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Comer ou contar macros? Nutricionismo pode afetar o envelhecimento

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Nutricionismo é o uso errado ou a supervalorização excessiva de nutrientes em detrimento da comida básica e de forma natural - Freepik
Nutricionismo é o uso errado ou a supervalorização excessiva de nutrientes em detrimento da comida básica e de forma natural
Por Emanuele Almeida

25/04/2026 | 16h00

São Paulo - Algum dia você já se pegou pensando que aquele frango grelhado era a sua "proteína do dia"? Ou se aquela batata era o "carboidrato do almoço"? Se sim, você faz parte de um grupo que se preocupa com a alimentação, porém, se esse tipo de controle alimentar invade todas as refeições a todo momento, é preciso atenção

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Esse tipo de controle obsessivo pelo tipo nutricional de cada alimento - contar  macros - reduz o alimento apenas à sua composição molecular e transforma a alimentação em algo cada vez menos prazeroso também podendo ser chamado de "nutricionismo."

O que é nutricionismo?

A nutricionista e especialista em gerontologia, Simone Fiebrantz explica que o nutricionismo é o uso errado ou a supervalorização excessiva de nutrientes em detrimento da comida básica e de forma natural.

Na prática, as pessoas deixam de enxergar o alimento em si e passam a vê-lo apenas pelas suas frações, dizendo que estão 'comendo proteína' em vez de carne ou ovo, e 'comendo vitamina C' em vez de laranja."

Ela destaca ainda que as redes sociais influenciam esse tipo de comportamento, principalmente ao fornecer acesso rápido à informações erradas sobre nutrição. "Isso gera confusão e leva o público a cometer exageros, adotando restrições muito severas ou incluindo alimentos que não são adequados para o seu perfil ou faixa etária", adiciona. 

A também nutricionista e membro do Departamento de Nutrição da Associação para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Heloísa Theodoro, corrobora com o papel ainda negativo das redes sociais na divulgação de informações erradas sobre dietas e cortes de alimentos.

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Para ela, o impacto mais perigoso das redes sociais é criar medo de alimentos essenciais através de interpretações distorcidas, também chamado de "terrorismo nutricional". O pior exemplo citado pela nutricionista é o de pessoas que pararam de comer frutas porque viram em alguma mídia social que elas têm açúcar, ignorando completamente que esse açúcar natural (frutose) está associado a fibras, vitaminas e minerais vitais. 

Consequências no envelhecimento 

As especialistas explicam que o envelhecimento é um processo contínuo e as restrições severas feitas ainda na juventude ou na vida adulta para seguir modismos nutricionais podem gerar deficiências que cobrarão seu preço na saúde no futuro.

Se eu acabo me restringindo durante o meu processo de envelhecimento, na vida adulta ou na adolescência, fazendo algumas restrições, eu posso sim ficar com uma deficiência de alguns nutrientes."

Simone Fiebrantz, nutricionista e especialista em gerontologia

Heloísa Theodoro destaca ainda o perigo do "terrorismo nutricional" em mulheres que estão iniciando ou já estão na menopausa. "O maior impacto no processo de envelhecimento dessas mulheres ocorre quando elas deixam de tomar leite por acreditarem que é inflamatório. Muitas chegam aqui no meu consultório dizendo que há anos não consomem leite", conta. 

Ela reforça que esse tipo de corte sem acompanhamento profissional, substituição adequada de cálcio e associado à falta de exercício pode causar um prejuízo severo na construção da massa óssea e muscular essenciais para o envelhecimento. 

Leia também: Mulheres precisam de mais proteína na menopausa? Entenda

Para os idosos

Para a população idosa, o nutricionismo — muitas vezes aplicado pela própria família com base em informações erradas da internet, segundo as especialistas — traz riscos que aceleram o declínio da saúde. 

Homem idoso segura prato de comida recheado de legumes e uma pessoa o serve com pedaço de frango
A perda de massa muscular é comum no envelhecimento. Para evitar uma perda grande, é preciso de consumo de proteína adequeado. Foto: Adobe Stock

Simone Fiebrantz aponta que o envelhecimento traz consigo algumas situações específicas, como a  tendência a diminuir massa muscular. "Então, teoricamente, a pessoa precisa realmente consumir mais proteína do que um adulto", adiciona.

