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Sobre a coluna

Jornalista e escritor especializado em televisão. Passou por Jovem Pan, TV Gazeta, TV Globo e Band, além de integrar o júri do Troféu Imprensa, no SBT. Comanda o Canal do Vannucci no YouTube


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Laura Cardoso e Glória Menezes: a arte das operárias da televisão

Montagem/Divulgação MinC

As atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes faleceram na última terça-feira, 18 de agosto - Montagem/Divulgação MinC
As atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes faleceram na última terça-feira, 18 de agosto

São Paulo - Há semanas em que a televisão perde artistas. E há semanas em que a televisão perde pedaços da própria história. A despedida de Laura Cardoso, aos 98 anos, e de Glória Menezes, aos 91, tem exatamente esse significado.

Não estamos falando apenas de duas atrizes extraordinárias que deixaram uma obra gigantesca, mas de duas mulheres que ajudaram a construir a televisão brasileira, passaram pelo teatro e cinema e, no caso de Laura, também o rádio. As duas transformaram o ofício de interpretar em uma verdadeira missão.

Laura Cardoso, sem vaidades

Laura Cardoso começou no rádio ainda muito jovem e chegou à televisão em 1952, nos primeiros anos da TV Tupi. Foi uma das pioneiras do veículo de comunicação mais popular do Brasil. Passou pelos teleteatros, novelas, seriados e minisséries e construiu uma carreira que atravessou gerações. Mas, talvez a melhor definição para Laura tenha vindo dela própria.

Ela gostava de dizer que não era uma estrela, mas uma operária da arte. E que bela definição."

Laura Cardoso chegava para trabalhar com a responsabilidade de ser uma atriz de verdade. Texto estudado, marcação conhecida, atenção às orientações do diretor e respeito absoluto pelo trabalho de cada profissional que estava ao seu lado. Não havia espaço para a vaidade engolir o talento.

Quem trabalhou com Laura sempre fala da disciplina, da preparação e da generosidade daquela mulher que parecia saber exatamente o tamanho da profissão que havia escolhido.

E talvez esteja aí uma das maiores lições deixadas por ela. O verdadeiro artista não é aquele que vive permanentemente debaixo dos holofotes. É aquele que sabe o que fazer quando as câmeras estão ligadas, quando o público está olhando e quando chega a hora de entregar a emoção que uma história exige. Laura fez isso durante décadas.

Foram dezenas de novelas e personagens que entraram para a memória afetiva dos brasileiros. E existe algo ainda mais bonito nessa história: Laura foi redescoberta pelas novas gerações. Na era dos memes, dos recortes de novelas e das redes sociais, personagens que poderiam parecer distantes para os jovens voltaram a circular. E Laura estava lá. Seus gestos, suas falas, seus personagens e sua maneira única de interpretar passaram a fazer parte também do repertório de quem não havia acompanhado sua trajetória desde os primeiros anos.

Ela nunca teve aquele discurso de que a sua geração era melhor. Ao contrário. Laura gostava dos jovens, de contracenar com eles. Sabia que cada geração chega trazendo novas maneiras de contar as mesmas histórias, com novos formatos, propostas e tecnologias. Além disso, entendia que o artista precisa estudar permanentemente a técnica, comportamento, novos formatos e, principalmente, o ser humano.

Glória, desde a primeira novela

Glória Menezes tinha essa mesma compreensão do ofício. Sua trajetória ganhou um capítulo histórico em 1963, quando protagonizou, ao lado de Tarcísio Meira, "2-5499 Ocupado", da TV Excelsior, a primeira novela diária da televisão brasileira, numa época em que tudo precisava ser feito praticamente na raça. Troca rápida de figurino, gravações em condições muito diferentes das atuais, textos, marcações e uma rotina que exigia enorme disciplina. Glória estava ali, entregue ao trabalho.

Glória Menezes e Tarcísio Meira se tornaram um dos grandes casais da dramaturgia brasileira. Juntos, trabalharam em "Sangue e Areia", "Rosa Rebelde", Irmãos Coragem, O Homem que Deve Morrer, Cavalo de Aço, O Semideus, Torre de "Babel", "Páginas da Vida" e "A Favorita". Mas Glória nunca foi apenas a esposa de Tarcísio. Ela construiu uma trajetória própria, com personagens que muitas vezes estavam à frente do seu tempo.

Em "Irmãos Coragem", viveu diferentes personalidades. Em "Pai Herói", deu vida à Ana Preta, uma mulher moderna, dona da própria vida. Em O "Grito", enfrentou uma personagem dramaticamente intensa. Em "Rainha da Sucata", como Laurinha Figueiroa, protagonizou uma das cenas mais lembradas da televisão brasileira.

E Glória nunca pareceu ter medo daquilo que o papel exigia. Se era necessário provocar, provocava. Se era necessário emocionar, emocionava. Se era necessário incomodar, incomodava. Porque sabia que o papel da atriz também era fazer o público pensar."

