Especial Aposentados: na Amazônia, baixo envelhecimento esconde vulnerabilidades
Wellingson Abelha/VIVA
VIVA lança documentário sobre como vivem os aposentados no Brasil
Belém - Às seis da manhã, em um condomínio fechado no meio urbano de Belém (PA), o coronel Varela, 54, reservista da Polícia Militar, desperta com a mente acelerada, como era o ritmo da ativa que cumpriu por quase três décadas. A poucos quilômetros dali, atravessando o Rio Guamá até a ilha do Combu, o ex-caminhoneiro Miguel Prestes, 69, inicia o dia com os pés na várzea, para trabalhar com o açaí e o cacau que garantem o complemento de sua renda.
Os dois aposentados espelham as múltiplas velhices da Amazônia. O quadro ilustra a complexidade da transição demográfica na região. Historicamente, a Região Norte consolida-se como a mais jovem do Brasil, abrigando 25,2% de sua população na faixa etária de até 14 anos. Contudo, os dados do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que a curva de envelhecimento avança com rapidez no território amazônico.
A idade mediana da população nortista deu um salto de 24 para 29 anos entre 2010 e 2022. No Estado do Pará, o índice de envelhecimento registrou a marca de 29,6 pessoas idosas para cada 100 jovens de até 14 anos.
Mas os dados brutos sobre envelhecimento escondem vulnerabilidades locais, segundo a enfermeira, pesquisadora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e especialista em saúde pública, Daiane de Souza Fernandes. "O Norte ainda é considerado jovem em dados brutos, mas é uma das regiões com menor densidade demográfica. Quando se considera a métrica da Organização Mudial da Saúde (OMS), a proporção de idosos em comparação à população total acima de 7% já aponta uma população envelhecida."
De acordo com o IBGE, na capital do Pará, Belém, o indicador atinge 59,5 pessoas idosas para cada 100 crianças e adolescentes. "Isso é muito preocupante porque ainda estamos abaixo da média nacional das capitais", analisa Fernandes.
A pesquisadora complementa que a população idosa paraense carrega contornos sociais bem definidos.
A maioria é formada por mulheres negras ou pardas, com baixa escolaridade e alta predominância de doenças crônicas não transmissíveis. Além disso, nossa expectativa de vida no Norte é em média de 75,9 anos, figurando entre as menores do País".
O demógrafo e pesquisador aposentado do IBGE, José Eustáquio Diniz Alves, explica que o Brasil vivencia a reta final da transição demográfica. No Sul, o Rio Grande do Sul tem 115 idosos para cada 100 jovens; em Roraima, são 27 para cada 100, detalha. "No Norte e Nordeste, o leque ocupacional é mais estreito, fazendo com que muitas pessoas idosas dependam de benefícios básicos."
A inatividade dentro dos muros
Após 28 anos de serviço ativo, Varela encerrou a carreira militar no topo do oficialato, ao atingir o posto de coronel.
Ao longo de quase três décadas, comandou operações da Força Nacional em Brasília durante as manifestações de 2013, atuou em áreas de fronteira na Amazônia e idealizou o projeto da Patrulha Maria da Penha em Belém.
A transição para a reserva revelou um difícil processo de descompressão psicológica. "Eu acordava cedo e já não conseguia dormir. A mente continuava trabalhando como se eu estivesse na ativa, dizendo: 'Levanta porque tem missão'", relembra.
Para não adoecer, ele buscou ocupar o tempo com uma nova faculdade, esportes e cuidados com a filha de 12 anos. "Infelizmente, nem todos os policiais têm essa preocupação; alguns se envolvem com álcool ou drogas porque não conseguem ter essa orientação ao se aposentar", afirma. Ele ressalta que o sofrimento emocional é um dilema presente nos quartéis.
Temos muitos policiais com problemas mentais. No nosso grupo de WhatsApp da turma de oficiais, quando algum colega silencia por dias, a gente já fica alarmado: 'Dá uma ligada para ele, vê se tá bem'. A pressão é muito grande".