Contudo, é nesse cenário que pode acontecer a autossuplementação em idosos, levando em conta que o alimento por si só não conseguirá suprir os níveis necessários de nutrientes que aquela pessoa precisa. 

A nutricionista especialista em gerontologia conta que já viu casos do uso sem supervisão de suplementos feitos à base de proteína do leite isolada. "Muitas vezes o idoso toma porque a família vê que ele está com risco de queda ou não está se alimentando bem, mas a partir do suplementação não supervisionada, ele vai continuar sem se alimentar direito porque esse tipo de produto traz uma saciedade precoce."

As consequências para esse tipo de pode ainda reduzir os níveis de nutrição da pessoa idosa. "O idoso já naturalmente tem o esvaziamento gástrico mais lento. Sendo assim, se eu dou uma carga maior de proteína, na próxima refeição ele não vai comer. Isso gera risco de desnutrição, maior fragilidade, e maior redução da massa muscular (sarcopenia)", elenca a especialista. 

Ela ainda acrescenta que consumir uma carga proteica excessiva, focando apenas nesse macronutriente, faz com que o organismo da pessoa idosa elimine mais cálcio, o que pode agravar quadros de osteopenia e osteoporose, além de prejudicar a função renal. 

Na fase mais avançada do envelhecimento, quando o idoso passa a ter dificuldade para digerir carnes inteiras, a solução, segundo Fiebrantz, não deve ser cortar o alimento da dieta, mas sim adaptar a sua textura, oferecendo carne moída ou frango desfiado, por exemplo, para manter o aporte nutricional através da comida.

É preciso lembrar que a alimentação é mais do que o nutriente. É cultura e lazer, principalmente no processo de envelhecimento em que essa ação é um dos maiores prazeres."

Heloísa Theodoro, nutricionista membro da Abeso

Além da nutrição do corpo

O nutricionismo afeta profundamente a forma como as pessoas interagem, transformando a alimentação, que deveria ser um ato de união, cultura e prazer,  em uma fonte de ansiedade e afastamento. As principais consequências sociais destacadas pelas especialistas incluem:

Isolamento social e restrição de convívio:

A obsessão em seguir regras alimentares rígidas e focar apenas nos nutrientes faz com que a pessoa comece a limitar seus espaços sociais. Pelo medo de não saber o que será servido ou de sair da sua dieta, o indivíduo passa a evitar festas, idas a restaurantes com amigos e até mesmo visitas à casa de familiare. Essa neurose afeta e prejudica diretamente as relações familiares e os laços de amizade. 

prato de comida com arroz, fejião, filé de frango, batatas fritas e salada
Especialistas reforçam a importância de ver o alimento como parte da cultura e prazer da vida. Envato


Destruição da memória afetiva e cultural

O nutricionismo ignora o princípio de que o alimento possui uma forte representação social e cultural, indo muito além de um mero nutriente. A visão extremista faz com que as pessoas deixem de apreciar pratos tradicionais, passando a questionar obsessivamente as calorias ou os ingredientes de uma "macarronada de domingo" ou da "maionese da avó". Isso destrói a memória afetiva da comida e tira o foco do ato de cozinhar em conjunto e dividir receitas. 

Leia também: Siga 10 passos simples para manter uma alimentação saudável no dia a dia

Culpa limitante em momentos de lazer

Experiências de descontração e convívio, como viagens em família, passam a ser pautadas pela vigilância e pela culpa. Em vez de aproveitar o momento social, as pessoas ficam presas à contagem de calorias e macros, esquecendo-se de que a alimentação em passeios "preenche a alma" e deve ser vivida sem punições.

Saúde mental

A obsessão pela alimentação excessivamente saudável, pela contagem de macros e pelo hábito de pesar a comida para saber a quantidade exata de calorias e nutrientes pode funcionar como um gatilho para transtornos alimentares. Quando a preocupação sai do controle, esse distúrbio passa a exigir intervenção e acompanhamento de psicólogos e psiquiatras. 

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