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Correios passam por reestruturação; o que mudará nas agências e no serviço?

Antonio Cruz/Agência Brasil

Plano de reestruturação inclui o fechamento de mais de mil agências a partir de 2026 - Antonio Cruz/Agência Brasil
Plano de reestruturação inclui o fechamento de mais de mil agências a partir de 2026

Por Thiago Lasco, com Lavínia Kaucz, Mateus Maia e Álvaro Gribel, da Broadcast

redacao@viva.com.br
30/12/2025 | 11h33
São Paulo, 30/12/2025 - Os Correios apresentaram na última segunda-feira, 29, um plano de reestruturação que busca vencer a crise pela qual a estatal vem passando nos últimos anos. Com prejuízo acumulado superior a R$ 6 bilhões entre janeiro e setembro de 2025 e déficits (resultados financeiros negativos) recorrentes desde 2022, que já ultrapassam R$ 10 bilhões, reequilibrar as contas tornou-se uma questão de sobrevivência. 
O plano de reestruturação é dividido em três fases e vai até 2027. As medidas incluem socorro financeiro imediato, ajustes estruturais a médio prazo e uma revisão do modelo de negócios a longo prazo. Entre as mudanças mais visíveis para a população estão um programa de demissão voluntária (PDV) que almeja o desligamento de cerca de 15 mil funcionários entre 2026 e 2027, o fechamento de cerca de mil agências e a venda de imóveis.

Por que os Correios estão em crise?

Por uma conjunção de fatores que vêm se acumulando pelo menos desde 2016. Mudanças de hábito da população, que passou a enviar menos cartas, e a ascensão do comércio eletrônico fizeram com que as encomendas passassem a ter um peso muito maior na operação.
"O modelo tradicional de correios sofreu essa inflexão [reviravolta], é uma coisa que aconteceu também no resto do mundo, não é só aqui no Brasil", afirmou o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, durante a coletiva.
Ao mesmo tempo, manter o serviço postal em locais remotos, de difícil acesso, tornou-se um ônus cada vez mais pesado - que, sozinho, gera um déficit estrutural de mais de R$ 4 bilhões por ano, de acordo com Rondon.
"Essa mudança do ambiente fez com que o modelo de financiamento da companhia ficasse inviável. O monopólio de cartas em centros urbanos ou em locais mais rentáveis passou a não ser suficiente para financiar a operação do serviço postal em locais originalmente deficitários [que geram prejuízo]", explicou o presidente da estatal.
O resultado é uma deterioração financeira. Entre janeiro e setembro deste ano, a estatal acumulou prejuízo de R$ 6 bilhões - quase 3 vezes mais que no mesmo período de 2024 (R$ 2,1 bilhões). As receitas caem e os custos operacionais, não: 90% das despesas da estatal tem perfil fixo, e a folha de pagamento dos funcionários corresponde a 62% do total.

Como os Correios vão conseguir dinheiro?

Na primeira fase do plano, que já está em andamento e vai até março de 2026, os Correios receberam uma injeção emergencial de R$ 12 bilhões para recuperar a liquidez (dinheiro em caixa) e garantir a sobrevivência no curto prazo.
Os cinco maiores bancos brasileiros se uniram para emprestar esse dinheiro à estatal, que pagará ao longo dos próximos 15 anos, com taxa de juros próxima à Selic. Banco do Brasil, Caixa e Bradesco emprestaram, cada um, R$ 3 bilhões, enquanto Itaú e Santander contribuíram, cada um, com R$ 1,5 bilhão. Os recursos poderão ser usados em capital de giro e investimentos estratégicos.
De acordo com Rondon, a intervenção "vai permitir adimplência, recuperar qualidade da operação e retomar confiança" e, sem ela, o resultado seria de R$ 23 bilhões de prejuízo em 2026. "A correção de rota precisa ser feita de forma rápida", destacou. 
Como a necessidade total de financiamento dos Correios é de cerca de R$ 20 bilhões, resta uma lacuna de R$ 8 bilhões. Como esse dinheiro será captado, é algo que a estatal ainda vai avaliar em 2026.

Como os Correios vão cortar custos?

Esse é o escopo da segunda fase do plano de reestruturação, que vai até 2027 e inclui medidas estruturais mais drásticas. Em linguagem simples, os Correios terão que "cortar na carne" para diminuir custos e aumentar o caixa da empresa.
Uma das principais medidas, que deve gerar uma economia de R$ 1,4 bilhão até 2027, é o plano de demissão voluntária, que prevê a saída de 10 mil empregados em 2026 e mais 5 mil em 2027. Cargos com salários médios e altos serão revistos, assim como os planos de saúde e previdência, e passivos judiciais serão renegociados. 
Somente com o plano de saúde atual, a dívida subiu de R$ 348 milhões em dezembro passado para R$ 740 milhões em setembro deste ano. Com a falta de pagamento da estatal ao plano, os funcionários estão enfrentando cancelamentos de consultas, descredenciamento de hospitais e clínicas e dificuldades de autorizações para tratamentos e exames.
Outra medida é o enxugamento da estrutura física dos Correios. Com investimento em automação e logística, a estatal vai fechar centros de treinamento e agências deficitárias (que dão prejuízo), além de eliminar rotas duplicadas. Além disso, a venda de imóveis ociosos deve ajudar a trazer um reforço de caixa.
Todos esses cortes devem trazer uma economia de R$ 5 bilhões até 2028, calcula Rondon.

O que muda para quem usa os serviços dos Correios?

O que ficará mais visível para a população é esse enxugamento da estrutura dos Correios, com a eliminação dos postos de trabalho e, principalmente, de agências - a meta é fechar mais de mil unidades de atendimento. 
Na linha de frente dos cortes estão sobretudo as agências que dão prejuízo - por isso, é mais provável que o baque seja sentido não nos grandes centros urbanos, mas sim nas localidades mais afastadas, de acesso mais remoto, que podem enfrentar perda de cobertura do serviço. 
Na terceira fase do plano, a ideia é reposicionar a empresa para voltar a crescer no médio e longo prazo. Uma consultoria externa vai avaliar alternativas de modelos de negócios.
Foi prometida a formação de um grupo de trabalho dedicado à melhoria operacional. Os objetivos dessa equipe são elevar o nível do serviço, reconquistar clientes perdidos e estancar a perda de receita.
"A terceira fase é para a gente preparar a companhia para um novo rito, dentro de um novo modelo de negócio, uma modernização da sistemática de negócio, para que a gente tenha sustentabilidade em médio e longo prazo", declarou o presidente da estatal.
"Hoje não tem o olhar sobre privatização, mas tem o olhar sobre parcerias, inclusive societárias, para temas relevantes, como negócios financeiros e seguridade. A gente espera que a consultoria traga estudos que casem com a realidade da empresa."

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