Saiba quais são as cidades mais violentas do País e onde há menos homicídios
Toninho Tavares/Agência Brasília
São Paulo - Noventa e nove cidades, 1,8% do total de municípios brasileiros, respondem por metade dos homicídios cometidos no Brasil em 2024. Isso é o que aponta o Atlas da Violência, estudo realizado anualmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Maranguape, no Ceará, é a cidade com maior taxa de homicídios estimados do País, com 87,2 casos para cada 100 mil habitantes. A menos de 30 quilômetros de Fortaleza, a cidade é alvo de disputas entre facções.
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Queda do número geral de mortes
A pesquisa aponta que o Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, o equivalente a uma queda de 6,9% em relação ao ano anterior. Apenas Maranhão (7,6%) e Ceará (5,2%) apresentaram aumento em relação a 2023, enquanto não houve oscilação em São Paulo. De resto, todas as outras unidades federativas tiveram melhora no indicador.
Marcados pela consolidação de facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) nos últimos anos, Norte e Nordeste seguem concentrando não só as maiores taxas de homicídios do País, como também os municípios mais violentos. Quatro das 10 cidades mais violentas ficam no Ceará e outras seis da Bahia.
No topo da lista, apareceram, além de Maranguape, cidades como Jequié (BA), com taxa de 79,4 assassinatos estimados para cada 100 mil habitantes, Maracanaú (CE), com taxa de 74,1, Itapipoca (CE), com taxa 74,0, e Caucaia (CE), com taxa 72,9.
Em nota, Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará afirma que municípios cearenses mencionados no estudo como os mais violentos tiveram queda nos homicídios e em crimes contra o patrimônio no período recente.
Já a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, que também abriga algumas das cidades mais perigosas, afirma que os assassinatos têm caído por lá.
Juntos, os 10 municípios com as maiores taxas de homicídios responderam por 19,4% do total nacional.
Violência nas capitais
Conforme o Atlas, praticamente dois terços das unidades federativas (18) apresentaram taxa de homicídios acima da média nacional. Amapá (45,7), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3) e Alagoas (35,9) têm os maiores indicadores.
São Paulo, por outro lado, teve o menor índice (6,6), seguido por Santa Catarina (8,1), Distrito Federal (10,3) e Minas Gerais (12,8).
Metade dos 20 municípios mais violentos com 100 mil habitantes ou mais fica na Bahia - Salvador, inclusive, é a única capital nessa listagem, com taxa de 52,7 assassinatos para cada 100 mil habitantes.
Ao mesmo tempo, as capitais com os menores índices de assassinatos estimados são Florianópolis (9,7), Brasília (10,9), Curitiba (13,2) e Goiânia (14,7). Na quinta posição aparece São Paulo (15,3).
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Em linhas gerais, o Atlas mostra que a melhora nacional nos assassinatos foi relativamente disseminada.
Entre as taxas estaduais, apenas Maranhão (7,6%) e Ceará (5,2%) apresentaram aumento entre 2023 e 2024, enquanto não houve oscilação em São Paulo. De resto, todas as outras unidades federativas tiveram redução nas mortes violentas.
A pesquisa indica que as quedas mais intensas ocorreram no Amapá (-30,0%), Tocantins (-26,7%), Sergipe (-24,8%) e Roraima (-22 8%). No caso do número absoluto de homicídios, as maiores diminuições foram no Rio de Janeiro, com menos 772 casos, na Bahia, com menos 555, e no Rio Grande do Sul, com redução de 280.
"A análise dos últimos cinco anos revela um quadro mais contrastado. Enquanto o Brasil reduziu sua taxa em 8,6% entre 2019 e 2024, algumas Unidades Federativas experimentaram recrudescimento da violência letal", diz o estudo.
Os principais aumentos foram no Ceará (+28,0%), Maranhão (+25 9%) e Piauí (+20,5%). Já os Estados com os maiores recuos foram Acre (-47,9%), Sergipe (-47,0%), Goiás (-43,0%).
Os pesquisadores destacam que, ainda que o Brasil tenha chegado ao menor patamar desde 1998 - embora o estudo só compile dados de 2014 em diante -, a redução recente não foi homogênea e segue em patamar elevado, especialmente no Norte e no Nordeste, marcados pela consolidação de facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) nos últimos anos.
As cidades mais tranquilas
O estudo indica que 1.578 dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros não registraram qualquer homicídio estimado no ano. A média nacional municipal foi de 20 homicídios por 100 mil habitantes, e a mediana ficou em 15,3.
