Especial Aposentados: no Sul população envelhecida se afasta da política
Bruno Sitorski/VIVA
VIVA lança documentário sobre como vivem os aposentados no Brasil
Curitiba - Em janeiro de 1958, Mauro Algacir, então com 16 anos, descia do trem na antiga estação ferroviária de Curitiba (PR). Carregava apenas uma sacola escolar, algumas mudas de roupa e a certidão de nascimento, vindo com "uma mão na frente e outra atrás" do município de Rio Negro (PR), na divisa com Santa Catarina.
Para não passar fome na capital paranaense, seu primeiro sustento veio da graxa, limpando sapatos na Praça Tiradentes. Com o que o dinheiro permitia, comprava berinjelas, que comia cruas com sal.
Hoje, aos 85 anos, fez da fome o motor para reivindicar os direitos das pessoas aposentadas de Curitiba, tornando-se um rosto bem conhecido dentro da liderança comunitária do bairro Santo Inácio, junto com sua esposa Cida.
No Campo Comprido, bairro residencial vizinho, vive Sula Depine, de 63 anos. Natural do interior do Estado, de Cruzeiro do Oeste (PR), ela chegou à capital há 43 anos para passar um fim de semana na casa da irmã e nunca mais voltou.
Por trás do olhar tranquilo, carrega o peso de ter passado mais de uma década dedicada aos cuidados do ex-marido, que sofria de alcoolismo e esquizofrenia, o que a levou a desenvolver crises severas de pânico.
As trajetórias de Mauro e Sula não são isoladas; elas dão rosto a uma região que envelhece em ritmo acelerado. O Sul é a segunda área mais envelhecida do Brasil, com 12,1% de sua população acima de 65 anos, encostada no Sudeste, que lidera o ranking com 12,2%, segundo o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Abstenção eleitoral no Sul é alta
Mas essa população pouco vai às urnas para fazer valer seus direitos. Durante as eleições de 2024, a região registrou alto porcentual de abstenção entre a população idosa, de 28,31%, ficando atrás somente do Sudeste.
De acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a abstenção no Sul cresceu progressivamente conforme o avanço da idade: foi de 32,10% na faixa de 70 a 74 anos e atingiu 65,87% entre os eleitores de 80 a 89 anos, cuja taxa média de comparecimento ficou em 34,13%.
Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, o resgate desse público é vital. "Organizar e ter uma participação mais efetiva dessa população de 70 anos e mais é saudável para a democracia brasileira."
Essa inclusão ativa é a marca de Mauro Algacir, que nunca deixou de votar em uma eleição sequer. Em 1976, ele foi o primeiro morador do conjunto residencial Saturno, fato que o impulsionou para uma carreira, pós-aposentadoria, de agente comunitário de saúde por 17 anos. Além disso, atua como membro e militante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (CMDPI) e do conselho de planejamento urbano de Curitiba (Concitiba).
Para Mauro, o envelhecimento não pode ser passivo, e a garantia de direitos e segurança depende da coletividade. "O cidadão sozinho não vai conseguir. Se não tiver um grupo devidamente organizado, não consegue. No coletivo, quando as aspirações são coletivas, você adquire mais."
O encolhimento do prato e da renda
Mauro, hoje com 85 anos, sentiu o achatamento da renda de forma contínua. Quando se aposentou na Copel, em 1988, o benefício valia mais de quatro salários mínimos; hoje, paga menos de dois. Para manter os quatro filhos, nunca pôde parar de trabalhar; continuou na ativa por mais de 30 anos realizando instalações elétricas domésticas no bairro.
Aposentada com um salário mínimo e sem direito à pensão do ex-marido, Sula faz contas diárias para comer. "Você vai ali comprar frutas e já deu quase R$ 100. Só isso, né? E não durou três dias", desabafa. O consumo diário de leite foi cortado pelo preço.
Queria ter o suficiente para ter o básico. Ter o básico no momento."
A chamada "epidemia da solidão"
A moradia no envelhecimento frequentemente vem acompanhada do isolamento. Em Curitiba, 22,11% dos lares possuem somente um residente, índice superior à média estadual de 19,77%, segundo o IBGE.
A pesquisadora e enfermeira Caren da Silva Jacob, atual líder do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Envelhecimento da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), define o quadro nacional como uma "epidemia de solidão". Segundo ela, as famílias menores e a rotina frenética deixam as pessoas com 60 anos ou mais sem suporte diário. Esse isolamento impacta diretamente a saúde. Conforme a pesquisadora, 75% da população idosa no País depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS).
Nós temos uma população que está envelhecendo adoecida, com doenças crônicas não transmissíveis descompensadas, como hipertensão arterial e diabetes".
A perda de autonomia física é visível em Mauro, que lida com as limitações de uma grave fratura dupla no fêmur sofrida há cinco anos. No caso de Sula, o SUS foi a salvação para tratar as crises de pânico na ausência de recursos para um convênio privado.
Caren da Silva Jacob alerta que o benefício previdenciário no Brasil frequentemente é diluído com outros membros do lar, o que agrava a situação. "Temos muitas vezes a aposentadoria dessas pessoas, de um salário mínimo, como única fonte de renda de muitas famílias. E aí, para a pessoa envelhecer bem, tendo que ainda sustentar outros membros da família, é praticamente impossível."
Assista a Websérie Aposentados no YouTube do VIVA com um clique aqui. O primeiro episódio vai ar nesta terça-feira, às 19h.
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