Reporte de sustentabilidade por empresas na Bolsa tem baixa adesão
Envato
Por Broadcast
11/01/2026 | 09h57
São Paulo, 11/01/2026 - O fato de apenas oito companhias terem comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a intenção de divulgar voluntariamente, já neste ano, relatórios de sustentabilidade alinhados aos padrões globais de contabilidade não é necessariamente uma preocupação, mas pode acender um alerta.
As companhias brasileiras tinham até 31 de dezembro de 2025 para comunicar à CVM se fariam reportes voluntários neste ano, e somente C&A, Grendene e JHSF juntaram-se à lista que já contava com os nomes de Natura, Irani, B3, Vale e Lojas Renner.
A avaliação de especialistas é de que as companhias poderiam aproveitar a fase voluntária para alinhamento do processo, que deve enfrentar complexidade técnica, prazos apertados e o desafio de transformar dados de sustentabilidade em informação efetivamente útil para decisões de investimento.
Quais são as novas normas
As normas IFRS S1 e S2 são padrões globais do ISSB (International Sustainability Standards Board) para relatórios de sustentabilidade. A S1 estabelece requisitos gerais para divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e a S2 foca nas divulgações climáticas.
Para a head de ESG da Santander Asset Management, Luzia Hirata, a antecipação seria importante não apenas como sinalização ao mercado, mas como etapa de aprendizado. "Se você não está se preparando, você já está atrasado, porque são dados relativos a 2026", observa Hirata. Na visão dela, a divulgação voluntária permitiria testar processos, identificar lacunas e reduzir o risco de dificuldades quando o reporte passar a ser obrigatório.
Esse reporte será obrigatório a partir de 2027, com dados referentes ao exercício de 2026.
Apesar da frustração com a baixa adesão, Hirata pondera que há obstáculos relevantes do lado das companhias. Segundo a especialista, os novos relatórios exigem elevado grau de conhecimento técnico, integração entre áreas e preparação para a asseguração razoável por auditoria independente. "Não é um relato simples", diz, destacando ainda a pressão sobre prazos, diante da necessidade de auditoria dos dados.
Além das dificuldades operacionais, ela observa uma resistência mais ampla das companhias abertas, o que ficou evidente em movimentos recentes do mercado, como pedidos de adiamento de prazos regulatórios e revisões de regras do Novo Mercado. Ainda, Hirata observa que o tema sustentabilidade perdeu tração nos últimos anos, com deslocamento do foco para outras prioridades, o que ajuda a explicar a menor mobilização em torno do reporte antecipado.
Já a responsável de Research ESG da XP, Marcella Ungaretti, avalia que o fato de a adoção ainda ser voluntária muda a ótica da análise. "Embora seja um número pequeno, acho que a gente mais reconhece de forma positiva a ação dessas companhias do que recrimina aquelas que ainda não publicaram", afirma.
Segundo a especialista, os relatórios já divulgados no ano passado evidenciam esforço e nível elevado de detalhamento coerentes com o objetivo do IFRS de ampliar a transparência e integrar a sustentabilidade à estratégia de negócios.
Ungaretti destaca que o principal avanço desses relatórios está no exercício de quantificação de impactos financeiros, tanto de riscos quanto de oportunidades, em diferentes horizontes de tempo. Esse movimento, segundo ela, ajuda o investidor a tangibilizar temas que antes ficavam restritos a narrativas qualitativas. Ainda assim, reconhece que haverá uma curva de aprendizado. "Conforme o tempo passa, as empresas vão fazendo mais vezes e colhendo feedbacks dos investidores."
Na avaliação do superintendente de crédito privado da Porto Asset, Ricardo Espindola, também gestor do fundo ESG da casa, a baixa adesão inicial é natural em um processo de adaptação a um novo padrão contábil, e entende que as grandes companhias estão se preparando para cumprir a exigência a partir do próximo ano. Ainda, ele diz que os relatórios divulgados em 2025 ajudaram a "abrir caminho" ao trazer padronização, detalhamento de riscos, oportunidades e planos de transição.
Do ponto de vista do crédito, o impacto tende a ser mais direto. Espindola avalia que os relatórios aumentam a credibilidade e facilitam a mensuração de riscos socioambientais, algo ainda difícil na prática. "Com todas as empresas tendo um IFRS vai ser bem mais fácil conseguir quantificar esses riscos", afirma. Ele vê a obrigatoriedade como positiva, especialmente em um momento em que o tema ESG perdeu o apelo de marketing, mas segue material para a análise de risco.
Um ponto central é unânime entre os especialistas: o valor do novo reporte dependerá não apenas da qualidade das informações divulgadas, mas do uso efetivo pelos analistas e investidores. E Hirata, da Santander Asset, alerta para o risco dos relatórios se tornarem "mais um bloco de informação" sem impacto real no valuation. Para ela, é fundamental ampliar o diálogo entre regulador, companhias, investidores e auditores, para que o esforço de reporte se traduza em decisões mais bem informadas.
(Por Bruna Camargo)
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