Especial Aposentados: Sudeste lidera 60+ que vivem só; e solidão preocupa
Foto: Bruno Sitorski/VIVA
VIVA lança documentário sobre como vivem os aposentados no Brasil
São Paulo - "Moro em Jaçanã". A estrofe do famoso samba sobre a vida em São Paulo se aplica à aposentada Anna Neves, de 91 anos. Com renda de um salário mínimo de aposentadoria, ela é um personagem que retrata a dificuldade de vida na metrópole. Mas, ao contrário do enredo de Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, ela vive sozinha. E a solidão é seu maior desafio.
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Nascida em Bragança Paulista, no interior, Anna Neves veio para a capital aos 6 anos. Aos 13 começou a trabalhar numa tecelagem, e depois ingressou na antiga Telesp S/A, onde permaneceu por 23 anos até se aposentar.
Ela não teve filhos e logo após ficar viúva foi morar em um cômodo e cozinha nos fundos da casa de uma prima. Pelo fato de viver sozinha e não pagar aluguel, a vida é simples.
Sua aposentadoria é de pouco mais de um salário mínimo, mas ela relata que, apesar das dificuldades, consegue arcar com as despesas essenciais.
Anna tem um vida solitária, e teme não poder contar com a ajuda de alguém caso venha a precisar.
Eu me trato no Jaçanã, que era asilo e passou a ser um hospital geriátrico. Tem um médico lá que eu conheço faz anos, e eu já falei para ele se dava para arrumar um lugar para mim. Porque eu não vou poder pagar uma casa de saúde na hora em que eu não puder arrastar mais o pé”.
A história de Anna Neves está no documentário "Aposentados", do VIVA, que apresenta com detalhes a realidade do brasileiro pensionista do sistema público de previdência.
Sudeste lidera entre idosos que vivem sozinhos
Dados da pesquisa "Geração 60+: Moradia e Arranjos Familiares", realizada pela Nexus revelam que a região Sudeste concentra o maior volume absoluto de idosos que vivem por conta própria no Brasil, somando expressivos 3 milhões de lares compostos por uma única pessoa com 60 anos ou mais.
Veja a distribuição dos 60+ morando sozinhos no País:

No Brasil todo, a independência feminina se sobressai: as mulheres representam 62% das pessoas 60+ que moram sozinhas. Os números evidenciam uma geração prateada autônoma que, no Sudeste, assume ativamente a gestão de suas próprias rotinas e orçamentos domésticos.
Em São Paulo, Estado mais rico do Brasil e cuja capital está entre as mais populosas do mundo, os desafios passam longe da falta de infraestrututra ou serviços. Ao contrário de outras regiões, em São Paulo o sistema de transporte é amplo, a distribuição de postos de saúde propicia um atendimento gratuito a grande parte da população, e há diversos programas sociais.
O Bom Prato, na capital, garante alimentação a um baixíssimo custo, com almoço e jantar a R$ 1,00 e café da manhã a R$ 0,50, por exemplo. Mas estes benefícios não amenizam o sofrimento de quem não consegue se manter com o que recebe de aposentadoria.
Com a ajuda de amigos
É o caso de Regina Sposito, 67, aposentada por incapacidade permanente em virtude de uma osteogênese imperfeita, também conhecida como a "doença dos ossos de vidro". A doença que lhe causou 279 múltiplas fraturas em várias partes do corpo. Isto faz com que ela tenha uma grande dificuldade de locomoção.
O valor de um salário mínimo que recebe de aposentadoria é insuficiente, uma vez que seus medicamentos são de alto custo. Ela só consegue arcar com o custo graças à solidariedade de amigos.
Mas seu principal receio não é com a saúde ou com a possibilidade de ter de deixar a casa onde mora com a família. Sua grande preocupação é conseguir manter seu trabalho voluntário de apoio a crianças que sofrem com a mesma síndrome que ela. Uma motivação de vida para Regina, que teme não poder dar continuidade.
Meu traballho precisa de mãos, de pessoas que ajudam. Eu precisava de um espaço, porque eu não tenho. Então, nesse espaço, o que que eu iria fazer? Eu iria ampliar tudo. Na verdade, eu só queria que este meu sonho não morrese comigo".
Desigualdade marcam o envelhecimento no Brasil
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o Brasil está envelhecendo a passos rápidos. De acordo com as estimativas do instituto, os60+ — o recorte que o IBGE trata como idoso — somam 36,6 milhões de pessoas, o que equivale a 17,1% do total no País. Eram 8,7% em 2000.
As estatísticas concluem que este amadurecimento não acontece da mesma forma para todos. Fatores como gênero, raça e renda determinam diretamente de que maneira vive a população idosa brasileira.
Para o analista socioeconômico do IBGE, Jefferson Mariano, professor da Faculdade Cásper Líbero, um dos principais fatores desta “nova” maturidade está na marcante presença feminina.
No Brasil, de acordo com o IBGE, dentro do contingente de idosos 60+ existem cerca de 3,6 milhões de mulheres a mais do que homens. Mariano explica que o aumento na quantidade de mulheres dentro dessa faixa etária passa principalmente por questões comportamentais.
A mortalidade dos homens é mais elevada tanto por causas naturais quanto por externas, como acidentes e violência”.
Para Mariano, no Brasil a pessoa 50+ conquistou o direito de viver mais, entretanto ainda luta para que esse aumento venha acompanhado de igualdade, saúde preventiva e segurança financeira.
Assista a WebSérie Aposentados no YouTube do VIVA com um clique aqui. O primeiro episódio de cinco vai ao ar nesta terça-feira, às 19h.
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