CONFIRA

Projeto de isenção de IPI para compra de carro por PCD pode ter vida curta

Projeto de Lei 2.079/2026 ainda enfrenta obstáculos fiscais, burocráticos e uma contradição prática, segundo especialistas

Fabiana Holtz

Por Fabiana Holtz

26/08/2026 | 08h47

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Alíquota zero do IPI prevista para maioria dos produtos em 2027 pode tornar PL sem efeito, alertam advogados - Envato
Alíquota zero do IPI prevista para maioria dos produtos em 2027 pode tornar PL sem efeito, alertam advogados
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São Paulo - A discussão de um novo teto para isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI)  para a compra de carros por pessoas com deficiência (PCDs), bastante aguardada para este ano, pode ter vida curta e perder seu efeito prático, alertam especialistas.

Caso aprovado, o Projeto de Lei 2.079/2026 autoriza a elevação do limite de isenção para aquisição de automóveis para esse público no valor de até R$ 250 mil. Atualmente o teto é de R$ 200 mil. O projeto amplia apenas a elegibilidade ao IPI desses veículos. Isso não significa isenção automática de ICMS, IPVA ou de todos os demais tributos.

Mas a questão é a janela de tempo. Afinal, a partir de 2027, o IPI terá alíquota zero para a grande maioria dos veículos, que poderão ter o Imposto Seletivo, como parte da reforma tributária.

Aí está uma contradição prática na questão, aponta o advogado Caio Cesar Braga Ruotolo, sócio do escritório Silveira Advogados. 

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Portanto, mesmo que o projeto seja aprovado no fim deste ano, o aumento do teto poderá produzir efeito por pouquíssimo tempo. O projeto pode até avançar, mas corre o risco de chegar tarde e já nascer praticamente sem efeito", avalia Ruotolo.

A proposta só continuaria relevante para eventuais veículos que continuem sujeitos ao IPI por causa das regras de proteção à Zona Franca de Manaus. Para os demais, não há vantagem em conceder isenção de um imposto cuja alíquota já será zero, ele explica.

Caio Ruotolo, advogado, homem, branco cabelelos curtos e escuros
O advogado Caio Ruotolo observa que a elevação do teto pode ser efetivo por pouquíssimo tempo - Divulgação

Para se ter uma dimensão da expectativa sobre o assunto, conforme dados do Google Trends, o interesse dos brasileiros na busca por informações sobre “isenção PCD” disparou 800% no último ano.

De acordo com os dados divulgados na última Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) do IBGE, de 2022, o Brasil possui 18,6 milhões de PCDs. Não há, porém, um número oficial de quantos carros foram adquiridos por esse público com a isenção.

Também o advogado Alexandre Campos, sócio e diretor jurídico da Tributo Certo, considera que, mesmo aprovado em 2026 o PL terá uma vida útil muito curta, pois a partir de 2027, com o IPI zerado para a maioria dos veículos, essa mudança perderá praticamente sua função. 

O benefício para o público PCD, porém, não desaparecerá: passará a seguir a LC 214/2025, que prevê redução a zero de IBS e CBS para veículos de até R$ 200 mil, mas limitada à parcela de R$ 70 mil do preço, além de zerar o Imposto Seletivo para os veículos enquadrados.

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A nova regra poderá ser utilizada, em geral, uma vez a cada três anos e terá condições relativas ao tipo e à adaptação do veículo e à sua venda antecipada. "Ou seja, em 2027 o problema já será outro: não mais aumentar o teto do antigo IPI, mas discutir se os limites de R$ 200 mil para o veículo e de R$ 70 mil para a desoneração de IBS e CBS são adequados à realidade do mercado", diz Ruotolo.

Quais modelos terão isenção?

Entre os modelos que podem voltar ou entrar para a lista com direito a isenção estão o Jeep Compass (versões intermediárias e superiores), Corolla Cross da Toyota (versões mais completas) e o Song Pro da BYD. 

"Entram para a lista modelos como minivans, que são mais úteis e práticos para essa fatia de consumidores, que hoje precisam adaptar os modelos familiares e acabam gastando mais do que os R$ 200 mil iniciais", afirma Maristela Ferreira de Souza Miglioli, do Ciari Moreira Advogados.

Na prática, o cenário não mudaria muito para carros populares e automáticos compactos, porque boa parte deles já custa menos de R$ 200 mil, observa Ruotolo, do Silveira Advogados. "O ganho real seria ampliar a escolha de veículos maiores, mais equipados, híbridos ou elétricos, que podem oferecer mais espaço para cadeira de rodas e adaptações".

Quais as chances de aprovar o projeto?

Maristela Miglioli, advogada, branca, cabelos escuros e longos
Chances de aprovação do PL ainda esse ano são pequenas, diz a advogada Maristela Miglioli - Divulgação

Advogados tributaristas ouvidos pela VIVA concordam que apesar do projeto já ter passado pelo crivo da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, é difícil dizer se sua aprovação sai ainda em 2026. Segundo Miglioli, do Ciari Moreira Advogados, ainda faltam as análises de adequação financeira, pela Comissão de Finanças e Tributação, e de constitucionalidade, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. 

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"No Congresso não há resistências ideológicas ou políticas ao texto, mas há entraves fiscais e burocráticos, uma vez que o projeto envolve renúncia fiscal e, sem uma compensação financeira (exigida pela Lei de Responsabilidade Fiscal) já no radar, esse aspecto pode se tornar um obstáculo, diz a advogada.  

Na avaliação de Campos, da Tributo Certo, a aprovação em 2026 é possível, embora o calendário eleitoral e a necessidade de avaliar a renúncia fiscal sejam obstáculos relevantes.  Outro ponto importante é que a legislação atual prevê a vigência do benefício somente até 31 de dezembro de 2026, tornando necessária também a discussão sobre sua prorrogação, pondera o advogado. 

Para Maristela Miglioli, esse é um fator que “apressa” a análise do tema no legislativo, pois torna necessário regular a própria isenção, o que deve ocorrer em um pacote só.

Nesse contexto, Carlos Eduardo Navarro, sócio da Galvão Villani, Navarro, Zangiácomo e Bardella Advogados, considera que há chances reais de o PL ser aprovado. Isso porque o IPI vai acabar este ano. "Com a já prevista extinção do IPI, que será substituído pelo imposto seletivo no caso dos automóveis, estaríamos em uma situação que a renúncia seria mínima. Dessa forma, acredito que há chances, sim, de ser aprovado", diz Navarro.

Outro debate na questão da isenção do IPI para veículos destinados a PCD é sobre como será feita a atualização do valor máximo de compra, o que na opinião da maioria dos advogados não precisaria depender de novas leis. Bastaria a atualização periódica do teto por um índice de preços de veículos, atualizado periodicamente. Como diz Miglioli: "Um teto fixo gera defasagem automática, crônica e contínua, descolada das oscilações de mercado. Atrelar o teto a algum índice oficial de inflação seria mais prático. Esse aspecto, contudo, não está contemplado no PL nº 2.079/2026", ressalta.

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