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'Você me deu voz': relatos mostram amparo das doulas no parto

Acervo Pessoal

Pela nova lei, as funções da doula ficam restritas a métodos não farmacológicos para o alívio da dor do parto - Acervo Pessoal
Pela nova lei, as funções da doula ficam restritas a métodos não farmacológicos para o alívio da dor do parto
Por Paula Bulka Durães

14/04/2026 | 18h25

São Paulo - De origem ancestral, a profissão de doulaque cumpre o papel fundamental de oferecer suporte contínuo físico, emocional e informativo antes, durante e após o parto – foi oficialmente regulamentada no Brasil.

A Lei nº 15.381/2026 foi assinada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 8 de abril.

A nova legislação assegura que as gestantes tenham o direito de ser acompanhadas por uma doula em maternidades públicas e privadas, sem que isso anule o direito a um acompanhante familiar.

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Outro marco importante do texto é impedir que instituições de saúde barrem a entrada dessas profissionais. Embora os hospitais não tenham a obrigação de contratá-las ou remunerá-las, eles também não podem cobrar taxas adicionais pela presença das doulas.

A lei também estabelece critérios formativos: agora, para atuar na área, a profissional precisa ter ensino médio completo e um curso de qualificação de, no mínimo, 120 horas.

O que faz uma doula?

Pela nova lei, as funções da doula ficam restritas a métodos não farmacológicos para o alívio da dor, como massagens, banhos e compressas mornas, ao auxílio com técnicas de respiração e ao apoio à amamentação.

No entanto, para as profissionais que atuam na área há tempos, a profissão é muito mais complexa e marcada por uma conexão profunda com a gestante.

"Eu acho muito chato quando reduzem a função da doula a uma 'analgesia não farmacológica do parto'. A doula é muito mais que isso", defende Maíra Duarte, que atua na área há 16 anos.

Para elucidar o tema, o VIVA buscou histórias de mulheres, maternidades e trocas reais nas salas de parto.

'A dor do parto não é sofrimento'

A terapeuta Ayurveda Maíra Duarte, 48 anos, equiparava o parto a uma cena de filme de terror durante a juventude. "Não podia nem ver cena de novela e sempre pensei em ser mãe via adoção por conta disso."

O contato inicial com a doulagem ocorreu em sua primeira gestação, há 20 anos, momento que ressignificou seu olhar sobre a gravidez.

A dor que talvez você sinta é de algo que você está escolhendo para receber seu filho, o que é totalmente diferente de um sofrimento."

A experiência do parto natural a marcou tão profundamente que ela decidiu complementar a formação para acolher outras mulheres. "Pensei que poderia auxiliar essas mulheres grávidas a encontrar as ferramentas que me ajudaram a parir, assumindo a função de dar o suporte e a escuta que recebi", relata.

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A doula Maíra Duarte com a gestante Marina Porto - Foto: Fê Sophia

Formada em 2009, Duarte participou de mais de 800 nascimentos e viu o cenário obstétrico se transformar. "Quando eu comecei, devia haver uns cinco médicos que realmente faziam um atendimento respeitoso e trabalhavam com parto humanizado. Essa expressão gerava muita chacota no hospital e nos chamavam de naturalistas."

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Hoje, ela explica que o papel da doula é, entre outras coisas, reduzir a liberação de adrenalina da gestante – hormônio que atua contra a ocitocina, essencial para as contrações uterinas.

"A doula precisa aprender a se conectar com o coração daquela pessoa, independentemente de você conhecê-la no dia, cobrindo uma colega, ou há 9 meses. O que aparece é a nossa vontade de ver aquela mulher viver aquilo com toda potencialidade que tem."

Ela relembra um parto domiciliar que precisou ser transferido com urgência para o hospital. Exausta e ameaçada por uma cesárea, a gestante travou e parou de falar.

