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Cidadania e Direitos / Política

Especial Aposentados: dependência familiar marca envelhecimento no Centro-Oeste

Yuri Cruvinel/VIVA

Série documental "Aposentados" acompanha 10 beneficiários do INSS nas cinco regiões do Brasil - Yuri Cruvinel/VIVA
Série documental "Aposentados" acompanha 10 beneficiários do INSS nas cinco regiões do Brasil

VIVA lança documentário sobre como vivem os aposentados no Brasil

Por Bárbara Ferreira

15/09/2026 | 08h12

São Paulo - Das 7,2 milhões de pessoas residindo em Goiás, mais de 1 milhão são idosas (14,4%), de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - índice superior ao da Região Centro-Oeste, de 13,2%.

E, destes idosos, cerca de 25% continuam na força de trabalho, majoritariamente por conta própria, de acordo com o Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (IMB). Dentre esses trabalhadores, 55% tem de 60 a 64 anos, e 27% estão entre 65 a 70 anos de idade.

Além de ter de continuar trabalhando para conseguir viver depois de se aposentar, metade da população do Estado não consegue ter autonomia. Em torno de 50% dos idosos de Goiás vivem em domicílio familiar nuclear, ou seja, moram na mesma casa que um cônjuge, filho ou irmão, de acordo com o IMB. 

Esta é a situação do casal Luiza Odete e Kardec Sebastião, de 66 e 69 anos, que moram há três anos na casa de um dos filhos, em um região afastada em Goiânia. Decidiram deixar o aluguel do bairro onde moravam desde 1988 por questões financeiras.

Os dois são vítimas diretas do Césio-137, o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina. Por conta do acidente, os dois recebem pensões indenizatórias. Já Kardec, que trabalhava como vigilante na época do ocorrido, foi aposentado pelo INSS recebendo um salário mínimo - é possível acumular aposentadoria e pensão, segundo a legislação.

Luiza e Kardec são vítimas diretas do acidente radiológico com Césio-137
Luiza e Kardec são vítimas diretas do acidente radiológico com Césio-137 - Yuri Cruvinel/VIVA

O preço do cuidado fica com a família

Os dois contam com a ajuda familiar para se locomoverem na cidade. O transporte é o principal problema da região porque os dois lidam com questões de saúde depois da exposição ao Césio. Kardec está se recupernado de um AVC e faz uso de medicação contínua, por exemplo. Por conta do acidente, os dois têm plano de saúde e ainda assim os filhos precisam arcar com alguns medicamentos.

Luiza conta que pretende se mudar de volta, pois acha difícil depender dos filhos. "Vou ser mais independente. Ir na casa de uma amiga, comprar alguma coisa, pagar uma conta. Vai ser mais fácil para mim", conta.

Para Ana Amélia Camarano, PhD em estudos populacionais e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o custo de envelhecer é alto. Entre algumas medidas para aliviar o valor baixo de aposentadoria está o transporte urbano gratuito e outros incentivos como redução do valor de entrada em eventos sociais e culturais, por exemplo.

No entanto, mesmo que a questão da renda para população idosa tenha sido resolvida de alguma forma, o cuidado não foi incluído na conta.

O cuidado é uma questão não resolvida e coloca sobre a família essa necessidade. Quando a Constituição de 1988 garantiu uma renda, mesmo que mínima para a população idosa, ela deixou o cuidado por conta da família".

Subsistência e sobrevivência

Eliane Carvalho, 57, mora com o esposo e o filho mais novo, os dois mais velhos se mudaram. Moram no mesmo local há 16 anos, em uma área cedida pela Prefeitura de Trindade. Para morar, ela explica que cumpre com várias responsabilidades com o terreno, uma área de preservação ambiental.

Como aposentada rural ela recebe mensalmente um salário mínimo pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A aposentadoria permitiu que ela desacelerasse o ritmo de trabalho depois de 30 anos levando o que plantava em casa para vender na feira, mas não possibilitou que ela parasse.

Atualmente, continua vendendo o excedente do que planta para subsistência para vizinhos e padarias, na zona rural de Trindade (GO). Açafrão, leite, mandioca... "hoje em dia em roça, tudo tem seu seu valor. As pessoas da cidade querem tudo". Eliane conta que as vendas rendem outro salário mínimo para a família.

Se não complementar, não é possível. Se for um salário… é uma coisa impossível de entender. A gente tem várias despesas", afirma.
Eliane Carvalho viva na zona rural de Trindade, em Goiás
Eliane Carvalho viva na zona rural de Trindade, em Goiás - Yuri Cruvinel/VIVA

Como observa o professor Tadeu Alencar Arrais, titular de Geografia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e coordenador do Observatório do Estado Social Brasileiro, há um custo simplesmente por estar vivo. Essa cobrança passa por moradia, medicamento, alimentação, transporte, água e outros itens.

"O que ocorre é que as camadas mais vulneráveis da população brasileira fazem uma ginástica todos os dias de suas vidas para sobreviver com o salário mínimo", diz. Segundo ele, o valor do salário mínimo (R$ 1.621 em 2026) não é suficiente para viver em Goiás nem em nenhum outro Estado brasileiro.

Somente com aposentadoria não dá para se viver bem em lugar nenhum", diz o professor.

Arrais aponta que este salário pode possibilitar estilos de vida diferentes a depender das características demográficas do local onde aquele idoso vive. Por exemplo, o interior tem um custo de vida menor que da Região Metropolitana, mas isso não significa que o dinheiro é suficiente.

Fora o fato de que o índice de envelhecimento em Goiás, de 45,3, é menor do que a média geral. No Estado, existem cerca de 45 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, segundo o Censo do IBGE, ao passo que a média do País é de 55,2.

Assista a WebSérie Aposentados no YouTube do VIVA com um clique aqui . O primeiro episódio vai ar nesta terça-feira, às 19h.

VIVA lança documentário sobre como vivem os aposentados no Brasil

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