Governo anuncia fim da fila do INSS com 1,2 milhão de pedidos em agosto
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São Paulo - O governo federal anunciou nesta quinta-feira, 3, a transição do modelo de fila de espera do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para um sistema de fluxo contínuo de atendimento.
Com o tempo médio nacional de análise reduzido para 34 dias em agosto — posicionando-se abaixo do teto legal de 45 dias —, o Executivo comemora a queda histórica no estoque de processos.
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O volume, que chegou a registrar um pico de 3,12 milhões de requerimentos em fevereiro deste ano, caiu para 1,25 milhão no fechamento de agosto.
Como a autarquia recebe, em média, 1,3 milhão de novos pedidos todos os meses, o governo argumenta que a quantidade atual de solicitações em andamento é inferior à capacidade de atendimento do órgão. O ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, utilizou uma metáfora para ilustrar o conceito.
"Se o restaurante tem 50 mesas e tem 30 pessoas lá fora na fila, quando você põe as 30 pessoas para dentro do restaurante e elas todas estão sendo atendidas, acabou a fila. Uma está no cardápio olhando, outra está se alimentando. Elas estão em atendimento", comparou.
A presidente do INSS, Ana Cristina Silveira, detalhou os números e explicou o que ocorre com os casos pendentes. De acordo com a servidora, existem atualmente 235 mil processos que aguardam resposta há mais de 45 dias.
Contudo, ela explica que esse número registra uma queda de 87% se comparado a janeiro de 2026. Outros 378 mil requerimentos estão na fase de exigência — parados enquanto aguardam o segurado apresentar ou anexar a documentação pendente.
Mesmo assim, podemos afirmar categoricamente que não há fila no atendimento inicial, pois o número de pedidos em análise hoje é inferior aos novos processos que entraram em agosto. Conseguimos vencer a fila. Agora trabalhamos apenas com o gerenciamento do fluxo de atendimento."
Segundo o governo, além da redução da fila, foi registrada uma queda de 82% nas reclamações registradas na ouvidoria entre janeiro e agosto de 2026.
Durante a cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) destacou a importância de centrar o atendimento no respeito ao cidadão e defendeu o rigor técnico nas avaliações.
"Se as pessoas estão pedindo, é porque elas acham que têm direito. Nosso papel é avaliar se têm direito. Se tem direito, a gente dá. Se não tem direito, não tem. É assim que funciona a máquina pública", declarou Lula.
O diretor do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), Alexandre Triches, disse ao VIVA que são plausíveis as estatísticas governamentais, associando o resultado ao impacto prático de medidas operacionais recentes.
"Os números apresentados fazem muito sentido porque as medidas tomadas, como a telemedicina, a perícia conectada e os mutirões, são ações que nós de fato vínhamos sentindo acontecer na prática."
Entretanto, o especialista adverte que a celebração não deve ocultar a complexidade do sistema a longo prazo: "O maior desafio talvez não seja zerar a fila, seja mantê-la zerada".
Triches reforça que a sustentabilidade operacional do fluxo exige estabilidade institucional: "O maior desafio é que esse não seja um esforço apenas eleitoral ou de governo, mas sim um esforço de Estado, um esforço republicano, garantindo que a governança, o investimento e a inovação continuem."
Negativas superam concessões
Apesar da eficiência operacional em reduzir o tempo de espera de 59 dias, em fevereiro, para a faixa dos 35 dias, em agosto, os dados do INSS mostram um aumento na rejeição de benefícios.
De janeiro a julho de 2026, embora as concessões tenham ocorrido em ritmo acelerado, os indeferimentos cresceram de forma ainda mais expressiva.
No acumulado de sete meses, a instituição emitiu 5.254.459 decisões negativas, contra 5.081.290 concessões. Ou seja, a autarquia deu mais de 173 mil respostas desfavoráveis a mais do que favoráveis.
Os meses de junho e julho registraram os picos de recusas, com mais de 935 mil processos rejeitados em cada um.
No entanto, o governo contra-argumenta afirmando que a média mensal de concessões aumentou 46% de 2023 para o período de janeiro a julho de 2026, atingindo 730 mil pedidos mensais aprovados no primeiro semestre do ano.
"E aí, quando a gente apresenta os números, aparece alguém para dizer: 'Ah, mas está negando para todo mundo'. E aí eu trago os dados mostrando que, ao contrário, nós temos batido o recorde do nível de concessão a cada mês", defendeu Queiroz.
Ana Cristina Silveira reafirmou o compromisso ético e legal nas decisões proferidas. "Esse resultado foi alcançado com recorde de concessões de benefícios. A fila não diminuiu porque deixamos de analisar pedidos ou porque negamos; a fila diminuiu porque analisamos mais, trabalhamos mais e garantimos mais direitos."
No entanto, o IBDP faz um contraponto à qualidade técnica dessas análises. O advogado aponta que a velocidade média pode ocultar um padrão de negativas baseadas em entraves burocráticos. "A questão central é a qualidade dos indeferimentos. O INSS frequentemente nega benefícios por filigranas documentais e questões burocráticas."
Se eventualmente o INSS diz que a pessoa não tem direito e o Judiciário diz que tem, essa pessoa tem ou não tem direito? Me parece que tem, porque é o Judiciário que dá a última palavra."
Déficit da Previdência
O presidente também foi enfático ao afirmar que nunca aceitou jogar a responsabilidade do déficit nas costas da Previdência Social. "Não, o déficit não é da Previdência. É porque a gente tem que pagar R$ 1,3 trilhão de juros todo ano para resolver o problema desse País", afirmou.
Segundo Lula, se houver um problema de incompatibilidade entre a receita e a despesa, o governo discute e acerta. Para o mandatário, é preciso ter noção sobre o que "quebra" o País e o que ajuda — sendo que a Previdência está entre os pontos que ajudam.
Ele questionou ainda por que a culpa é sempre jogada em cima dos mais humildes.
Agora a culpa é do BPC, do Bolsa Família, e não porque tem muita gente entrando na Previdência Social."
O petista fez uma crítica velada à "indústria de advogados" que migrou do mundo trabalhista para o previdenciário. "Já cansei de ver propaganda nessas redes digitais aí que vocês chamam de rede social. Está cheio de gente picareta tentando arrumar um jeito de ganhar um dinheiro. Mas o que é importante é que vocês trabalharam com seriedade", concluiu.
Qual é a despesa anual da Previdência?
No final de agosto, o Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS) atualizou as projeções para as despesas obrigatórias do Ministério da Previdência em 2026 e 2027:
- Para 2026: a estimativa foi reduzida de R$ 1,136 trilhão para R$ 1,129 trilhão;
- Para 2027: a projeção passou de R$ 1,224 trilhão para R$ 1,218 trilhão.
Mesmo com a redução de R$ 5 bilhões na estimativa para o próximo ano, o montante ainda representa um aumento de 7,92% nas despesas.
Vale lembrar que, em 2025, o gasto anual do governo com a Previdência ultrapassou a marca de R$ 1 trilhão pela primeira vez, atingindo R$ 1,026 trilhão. Com uma receita em torno de R$ 710 bilhões, o sistema encerrou o ano passado com um déficit de R$ 320 bilhões.
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