Eleições 2026: TSE registra queda de 3,4 milhões de eleitores em 2025
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Brasília - O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou queda de cerca de 3,4 milhões no número de eleitores brasileiros em 2025, uma redução de 2,2% do eleitorado nos 26 Estados, no Distrito Federal e no exterior.
Essa é a maior retração anual desde 2009, quando se iniciou a série histórica disponibilizada pelo tribunal em sua plataforma, e ocorre em meio ao crescimento contínuo da abstenção nas eleições - um sinal de desinteresse cada vez maior do eleitorado pela participação política.
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Os números foram levantados pelo Broadcast Político com base nas informações disponíveis nos dados do TSE. Segundo o tribunal, a redução ocorreu principalmente após o cancelamento de 5.042.047 títulos eleitorais, em maio de 2025. O órgão informou à reportagem que, embora o número de eleitores tenha voltado a crescer entre maio e dezembro, o aumento não foi suficiente para compensar a queda registrada no início do ano. O ano passado começou com 158,86 milhões de eleitores cadastrados em janeiro. Em dezembro, esse número caiu para 155,38 milhões.
O cancelamento, porém, não foi uma medida excepcional em 2025. O procedimento ocorre automaticamente a cada dois anos para o eleitor que falta a três eleições consecutivas sem pagar as multas ou justificar as ausências. O TSE ressalta que "cada turno é considerado uma eleição; logo, faltas em dois turnos de uma mesma eleição são contadas como duas ausências".
Recorde de eleitores faltosos
O levantamento mostra ainda que, em 2025, o número de eleitores que não votaram, não justificaram a ausência nem pagaram multa nos últimos três pleitos atingiu um recorde: 5.308.871 títulos. O total corresponde a 3,17% da população apta a votar. Entre os faltosos, apenas 223.211 regularizaram a situação a tempo e não tiveram os títulos cancelados.
O ano de 2025 marcou a retomada do cancelamento de títulos eleitorais após uma pausa em razão da pandemia de covid-19. A última vez que o TSE havia tomado a medida foi em 2019, quando foram identificados 2.645.785 eleitores faltosos.
O TSE explica que quem tem o título de eleitor cancelado fica impedido de votar e de se candidatar. Também perde o direito de participar de concurso público, obter passaporte e receber benefícios sociais.
O título, contudo, pode ser reativado após a atualização do cadastro eleitoral, que pode ser feita até o dia 6 de maio no site do TSE. "Assim, o número de eleitores aptos a votar poderá sofrer alteração", salientou a Corte, em nota.
Variação ao longo dos anos
Historicamente, anos de eleição têm variação positiva no total do eleitorado. Foi o que aconteceu em 2010, 2012, 2014, 2016, 2018, 2022 e 2024. A única exceção foi 2020, ano em que explodiu a pandemia de covid-19.
Naquele ano, o eleitorado passou de 148,07 milhões em janeiro para 145,95 milhões em dezembro - uma redução de 2,11 milhões. Mesmo sem a pandemia de covid-19, 2025 registrou uma queda maior do que no ano em que o coronavírus impactou o mundo. Em janeiro, eram 158,86 milhões de eleitores e, em dezembro, 155,38 milhões.
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O ano com maior impulsão no número de eleitores foi 2022, quando houve incentivo não só por parte do TSE (como é de praxe em anos eleitorais), mas também de influenciadores e artistas, para que os jovens tirassem o título de eleitor. Foram 9 milhões a mais de eleitores cadastrados em dezembro daquele ano em relação a janeiro, um aumento de 6,16%.
Abstenção
O Brasil tem enfrentado problemas cada vez mais frequentes com as ausências nas eleições. O voto no País é obrigatório, mas eleitores que faltam podem pagar multas de valor irrisório ou justificar a ausência sem sair de casa, no aplicativo e-Título. Desde 2006, o número de faltantes tem crescido, não apenas numericamente, mas também proporcionalmente em relação ao total do eleitorado.
