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Comprar ou emprestar? Tamara Klink gera debate sobre como consumir livros

Reprodução/Instagram @tamaraklink

A velejadora Tamara Klink pediu para ninguém mais comprar seu livro best-seller "Bom dia, Inverno" - Reprodução/Instagram @tamaraklink
A velejadora Tamara Klink pediu para ninguém mais comprar seu livro best-seller "Bom dia, Inverno"
Por Adriana Del Ré

10/08/2026 | 18h06

São Paulo - Um pedido aparentemente bem-intencionado da velejadora Tamara Klink, postado em forma de vídeo no final de semana, levantou intenso debate nas redes sociais.“Não comprem mais meu livro ‘Bom Dia, Inverno’, aconselhou ela, em referência ao seu 5º livro, que se tornou best-seller no Brasil. Entre as justificativas para o apelo, estava a vontade de ver a obra circulando e sendo emprestada entre as pessoas, além de fazer jus “ao monte de energia que foi gasta da natureza para esse livro existir”.

Após o discurso gerar polêmica, Tamara, filha do renomado velejador Amyr Klink, postou no último domingo (9) uma retratação, afirmando que errou ao não considerar outros pontos de vista.  “Sou leitora antes de ser autora e não levei em conta a cadeia que alimenta as editoras”, escreveu a velejadora. 

Foi justamente esse o ponto levantado nas discussões lideradas por especialistas do mercado editorial, incluindo editores, autores, críticos e influenciadores literários.

Ela falou de uma cadeia de produção muito importante na cultura de todos os países, que é a leitura, a produção e a distribuição de livros”, afirma o jornalista Robson Morelli, editor e publisher da editora Letras do Brasil, ao VIVA.
Foto com ela no meio de gelo e seu veleiro ao fundo
Capa do livro 'Bom dia, Inverno': Tamara relata sua jornada sozinha em um veleiro preso no mar congelado do Ártico Groenlandês - Reprodução

Segundo ele, a troca, o empréstimo e a circulação de livros entre leitores são práticas válidas, mas não comprar interfere em todo o ecossistema.

“Para mim, foi uma declaração infeliz, mas ela se retratou depois. Conseguiu entender o contexto do livro no Brasil, o contexto do livro às vésperas de uma eleição, na sociedade, entre crianças, adolescentes, jovens, adultos e pessoas mais experientes”, analisa.

É bom pensar no planeta, mas o livro não pode deixar de ser produzido e consumido, acredita Morelli. "Porque o livro tem histórias, tem vida e tem muita coisa que a gente tem a aprender com ele. Isso não vai mudar jamais", complementa.

Livro é um vilão ambiental?

Esse viés ambiental no discurso de Tamara chamou a atenção do jornalista, escritor e revisor Diego Moura, coordenador de comunicação e imprensa da editora Unesp.

Será que a gente vai mesmo problematizar o livro como um vilão ambiental? Será que, neste mundo em que vivemos, onde empresas de IA gastam bilhões de litros de água e agora estão comprando livros para escanear e picotar, a gente vai dizer que o livro é um problema ambiental?”

O questionamento foi publicado em vídeo por Moura em seu perfil no Instagram.

Ele ressalta que o livro sustenta uma engrenagem de profissionais: criadores de capas, editores, revisores, tradutores, livrarias, vendedores, equipes de marketing, comunicação e direitos autorais. Quando um título vende bem, traz recursos para que as editoras consigam bancar projetos fundamentais que não têm o mesmo alcance comercial.

Visibilidade de novos autores 

A escritora, tradutora, ensaísta e professora Dirce Waltrick do Amarante também usou seu perfil nas redes para abordar o assunto. Para ela, Tamara é uma autora que não precisa viver da venda de livros, diferentemente do que acontece com muitos autores e editores.

Eles precisam vender livros não só para sobreviver, mas para pagar seus funcionários e para continuar produzindo livros”, ressalta.

A escritora admite ver um ponto interessante no discurso de Tamara, quando se fala na circulação das obras. O cenário ideal, segundo ela, seria ter estantes nas portas das casas para trocar exemplares com os vizinhos, ou bibliotecas públicas diversificadas e abertas diariamente em cada bairro.

No entanto, esse fio condutor levou Dirce a outra reflexão: em meio a tantos lançamentos, apenas alguns autores de grandes editoras ganham espaço de destaque na mídia, em páginas de influenciadores, livrarias e feiras literárias.

Então, talvez a gente realmente devesse parar de comprar Tamara Klink para começar a comprar livros de pequenas e médias editoras, editoras independentes, ir atrás de autores que a gente não conhece.”

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