De repente, veio um comando na minha cabeça: eu levantei, sentei na frente dela, olhei nos seus olhos e comecei a cantar uma música que me veio ali na hora. Quando terminei de cantar, o bebê nasceu."

A decisão instintiva, baseada na rápida leitura do cenário e semblante da gestante, foi essencial para o nascimento sem mais intercorrências.

"Depois, a mulher me explicou que estava com muito frio e com medo naquela sala de hospital e, por isso, tinha travado e não conseguia se expressar. Ela me disse: 'Quando você cantou, me deu voz e eu me senti pronta para me abrir'."

'A doula vem para agregar'

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A doula Gabriela Gregório - Foto: Acervo Pessoal

Foi também na gestação do primeiro filho que Gabriela Gregório, 35 anos, se viu tocada pelo contato com o parto natural e com a doulagem.

Na época, quando se descobriu grávida, ainda era estudante do último ano da faculdade de Psicologia.

O parto ocorreu em um hospital do Sistema Único de Saúde (SUS), uma experiência que a moldou para seguir carreira na profissão, auxiliando outras gestantes. Há sete anos atua em São José dos Campos (SP) enfrentando dificuldades diárias, como a resistência hospitalar.

"A instituição foi categórica ao dizer que não, que mesmo com a aprovação da lei, não vai liberar a entrada de doulas", relata, ao ser barrada recentemente em uma maternidade local. A instituição ainda alegou ter respaldo jurídico para barrar as profissionais.

Em outra ocasião, Gregório e a gestante que acompanhava sofreram um episódio severo. Na troca de plantão, um médico chegou para assumir o atendimento e, ao ser informado de que ela era a doula da paciente, a reação foi de deboche.

Ele simplesmente começou a pular, dar pulinhos e rir, batendo palma, dizendo assim: 'Nossa, que ridículo'. E mandou a mulher ficar em silêncio, falou que era para ela parar de falar."

Por outro lado, Gregório encontra forças na conexão com as famílias que atende. Ela relembra com emoção o parto de um casal que sofreu uma perda gestacional anterior.

Após construir um forte vínculo com os pais ao longo das semanas de gestação, pode observar de perto no parto o bebê nascendo saudável, indo para o colo da mãe – uma experiência que ela não conseguiu vivenciar anteriormente.

"Foi muito tocante. Foi um dos partos em que eu mais chorei e me emocionei. A doula vem para agregar, e não para atrapalhar", afirma.

'A doula não é líder de torcida'

A jornalista Tatiana Fávaro, 48 anos, mãe de duas crianças, decidiu que teria uma doula antes mesmo de engravidar, após assistir ao documentário "O Renascimento do Parto".  A decisão se provou acertada: "A doula foi mais importante do que a médica, que a enfermeira, que o hospital, que o meu marido, que todo mundo".

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Tatiana Fávaro abraçando sua doula, na primeira gestação - Foto: Fabiana Beracochea

Para Fávaro, a principal contribuição não foi apenas no trabalho de parto, mas na educação perinatal fornecida ao longo dos meses. Ela alerta que a dor e os hormônios deixam a mulher vulnerável a intervenções desnecessárias.

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"Se você não tem consciência do que está acontecendo com o seu corpo, você vai sucumbir e vai entrar no que o sistema tá te oferecendo ali."

A força dessa rede de apoio foi testada no nascimento de seu segundo filho, prematuro de 35 semanas, que interrompeu o plano de um parto domiciliar.

O lugar da doula não é de líder de torcida, de 'ai, vai dar certo, vai dar certo', porque às vezes não dá. A doula é muito a pessoa que atravessa com você o que precisa ser atravessado."

Após a experiência, Fávaro passou a cobrir o tema profissionalmente. Sobre a nova lei, ela celebra o avanço, mas critica a ausência de obrigatoriedade da oferta do serviço no SUS. "O sistema, ele é um homem branco de jaleco versando sobre os corpos femininos", arremata.

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