Mesmo com queda nos casos, hanseníase persiste e afeta mais negros
Gutember Brito/Instituto Oswaldo Cruz
30/01/2026 | 11h15 ● Atualizado | 11h16
São Paulo, 30/01/2026 - O Ministério da Saúde divulgou um novo Boletim Epidemiológico Especial de Hanseníase na quinta-feira, 29, apresentando um panorama da doença no Brasil entre os anos de 2015 e 2024. O documento aponta que somente em 2024 foram notificados 22.129 casos novos de hanseníase no País, uma leve queda comparado a 2023, de 2,83% (eram 22.773 novos casos), mas ainda preocupa.
Eem 2024, a taxa de detecção registrada foi de 10,41 casos por 100 mil habitantes, um índice classificado como alto e prioritário para a atuação dos serviços de saúde. Ao longo do período analisado (2015 a 2024), o Brasil notificou um total de 301.475 casos, sendo que 79% destes foram classificados como novos.
Houve um aumento expressivo de diagnósticos entre 2022 e 2023, seguido por uma leve redução em 2024. A queda mais acentuada foi observada durante a pandemia de covid-19, especialmente em 2020, quando foram registrados 17.979 casos.
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O governo alerta que a hanseníase continua sendo um importante desafio à saúde pública, mantendo uma transmissão ativa em diversas regiões.
Desigualdades regionais e de raça
A análise geográfica revela que as regiões Norte e Centro-Oeste mantiveram as maiores taxas de detecção ao longo da série histórica. Em 2024, os estados de Mato Grosso e Tocantins apresentaram os índices mais elevados do país, com 121,83 casos por 100 mil habitantes e 57,76 casos por 100 mil habitantes, respectivamente.
O Ministério da Saúde reforça que carga da doença continua desproporcionalmente concentrada na população negra (pretos e pardos), que representa mais de 70% dos diagnósticos ao longo de toda a série histórica analisada, evidenciando as diferenças sociais e étnico-raciais associadas à hanseníase.
Segundo o boletim atual, 72% dos casos novos registrados em 2024 ocorreram entre pessoas autodeclaradas pretas ou pardas, um total de 15.885 ocorrências. A incidência em 2023 foi de 16.392 casos.
A incidência de novos casos também é concentrada em pessoas com menor escolaridade. Isso porque, o perfil dos novos casos de hanseníase manteve-se predominantemente concentrado no ensino fundamental, que representou 41,0% dos diagnósticos em 2024, patamar muito próximo ao de 2023 (41,3%). Enquanto a proporção de analfabetos permaneceu estável em 6,7% nos dois anos.
Transmissão preocupa
Um indicador que preocupa as autoridades é a persistência da transmissão da doença entre crianças e adolescentes. Em 2024, menores de 15 anos representaram 4,1% dos diagnósticos, número que representa uma queda, caindo de 958 casos em 2023 para 921 em 2024. Contudo, a manutenção dessa taxa revela que a cadeia de transmissão permanece ativa na comunidade, uma vez que o diagnóstico nesta faixa etária é o principal indicador de circulação recente da doença, fator que exige que as autoridades de saúde mantenham a vigilância contínua para interromper o ciclo de contágio.
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Outro ponto de atenção trazido pelo balanço é o diagnóstico tardio. Em 2024, 11,5% dos casos novos já apresentavam grau 2 de incapacidade física, com deformidades visíveis ou danos severos no momento em que a doença foi identificada, um índice superior aos 11,2% registrados em 2023. Esse aumento percentual segue uma tendência de crescimento observada ao longo da última década.
Para a diretora do Departamento de Doenças Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), Marília Santini, em comunicado, o cenário exige um esforço conjunto.
"O enfrentamento da hanseníase requer ações integradas, que envolvam diagnóstico precoce, tratamento oportuno, vigilância de contatos, prevenção de incapacidades físicas e combate ao estigma e à discriminação", afirma a diretora.
O que é hanseníase?
A hanseníase é uma doença causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que atinge a pele e os nervos periféricos. Também conhecida como lepra, a doença pode causar deficiências se não for tratada ou tratada tardiamente.
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Os sintomas mais frequentes são:
- Manchas (brancas, avermelhadas, acastanhadas ou amarronzadas);
- Áreas da pele com alteração da sensibilidade térmica (ao calor e frio);
- Comprometimento dos nervos periféricos, aquelas partes do sistema nervoso que estão fora do sistema nervoso central, ou seja, fora do cérebro e da medula espinhal, associado a alterações sensitivas, motoras e autonômicas;
- Áreas com diminuição dos pelos e do suor;
- Sensação de formigamento ou fisgadas, principalmente nas mãos e nos pés;
- Diminuição ou ausência da sensibilidade e da força muscular na face, nas mãos e nos pés;
- Caroços (nódulos) no corpo, em alguns casos avermelhados e dolorosos.
A transmissão ocorre pelo ar, através da fala, tosse ou espirro, assim como por meio do contato próximo e prolongado com pessoas doentes que ainda não iniciaram o tratamento. Mas vale reforçar: a hanseníase não é transmitida por abraços ou pelo compartilhamento de objetos como pratos, talheres e roupas de cama.
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