinha telefone fixo em casa. Neste caso, quando algum aparelho era instalado no quarteirão a vizinhança comemorava.
Os mais jovens sabem da existência deles, e muitos já cruzaram com alguns pelo caminho. Apesar disto não é raro encontrar com quem não tenha a mínima noção de como utilizá-lo. É o caso da estudante de publicidade Maria Carolina Custódio, 18.
Tenho ideia do que é um orelhão por já ter visto na rua algumas vezes, mas não tenho ideia de como funciona. Nunca usei e não saberia como usar. Hoje em dia acredito que o orelhão não tem tanta utilidade porque temos melhores veículos de comunicação, disse Carolina.
A memória que dá lucro
O cartofilista Marcelo Augusto, 38, também conhecido como Marcelo Nostalgia, coleciona cartões desde 1996. Ele se lembra que na época, por muitas vezes, chegou a comprar e guardar alguns cartões sem usá-los, ainda com os créditos. Segundo ele, isto garantia que as estampas permanecessem com mais qualidade.
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O cuidado de Marcelo o fez ter hoje uma coleção importante, onde alguns cartões chegam a valer até R$ 5 mil. Ele explica que entre os critérios de avaliação para que um cartão seja tão valioso estão a quantidade de tiragem, o estado de conservação e até a maneira com que foram distribuídos. Hoje Marcelo Augusto vive da cartofilia.
O colecionismo de cartões atualmente mudou das feiras e lojas físicas para redes sociais. E graças a isto, hoje em dia muita gente vive da compra e venda de cartões telefônicos, afirma Marcelo.
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