Em 2006, cerca de 21 milhões de eleitores não compareceram às urnas. Representavam 16,75% do eleitorado naquele ano. Esses valores cresceram gradualmente até 2022, quando 32 milhões de eleitores não participaram do pleito - representando 20,9% do total.
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Em 2024, nas últimas eleições municipais, cerca de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas, representando 21,7% do eleitorado naquele ano. No balanço feito logo após o primeiro turno, a então presidente do TSE, Cármen Lúcia, afirmou que "tivemos índice de abstenção que continua sendo alto para os nossos padrões".
Em dezembro de 2024, a ministra chegou a dizer que o TSE poderia rever a possibilidade de usar o aplicativo e-Título para justificar a ausência, mas rejeitou um eventual aumento da multa. Nenhuma das alternativas foi tratada pelo Tribunal até agora.
Eleitores indecisos
Para o CEO e fundador da consultoria de análise de risco Dharma, Creomar de Souza, os candidatos terão de fazer concessões em seus discursos para tentar atrair eleitores indecisos ou de centro.
Esta eleição pode ser tão ou mais conflitiva que a anterior. Precisamos entender como esse eleitor que não sai de casa para votar pode sair para votar. Em 2022, por exemplo, os episódios com Roberto Jefferson e Carla Zambelli fizeram muita gente sair de casa."
Em 2022, Jefferson atirou contra policiais com tiros de carabina e granadas. Ele era alvo de um mandado de prisão à época. Zambelli foi condenada por sacar uma pistola nos arredores da Avenida Paulista, em São Paulo, após ser alvo de críticas e xingamentos de um homem na rua.
Os dois episódios ocorreram às vésperas do segundo turno. Aliados do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro acreditam que os acontecimentos foram fundamentais para a derrota para Lula.
"Creio que o cenário mais provável é o de crescimento da abstenção dentro do padrão histórico. Mas sempre podem acontecer fatos que influenciem esse nível de abstenção. Uma grande comoção social envolvendo o mundo político pode levar a uma maior presença do eleitorado", completou.
Descrédito na política
Eduardo Grin, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV), vê um fenômeno mundial de "cansaço" com a democracia devido à polarização e à falta de percepção de que a política tem efeito real na vida das pessoas. "A participação de eleitores vem decaindo muito, inclusive em países onde o voto não é obrigatório", avaliou.
Essa fadiga também está associada à seguinte leitura: 'Eu não sou bolsonarista, não sou lulista, eu queria ter outra opção'. Mas não tem e não vai ter, porque as redes sociais vão cada vez mais criando essas bolhas que vão ajudando (a polarização)."
Outro fator que contribui para o descrédito das pessoas na democracia, segundo Grin, é a associação da política a práticas ilícitas e à corrupção – o que leva à ideia de que a "democracia não funciona e é só para poderosos".
O cientista político também avalia que a extrema-direita em ascensão no mundo tem feito "campanhas sistemáticas de descredibilização da democracia".
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Para Grin, a solução para esse problema é de "longuíssimo prazo" e envolve principalmente a educação política. "Nós vamos seguir tendo o desafio de buscar resgatar a credibilidade da democracia junto à sociedade. Isso está longe de ser algo garantido e está longe de ser resolvido em curto prazo. E podemos, inclusive, ter retrocessos ainda maiores", observou.
Resposta do TSE
O Broadcast Político consultou o TSE sobre os números da queda do total do eleitorado de janeiro a dezembro de 2025. O Tribunal informou que:
Conforme o artigo 7º, § 3º, do Código Eleitoral, o eleitor que não votar em três eleições consecutivas, não pagar multa ou não justificar a ausência no prazo de seis meses após a data da última eleição tem o título cancelado."
O TSE apresentou algumas publicações feitas em seu portal, como uma que fala em crescimento de 1,09 milhão de eleitores de maio a dezembro. Não cita, porém, o cancelamento de 5 milhões de títulos que ocorreu em maio.
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