E talvez seja justamente aí que as trajetórias de Laura Cardoso e Glória Menezes. As duas compreenderam que uma atriz popular tem uma responsabilidade que vai muito além da audiência. Ela pode ajudar a mudar comportamentos, provocar reflexões, apresentar novos modelos de mulher e mostrar outras possibilidades de existência.

Vidas privadas

As duas brilharam. Mas nenhuma delas transformou a própria vida em espetáculo. Havia uma separação muito clara entre a artista e a pessoa. O que acontecia no palco, TV e cinema era público, de domínio popular. A vida familiar, não. E essa talvez seja outra grande lição para as novas gerações.

É possível ser uma grande estrela sem transformar o íntimo em produto. É possível ter milhões de admiradores sem fazer da família uma extensão da carreira. É possível entregar ao público emoção, talento e brilho e, ao mesmo tempo, preservar aquilo que pertence apenas à vida privada. Laura e Glória sabiam disso.

Elas sabiam também que ser artista é trabalhar, estudar, ensaiar, ouvir e aceitar que o tempo muda. Ser atriz é entender que sempre haverá uma nova geração chegando. É ser, como dizia Laura Cardoso, 'uma operária da arte."

Minha experiência com elas

Tive o privilégio de conversar com as duas em momentos diferentes da minha trajetória. Minha última entrevista com Laura Cardoso aconteceu no ano passado, para um quadro que eu comandava no Mulheres, da TV Gazeta. Fui até a casa dela em Itu. Laura nos recebeu com aquele carinho que lhe era tão característico, falou de sua história e, mesmo estando diante de uma equipe de televisão, permaneceu atenta a tudo.

E havia algo muito bonito naquela cena. Ela olhava para a câmera, para o áudio, para a produção, para os profissionais que estavam trabalhando. Ela reconhecia naquela equipe a mesma coisa que reconhecia em si própria: gente atuando para levar informação, entretenimento e arte ao público.

Minha última entrevista com Glória Menezes já havia acontecido alguns anos antes, quando lancei, ao lado de Flávio Ricco, o livro "Biografia da Televisão Brasileira". Passei mais de duas horas sentado na sala do apartamento de Glória e Tarcísio Meira ouvindo histórias fantásticas sobre os primeiros tempos da televisão.

Uma delas ficou especialmente guardada na minha memória. Glória contou que, nas externas da TV Excelsior, na década de 1960, preparava lanches para levar para toda a equipe.

Não era apenas uma atriz chegando para gravar. Era uma profissional que sabia que por trás daquela cena existiam dezenas de outras pessoas trabalhando. Esse gesto diz muito sobre quem ela era.

Laura Cardoso e Glória Menezes deixam saudade. Mas deixam, principalmente, uma obra de verdade e que não envelhece."

O tempo passa. A televisão, as tecnologias, os formatos e, até mesmo, o público mudam. Mas o talento permanece. Que os jovens aprendam com Laura Cardoso a disciplina. Que aprendam com Glória a coragem. Que aprendam com as duas o respeito pelo ofício. E que nunca se esqueçam de que, antes de serem estrelas, elas foram — e sempre serão — grandes operárias da arte brasileira.

Principais trabalhos de Laura Cardoso

  • Tribunal do Coração — TV Tupi (1952)
  • Um Lugar ao Sol — TV Tupi (1959)
  • Ídolo de Pano — TV Tupi (1975)
  • Brilhante — Globo (1981)
  • Pão-Pão, Beijo-Beijo — Globo (1983)
  • Livre para Voar — Globo (1984)
  • Fera Radical — Globo (1988)
  • Rainha da Sucata — Globo (1990)
  • Mulheres de Areia — Globo (1993)
  • A Viagem — Globo (1994)
  • Chocolate com Pimenta — Globo (2003)
  • Como uma Onda — Globo (2004)
  • Caminho das Índias — Globo (2009)
  • O Outro Lado do Paraíso — Globo (2017)
  • A Dona do Pedaço — Globo (2019)

Principais trabalhos de Glória Menezes

  • 2-5499 Ocupado — TV Excelsior (1963)
  • O Pagador de Promessas — cinema (1962)
  • Sangue e Areia — Globo (1967)
  • Rosa Rebelde — Globo (1969)
  • Irmãos Coragem — Globo (1970)
  • O Homem que Deve Morrer — Globo (1971)
  • O Grito — Globo (1975)
  • Pai Herói — Globo (1979)
  • Guerra dos Sexos — Globo (1983)
  • Corpo a Corpo — Globo (1984)
  • Rainha da Sucata — Globo (1990)
  • A Próxima Vítima — Globo (1995)
  • Torre de Babel — Globo (1998)
  • O Beijo do Vampiro — Globo (2002)
  • Senhora do Destino — Globo (2004)
  • Páginas da Vida — Globo (2006)
  • A Favorita — Globo (2008)
  • Totalmente Demais — Globo (2015)
Palavras-chave TV novela rádio

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