Mercado de trabalho desacelera: entenda as implicações econômicas
Divulgação
São Paulo - A lenta e gradual desaceleração do mercado de trabalho vista nos últimos meses é uma boa notícia para a economia, na avaliação de Rodolpho Tobler, economista e pesquisador da FGV IBRE. Mas a sensação de preços ainda altos segue principalmente no setor de serviços. E esse é exatamente o setor que tem impulsionado a criação de vagas.
No acumulado do primeiro semestre foram criados 921.645 empregos com carteira assinada, indicando uma constante desaceleração do indicador nos últimos meses. O saldo representa queda de 25% em relação aos seis primeiros meses de 2025 e é o menor para o período desde 2020, quando foram fechadas 1,399 milhão de vagas em meio aos impactos da pandemia de covid-19.
Leia também
Em junho foram abertos 145.161 novos empregos no mercado de trabalho brasileiro, segundo dados do Novo Caged, divulgados nesta tarde de quarta-feira pelo pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O resultado ficou mais próximo do teto da pesquisa Projeções Broadcast, de 147 mil postos criados.
Serviços na liderança
No Brasil, o setor de serviços (que inclui comércio, educação, saúde, transporte, logística) além de ser ter um peso considerável no PIB, explica Tobler, também é o que gera mais vagas.
Temos três sub-segmentos que vale a pena destacar. Um deles é o de alojamento, alimentação, que é onde se encontram hotelaria, restaurantes, bares e que tem ganhado impulso extra com a maior entrada de estrangeiros no País nos últimos anos. Esse item está diretamente ligado à própria renda das famílias."
Foto: Divulgação
O segundo está em transportes, aponta o economista, com um movimento mais intenso do setor agropecuário na primeira metade do ano pelo escoamento das safras.
"Quando a gente tem uma produção de soja e de milho muito grande que se concentra mais no primeiro semestre, por exemplo, acaba-se desdobrando em mais contratações na área de serviços de transporte."
Aliado a isso, o setor de transportes também é impulsionando pelo maior consumo no comércio online. "Esse grande crescimento do e-commerce visto ao longo dos últimos anos também contribui para que essa atividade de transporte cresça e consequentemente os empregos na área. Vemos cada vez mais o desejo de empresas por entregas no mesmo dia, entregas em dois dias. Então essa atividade tem se mostrado muito aquecida."
Saúde e envelhecimento
E o terceiro sub-segmento, que na visão de Tobler tem apresentado um crescimento interessante e vale acompanhar mais de perto, é a área de saúde. Tem se observado um crescimento nas contratações vindo dessa área, muitas vezes ligados ao setor público. Ao mesmo tempo, tem crescido ao longo dos últimos anos a venda de artigos farmacêuticos e cosméticos.
"Além de cuidar da saúde, a população também se preocupa cada vez mais com cosmética. Outro ponto é que com o envelhecimento a população tende a ter um consumo cada vez maior de remédios", pondera.
Ponto de equilibrio
Quando se fala em melhora do mercado de trabalho, em crescimento da renda, muitas vezes o brasileiro não consegue observar esse mesmo crescimento no consumo do cotidiano, ressalta o economista. Na verdade, analisa Tobler, embora a taxa de desemprego esteja de fato alcançando níveis mínimos históricos e a renda esteja crescendo, a população enfrenta no momento um desafio muito grande, que é o do endividamento.
"A população, principalmente a de renda mais baixa, é a que vem sofrendo há bastante tempo com a inflação. Ou seja, por mais que a renda suba, alguns hábitos de consumo (de produtos e serviços) dessas pessoas têm subido um pouco mais e isso tira um pouco da percepção de melhora do mercado de trabalho", diz o economista.
A boa notícia, segundo ele, é que esse crescimento levemente menor da geração de empregos deixa a economia mais próxima de um ponto de equilíbrio. E isso faz com que o Banco Central (BC) fique um pouco mais tranquilo para reduzir os juros, que hoje estão em 14,25% ao ano.
Isso, consequentemente, fará com que a dívida das famílias não cresça muito e possibilita que a economia cresça um pouquinho mais forte em outro momento. "Ajuda que, no médio e longo prazo, os resultados sejam mais favoráveis", afirma.
Conflito no Oriente Médio e polarização
A turbulência no cenário internacional, com a instabilidade gerada pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã, de fato tem afetado diretamente o mercado doméstico como um todo, reconhece Tobler, por conta da alta dos preços do petróleo. Nesse contexto, com impacto direto nas contratações.
Isso aumenta não só o custo do combustível, mas de todo escoamento das nossos produtos e serviços que podem ser entregues.
Na cena doméstica, a questão da polarização em ano eleitoral também pode trazer um ambiente mais tenso para o mercado de trabalho no segundo semestre, quando haverá eleições para presidente da República e governadores.
"Creio que a tendência é de continuar nesse ritmo, com uma trajetória um pouco mais contida nas contratações em razão de alguns fatores de incerteza que podem acabar, como já mencionei, travando ou pelo menos adiando o ritmo de contratação de alguns empresários", avalia.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.