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Médico acusado de cegar 21 pacientes é condenado a 40 anos de prisão

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Esterilização inadequada provocou infecção generalizada nas vítimas - Adobe Stock
Esterilização inadequada provocou infecção generalizada nas vítimas
Por Estadão Conteúdo

24/07/2026 | 14h39

São Paulo - A 3.ª Vara Criminal de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, condenou o oftalmologista Paulo Barição a 40 anos de prisão, em regime fechado, sob acusação de causar a perda da visão de 21 pacientes durante um mutirão de cirurgias de catarata. De acordo com a acusação, a esterilização inadequada dos instrumentos cirúrgicos provocou uma infecção generalizada nas vítimas. Cabe recurso.

No processo, o médico negou ter agido com negligência e afirmou que integrava a equipe responsável pelo mutirão havia cerca de um ano e que, até então, já havia realizado mais de mil cirurgias de catarata sem intercorrências. Disse que entregou os instrumentos para esterilização no hospital municipal um dia antes do procedimento e que, na manhã das cirurgias, ajudou na montagem do centro cirúrgico.

Ao Estadão, o criminalista Luiz Flávio Borges D'Urso, advogado do oftalmologista, afirmou que a condenação "é um grande equívoco" e informou que recorrerá da decisão.

"Mais de uma vítima, em audiência e depois de dez anos, confirmou que até os dias atuais se esconde em casa, não tem coragem de expor seu rosto sem o globo ocular, extraído em decorrência do crime que sofrera, tendo o réu Paulo como autor", escreveu o juiz André Luiz Rodrigo do Prado Norcia.

"Como explicar para uma vítima que teve seu globo ocular extraído, ocasionando-lhe a cegueira, além de todo sofrimento, que o crime praticado no seu caso não acarretará qualquer punição para o autor do crime?"

Segundo o Ministério Público, Paulo Barição realizou as cirurgias em 30 de janeiro de 2016 com instrumentos esterilizados de forma inadequada. A perícia concluiu que as 21 vítimas foram contaminadas pela mesma bactéria, a Pseudomonas aeruginosa. Como consequência, 13 pacientes perderam parte da visão e outros oito ficaram totalmente cegos. Apenas duas das vítimas não eram idosas.

'Quadro de grande gravidade'

Uma testemunha, um oftalmologista convocado pela prefeitura de São Bernardo do Campo para atender os pacientes, afirmou que encontrou um 'quadro de grande gravidade' dias após os procedimentos operados por Barição.

Segundo a testemunha, a maioria das vítimas precisou ser encaminhada para hospitais especializados da capital paulista. Ele declarou que mutirões de cirurgia de catarata são procedimentos seguros quando seguem protocolos rigorosos de qualidade, mas afirmou que, naquele caso, houve "indiscutivelmente" falha na esterilização dos instrumentos.

Falhas nos protocolos

Outra testemunha, uma médica infectologista, afirmou que a investigação encontrou diversas falhas nos protocolos de biossegurança. Entre elas, o uso de apenas uma mesa cirúrgica para sucessivos procedimentos, a ausência de troca de aventais entre pacientes e a utilização de apenas duas caixas de instrumentos cirúrgicos para atender todo o mutirão.

Segundo a infectologista, o correto seria que cada paciente fosse operado com um conjunto esterilizado exclusivo. Ela explicou que os instrumentos utilizados passaram apenas por desinfecção, quando o protocolo exigia esterilização completa, processo que levaria aproximadamente uma hora para ser concluído.

Vultos e dores

Os pacientes de Paulo Barição operados naquela manhã de 30 de janeiro relataram "sequelas permanentes e intenso sofrimento físico", de acordo com a sentença.

J.S., de 66 anos à época, afirmou que perdeu a visão de um dos olhos, sofreu dores intensas após a cirurgia e precisou passar por um novo procedimento para tentar reparar os danos.

M.S., de 64 anos, relatou que começou a passar mal ainda na noite da cirurgia. Encaminhada novamente ao hospital, precisou ser submetida a outras três operações. Hoje, segundo o depoimento, consegue apenas enxergar vultos com o olho atingido e afirmou que sentiu dores intensas durante todo o tratamento.

'Alto número de vítimas'

Na decisão, o juiz André Luiz Rodrigo do Prado Norcia afirmou que Barição assumiu o risco da ocorrência dos resultados e que o dolo eventual foi comprovado por conta do alto número de vitimados.

Reconheça-se, se sua conduta tivesse vitimado apenas uma ou duas vítimas, seria difícil a comprovação de seus crimes. Mas, neste caso, o réu reafirmou sua conduta a cada paciente, intencionalmente, assumindo o risco das lesões que acabaram ocorrendo em todas essas vítimas", escreveu.

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