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Solidão e isolamento têm implicações graves para a saúde, alerta geriatra americano

Divulgação/Gerp.26

O médico geriatra Thomas Cudjoe alerta que isolamento e solidão podem elevar riscos à saúde e levar a morte prematura - Divulgação/Gerp.26
O médico geriatra Thomas Cudjoe alerta que isolamento e solidão podem elevar riscos à saúde e levar a morte prematura
Por Bianca Bibiano

25/04/2026 | 08h00

São Paulo - Na última semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) mostrou que a população de idosos que vivem sozinhos no Brasil vem crescendo, representando atualmente 41,2% das pessoas nessa condição. A tendência acende um alerta para os riscos da solidão após os 60 anos, que pode prejudicar a longevidade e reduzir a qualidade de vida na velhice.

"O isolamento social está associado a níveis mais elevados de biomarcadores e um aumento de 29% na incidência de doenças coronárias e risco de AVC. [...]  Muitas vezes, os médicos focam no tabagismo ou na obesidade, mas a conexão social não recebe tanta atenção".

É o que aponta o médico geriatra Thomas Cudjoe, da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos. Em entrevista ao VIVA durante o Congresso Gerp.26, em São Paulo, ele observou que o isolamento social é uma experiência desgastante que afeta muitos idosos nos Estados Unidos, no Brasil e em todo o mundo. 

"Uma das principais razões pelas quais enfatizamos a importância de falar sobre o isolamento social e a solidão é o seu impacto na saúde. Precisamos fazer algo a respeito."

Durante sua palestra, Cudjoe também citou uma pesquisa de 2015 com 3,4 milhões de participantes que mostrou que a solidão e o isolamento são fatores de risco para mortalidade prematura e citou outro estudo mostrando que indivíduos que sofrem isolamento social têm 27% mais chances de desenvolver demência ao longo de nove anos.

"Também descobrimos que eles têm o dobro de chances de serem colocados em asilos dentro de dois anos. A pesquisa liga déficits de conexão social a vários resultados adversos", ponderou o médico.

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Solidão x isolamento social

O geriatra americano separa solidão de isolamento social, destacando que ambos afetam a vida das pessoas idosas de modo negativo, mas requerem estratégias específicas.

"Isolamento é um estado objetivo onde o indivíduo tem poucas relações sociais e papéis sociais. Pode-se usar a metáfora de um eremita em uma caverna. Já a solidão é uma experiência subjetiva angustiante resultante de conexões percebidas como inadequadas ou insuficientes."

Ele diz que a conceituação e medição desses tópicos não é fácil no meio acadêmico. "É um pouco confuso porque diferentes áreas como psicologia e sociologia definem as coisas de maneiras distintas"

 Para reforçar a diferença, exemplifica que o isolamento é objetivo, como estar em quarentena. "Pode ser uma escolha e não necessariamente desagradável para alguns. Já a solidão envolve um baixo senso de escolha e sofrimento emocional. É um sentimento subjetivo".

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Outro ponto é a duração, observa: "Pensamos em resultados negativos de saúde quando os indivíduos têm uma duração prolongada dessa experiência", explica, e completa: 

"Nos idosos, existem fatores de risco relacionados à idade, como aposentadoria, morte de entes queridos ou lesões que diminuem a mobilidade. Problemas de saúde mental preexistentes e perdas sensoriais, como a audição, também são fatores." 

Como reconectar idosos isolados 

Em termos de estratégia, Cudjoe destaca que o problema deve ser tratado como questão de política social e diz que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já iniciou uma comissão sobre conexão social, assim como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) vem se debruçando sobre o assunto. "Este é um tema fundamental no qual devemos pensar como clínicos e pesquisadores focados no envelhecimento."

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Ele diz também que as estratégias devem ter princípio educativo, abordando o impacto da conexão social na saúde e oferecendo ferramentas para entender os riscos, assim como oferecer espaços para que os idosos possam ter conversas qualitativas em grupo.

"É claro que existem aspectos que os indivíduos podem considerar, mas penso que esta é uma questão em que as comunidades em geral precisam de se unir para pensar em como as pessoas podem estar conectadas socialmente de forma significativa."

Nesse sentido, ele citou também um projeto no qual idosos tutoram crianças na leitura, trazendo benefícios acadêmicos para os jovens e cognitivos para os idosos.

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Já para tratar a solidão, ele sugere estratégias que focam em aconselhamento e no tratamento de cognições sociais desadaptativas. "Podemos pensar em intervenções diretas, com apoio social, ou indiretas, como tratar uma questão de saúde, como deficiência auditiva ou de mobilidade, e facilitar a conexão social". e conclui:

De acordo com a Constituição da OMS de 1946, a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doença ou enfermidade. Destaco o ‘social’ porque muitas vezes o esquecemos. Isolamento social não é o mesmo que solidão; mas ambos são comuns e têm implicações sérias."

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