Especial Aposentados: Ilhéus envelhece mais rápido que a média do Nordeste
Nínive Leão/VIVA
VIVA lança documentário sobre como vivem os aposentados no Brasil
Ilhéus (BA) - O céu azul surge quase na mesma hora em que o sol desponta. As ondas brancas do Oceano Atlântico se misturam com vestígios e faixas de Mata Atlântica. Na orla, pessoas correm sem parecer se preocupar com o horário de entrada no trabalho.
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Esta é a vista da janela do apartamento com vista para o mar de Ilhéus, da administradora Faura Rocha, 59. Já aposentada por tempo de serviço e concursada desde 1989, ela mantém um trabalho voluntário voltado ao incentivo à economia criativa e ao fortalecimento dos negócios de artesãos.
Não tão distante, a cerca de 20 minutos dali, a realidade muda. As ruas sem asfalto destacam a cor da terra vermelha, enquanto os carros passam e levantam poeira.
Aos 70 anos, Helenita Polônia Chagas, mais conhecida como Nita, não vê nem frequenta a praia. Ela divide a rotina entre a casa, a igreja e uma máquina de costura, que funcionando diariamente. "Enquanto consigo costurar, continuo trabalhando", diz a ex-professora.
As realidades tão distintas dessas duas aposentadas retratam um Nordeste que envelhece rapidamente, mas não enriquece.
Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da PNAD Contínua, apontam que a Região Nordeste concentra os maiores índices de pobreza e a menor renda média do País. Cerca de 39% da população nordestina vive abaixo da linha da pobreza, seguida pela Região Norte, onde esse percentual é de 35%.
"Quando você tem essa urgência financeira, a necessidade de subsistência, existe muito pouco espaço para pensar em planejamento para o futuro, porque a preocupação é se amanhã vai ter comida, moradia, as necessidades básicas”, afirma Jaqueline Milhomem, doutora em Administração e autora do livro "Gerações brasileiras", pesquisadora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA).
A particularidade do envelhecimento nordestino está na velocidade com que ele acontece, de acordo com o pesquisador, professor e demógrafo Ricardo Ojima, do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A queda das taxas de mortalidade e, principalmente, de fecundidade chegou mais tarde à região, mas avançou de forma muito mais rápida do que a média nacional após seu início.
A redução do número médio de filhos por mulher no Nordeste foi muito mais rápida do que a média do Brasil. Por isso, a base da pirâmide etária encolheu em um ritmo mais acelerado. Embora esse processo tenha começado um pouco mais tarde na região, o envelhecimento da população deve avançar na mesma velocidade”, explica.
Equilíbrio entre gerações
Segundo o IBGE, o índice de envelhecimento da região Nordeste passou de 27 idosos para cada 100 crianças e adolescentes em 2010 para 47,9 em 2022. O Censo Demográfico de 2022 aponta que a região reúne 54,6 milhões de habitantes, o equivalente a cerca de 27% de toda a população brasileira. Nesse cenário, a Bahia se destaca como o Estado mais populoso do Nordeste e o quarto do País, com 14,1 milhões de moradores.
Ilhéus aparece como a oitava cidade mais populosa do Estado. O município tinha 178.649 moradores no Censo de 2022 e uma estimativa de 189.259 habitantes em 2026. Mas o dado que mais chama atenção é sua composição etária: Ilhéus vive um processo de envelhecimento que a aproxima do equilíbrio entre o número de crianças e de idosos.
De acordo com o IBGE, o índice de envelhecimento do município chegou a 84,91, o que significa que há cerca de 85 idosos para cada 100 crianças. Com menos nascimentos e pessoas vivendo mais, cresce a participação dos idosos na cidade, o que aumenta a demanda por serviços de saúde, assistência social, transporte, lazer e políticas públicas voltadas ao envelhecimento.
O demógrafo Ricardo Ojima destaca que a aceleração do envelhecimento nordestino reduz o tempo disponível para que políticas públicas, infraestrutura de saúde e estruturas sociais se adaptem à nova realidade populacional.
Ele cita estudos que indicam que enquanto países europeus levaram cerca de um século para completar sua transição demográfica, o Brasil está fazendo esse mesmo percurso em torno de 50 anos, e o Nordeste deve concluir esse processo em aproximadamente 30 anos.
Não se pode esperar que a proporção de pessoas idosas aumente para só então investir nessa população. Pensar nos idosos de amanhã é pensar nos adultos de hoje”, disse.
Ojima refuta a ideia de que envelhecer no interior “é mais tranquilo” do que nas grandes cidades e afirma que tudo depende do contexto de vida de cada pessoa. Segundo o demógrafo, a desigualdade social, e não o tamanho do município, é o fator que mais determina a qualidade do envelhecimento no Brasil.
Costurando para ter autonomia financeira
Com mais aposentados recebendo benefícios e menos jovens contribuindo, esse cenário cria desafios para governos, municípios e famílias, que passam a conviver por mais tempo com diferentes gerações sob o mesmo teto. É o caso de Nita.