Beneficiado pela previdência militar, Varela aposentou-se sem sofrer perdas salariais, recebendo cerca de 18 salários mínimos. A ausência de reduções financeiras garantiu a manutenção de um padrão que inclui plano de saúde particular, mas a mobilidade é limitada pelo medo da violência urbana.
Ele reside em um condomínio que considera uma ilha de proteção. "Fora do condomínio, eu não me sinto seguro. Eu nem cogito sentar num bar na beira da rua porque vou estar correndo risco".
A vida comunitária do ex-caminhoneiro
Após 32 anos rodando o Brasil como caminhoneiro, Miguel Prestes vive há 12 anos de forma fixa no Igarapé Piriquitaquara, na Ilha do Combu, região metropolitana fluvial de Belém.
Apesar de somar mais de 50 anos de trabalho desde a infância na lavoura, as alterações legislativas exigiram 35 anos de contribuição formal, o que resultou em uma defasagem de mais de 20% no benefício. Hoje, recebe R$ 2.680.
Para garantir o sustento, ele e a esposa plantam açaí, cacau e cupuaçu. O trabalho agrícola na várzea também é acompanhado de sua atuação na função de liderança comunitária local e coordenador da Igreja Católica de Santo Antônio, ainda em construção.
Minha esposa faz parte da Associação das Mulheres Extrativistas (AMME). Nós temos a máquina de bater o açaí e criamos galinhas para ter nossos ovos. Tudo isso ajuda no orçamento para vivermos com dignidade."
Miguel enfrenta dores na coluna — adquiridas em décadas de trabalho braçal — e artrose no joelho direito, tratando os incômodos com pomada natural de andiroba. Para se deslocar pela comunidade, caminha sobre pontes de madeira acidentadas ou utiliza um pequeno barco "casquinho".
Quando precisa de atendimento médico especializado em Belém, depende de agendamento com a agente de saúde local ou de viagens fluviais.
Em contraponto à cidade, sua percepção de segurança no Combu é plena. "Eu me sinto muito seguro, com a graça de Deus. A segurança aqui é primordial porque todos somos vizinhos, amigos e parentes. Quando aparece um estranho, nos comunicamos pelo celular e cuidamos uns dos outros."
O maior desafio local, no entanto, é a total ausência de saneamento básico.
Nós moramos numa área que flutua. A minha fossa é alta e estruturada, mas quando vem a maré grande, a água invade. E 90% das fossas da ilha são assim. Não há incentivo ou projetos do governo para saneamento."
A visão da ciência sobre a velhice rural
A investigação acadêmica corrobora o relato de Miguel sobre a importância do trabalho no campo. O pesquisador e professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Hércules Campos, desenvolve estudos com idosos do interior amazônico e aponta que continuar trabalhando tem impacto direto na saúde mental dessa população.
"O idoso rural aposentado que continuava trabalhando em algum ofício melhorava em até sete vezes o seu propósito de vida. Trabalhar não é encarado como o fardo urbano, mas como sentido de existência", explica o pesquisador.
No entanto, Campos alerta para a negligência estatal. "Eles vivem o que chamo de 'pequenas violências' diárias do Estado", com a ausência de tratamento odontológico básico, a falta de transporte para hemodiálise e quimioterapia, ou a dificuldade da mulher rural em comprovar trabalho na roça para conseguir um salário mínimo de aposentadoria."
Daiane de Souza Fernandes alerta para as barreiras de mobilidade e acesso que afetam as pessoas idosas tanto na capital quanto nas ilhas. "Se na cidade o problema são os ônibus com degraus altíssimos e as calçadas esburacadas que causam isolamento, nas comunidades ribeirinhas o idoso sofre quando não tem combustível para o barco, ficando à margem do acesso aos serviços básicos de saúde."
Assista a websérie Aposentados no YouTube do VIVA com um clique aqui. O primeiro episódio vai ao ar nesta terça-feira, 15, às 19h.
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