A taxa dos 20 municípios mais violentos foi aproximadamente 64,7 homicídios por 100 mil habitantes, ao passo que a dos 20 menos violentos ficou em torno de 4,9. "A diferença na prevalência de homicídios entre o grupo dos mais violentos e dos menos violentos é equivalente à diferença das taxas de homicídio entre o Brasil e a Europa", diz o estudo.
Conforme o Atlas, em 2024, os municípios de médio porte, com população entre 100 mil e 500 mil habitantes, apresentaram a maior taxa média de homicídios estimados (24,1), superando tanto os municípios grandes (23,2), quanto os pequenos (19,7). A mediana ficou em 20,1 entre os médios, 21,0 entre os grandes e 14,8 entre os pequenos.
Homicídios entre indígenas
Para Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e coordenador do Atlas da Violência, os dados deste ano indicam que a violência tem passado por um processo de "interiorização", gerando insegurança inclusive para populações indígenas, sobretudo em regiões de fronteira na Amazônia - são locais considerados rotas estratégicas para importação de cocaína de países vizinhos, como Peru e Colômbia.
Conforme o Atlas, em 2024, a taxa registrada de homicídios entre indígenas foi de 24,6 por 100 mil habitantes, valor 22% superior à taxa nacional de 20,1. No Amazonas, o número de homicídios de indígenas dobrou em apenas um ano, passando de 36 casos em 2023 para 73 em 2024, resultando em um aumento de 123,4% na taxa de letalidade.
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Piora na qualidade dos dados é ponto de atenção
Um ponto considerado sensível pelos pesquisadores é o que define como uma piora da qualidade dos dados da saúde: o número de mortes violentas por causa indeterminada, as chamadas MVCI, subiu mais de 23% entre 2023 e 2024. "É o recorde histórico. Foi de 13.896, em 2023, para 17.207, em 2024, o que foi algo até surpreendente", afirma Cerqueira.
As mortes violentas por causa indeterminada são uma classificação utilizada quando o Estado não consegue identificar a causa básica do óbito - se decorrente de acidentes, suicídios ou homicídio -, o que pode prejudicar no entendimento do cenário.
Segundo Cerqueira, não se sabe exatamente os motivos que levaram ao aumento expressivo desse indicador em 2024. Mas, em geral, duas razões levam a essa alta: a incapacidade de elucidação de determinados casos e problemas relacionados à troca de informações entre os órgãos governamentais - em ocorrências em que o médico-legista emite um laudo cadavérico e não sabe exatamente as circunstâncias de determinada morte, é preciso que a polícia complemente as informações posteriormente.
Para dimensionar os impactos desse problema, os pesquisadores à frente do Atlas desenvolveram, eles próprios, um modelo que permite estimar, por meio de técnicas de machine learning (aprendizado de máquina), quantas dessas mortes violentas por causas indeterminadas podem ter sido "homicídios ocultos".
"A gente olha as pessoas que morreram por morte violenta e as características das vítimas e também do incidente em si", afirma Cerqueira. A partir desse conjunto de variáveis, o modelo indica quais casos podem ter sido assassinatos na prática, driblando possíveis subnotificações. O cálculo não é inédito - já foi feito também em outras edições da pesquisa - o que permite também comparar os dados com outros anos.
O Atlas estima que, em 2024, o Brasil teve 7.083 casos de homicídios ocultos, alta de 88,6% em relação aos cerca de 3,7 mil registros do ano anterior. Com isso, a taxa desse indicador para cada 100 mil habitantes saltou de 1,8 para 3,3. Como consequência, os homicídios ocultos passaram a responder por 14 3% dos homicídios estimados em 2024 - em 2023, essa parcela era de 7,6%.
Diante disso, os pesquisadores calculam que, no ano de análise, o Brasil pode ter tido, na verdade, 49.673 homicídios estimados, que correspondem à soma entre os casos oficialmente registrados e os homicídios ocultos. O número representa um leve aumento em relação às 49,5 mil ocorrências estimadas de 2023, com uma variação de 0,3%.
Outro ponto considerado sensível pelos pesquisadores é a violência contra jovens e negros.
Em 2024, 19,8 mil jovens entre 15 e 29 anos foram assassinados, o que corresponde a uma taxa de 42,2 homicídios para cada 100 mil habitantes desse subgrupo, justamente o mais afetado por disputas entre facções.
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No mesmo ano, o País registrou 32,8 mil homicídios de pessoas negras, o equivalente a 77% do total de assassinatos. O Atlas indicou ainda uma taxa de 27,3 mortes para cada grupo de 100 mil pessoas negras, ou quase 90 assassinatos por dia. Entre não negros (o que inclui brancos, amarelos e indígenas), foram 9,2 mil casos, com taxa de 10,1 homicídios.
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