Orgulhosa, ela contempla diariamente a foto da neta, que está se formando em Gastronomia. Mesmo com os dez netos estudando e os quatro filhos trabalhando, os consertos de roupas ainda são necessários para complementar o benefício de um salário mínimo que recebe do INSS, o qual não cobre todas as despesas do mês.
Tem semana que aparece serviço, tem semana que não aparece nada. Mas continuo fazendo porque ajuda no salário e me mantenho ativa. Enquanto eu puder, vou trabalhando, costurando e colocando a linha na agulha".
Depois da separação, criou os filhos sozinha, conciliando o trabalho como professora e a costura. Mesmo aposentada, afirma que prefere continuar ativa. Afinal, a aposentadoria oferece tranquilidade por garantir um pagamento fixo todos os meses, mas não elimina a necessidade de planejamento.
O orçamento é organizado com atenção às promoções dos supermercados, aos gastos com medicamentos e às despesas da casa. Quando necessário, substitui produtos, reorganiza refeições e evita compras parceladas para não comprometer a renda futura.
Trabalho voluntário e realização
Formada em Administração, com pós-graduação em Psicologia da Administração e Psicanálise, Faura Rocha é mineira e mora há 30 anos em Ilhéus, cidade para onde se mudou após se casar com um ambientalista baiano. Aos 59 anos, ela conta que se aposentou oficialmente aos 49, depois de começar a trabalhar cedo, mas decidiu seguir ativa.
Concursada desde 1989, ela continuou trabalhando na Caixa Econômica Federal, passou a administrar uma hospedagem em Serra Grande, aproximadamente 42 km de Ilhéus, e ampliou sua participação em projetos comunitários voltados ao desenvolvimento da cidade.
Eu achei que ainda tinha muito a dar e muito a contribuir. Além disso, a aposentadoria oficial é pequena para a gente sobreviver só com ela."
Para ela, a aposentadoria oferece estabilidade, mas dificilmente garante, sozinha, o padrão de vida desejado por muitas famílias. Por isso, decidiu diversificar as fontes de renda e investir em atividades que também proporcionassem realização pessoal.
Entre elas está o Ciranda na Praça, projeto criado em 2017 por um grupo de mulheres para ocupar espaços públicos de Ilhéus com atividades culturais, recreativas e feiras de economia criativa. O objetivo inicial era simples: devolver as praças às famílias e incentivar que crianças voltassem a brincar em espaços públicos.
Hoje, além das atividades voltadas ao lazer, o projeto reúne pequenos produtores, artesãos, cozinheiros, artistas e empreendedores que utilizam o espaço para comercializar produtos e ampliar a renda. Ela afirma que diversos expositores conseguiram organizar a vida financeira a partir das vendas realizadas durante as feiras.
A gente fica muito feliz quando um pequeno produtor diz que vivia endividado ou tinha problemas com o cartão de crédito e que, hoje, a vida financeira está organizada. É uma delícia ouvir isso", conta.
Outro efeito observado pela organizadora foi o aumento da participação de aposentados. Faura relata que muitos procuram o projeto depois de descobrir habilidades desenvolvidas ao longo da vida, como produzir doces, bordados, velas, flores artificiais ou peças artesanais.
"Os idosos precisam ser vistos pelo valor que têm e pelo lugar que ocupam, e sempre ocuparam, na sociedade, e não apenas pelos desafios relacionados à saúde. Essa mudança na percepção sobre a aposentadoria e o envelhecimento ainda está está engatinhando", diz a especialista Jaqueline Milhomem.
Embora tenha se aposentado cedo, Faura afirma que nunca considerou abandonar completamente a vida profissional. Ela destaca que o benefício previdenciário deve ser visto como parte do planejamento financeiro, mas não como a única fonte de sustento durante a velhice.
Quando a gente tem 20 ou 30 anos, não pensa que esse momento vai chegar. Mas ele já está a caminho."
Ela recomenda pensar antecipadamente em alternativas que possam garantir estabilidade financeira no futuro, seja por meio da previdência privada, da construção de uma reserva financeira ou do desenvolvimento de atividades capazes de gerar renda após o fim da carreira formal.
Sob a ótica do comportamento geracional, a pesquisadora Jaqueline Milhomem analisa a aposentadoria como um momento carregado de significados emocionais, além dos financeiros.
Costumamos falar desse benefício, entre muitas aspas, como uma recompensa por todo o período de trabalho. Mas ela também representa um corte, uma divisão, uma mudança na forma como a vida passa a ser vivida", afirma.
A pesquisadora observa que muitos aposentados continuam sustentando suas famílias mesmo depois de parar de trabalhar formalmente, o que reforça a cobrança interna de seguir produtivo e dificulta viver o período de descanso sem culpa. Para ela, essa dinâmica é ainda mais sensível em regiões como o Nordeste.
Assista a WebSérie Aposentados no YouTube do VIVA com um clique aqui. O primeiro episódio vai ar nesta terça-feira, às 19h.
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