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Calor extremo e menopausa: médicos alertam para riscos silenciosos

Pexels/Ligia Camargo

Infarto, AVC, inchaço e trombose estão entre as doenças agravadas pelo calor intenso - Pexels/Ligia Camargo
Infarto, AVC, inchaço e trombose estão entre as doenças agravadas pelo calor intenso
Por Bianca Bibiano

03/02/2026 | 09h14

São Paulo, 03/02/2026 - Na segunda-feira, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta vermelho para uma onda de calor que deve atingir diversos municípios dos estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná a partir de hoje. Segundo o alerta, as temperaturas podem ficar até cinco graus acima do esperado para esta época do ano, o que expõe a população, especialmente pessoas 50+, a riscos de saúde.

Diante dos riscos, a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) lançou alerta informando que ondas de calor como essa ampliam os efeitos das alterações hormonais típicas da menopausa e aumentam a exposição das mulheres a complicações vasculares durante o verão.

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Nesse cenário, episódios de vasodilatação intensa, desidratação e oscilações da pressão arterial tornam-se mais frequentes e, muitas vezes, passam despercebidos. Enquanto isso, sintomas como inchaço, cansaço nas pernas, queimação ou cãibras tendem a se intensificar e costumam ser interpretados como reações normais da estação, o que pode atrasar o diagnóstico de problemas circulatórios.

A interação entre deficiência estrogênica e estresse térmico torna as mulheres menopausadas particularmente vulneráveis a complicações cardiovasculares silenciosas, reforçando a necessidade de avaliação individualizada e estratégias preventivas, como controle rigoroso dos fatores de risco e orientação sobre hidratação e exposição ao calor", explica o médico Edwaldo Joviliano, presidente da SBACV Nacional.

O especialista acrescenta que os impactos da menopausa também se refletem no bem-estar emocional e social. Ele cita estudo publicado no periódico Menopause Experience & Attitudes 2025, realizado em seis países (Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, Estados Unidos e México), que aponta as brasileiras entre as mulheres que mais sofrem com os efeitos do período, com relatos frequentes de ansiedade, depressão e prejuízos à vida profissional.

"Devido à queda na produção de estrogênio para as mulheres nessa fase da vida, o hormônio que exerce papel protetor sobre o sistema vascular, associado ao calor intenso, cria um cenário favorável ao surgimento de infarto, AVC e trombose venosa", diz o comunicado da sociedade médica.

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Veias dilatadas, pernas inchadas e risco de trombose

O sistema venoso está entre os mais impactados pelo calor. As temperaturas elevadas provocam vasodilatação periférica, principalmente nas veias superficiais dos membros inferiores. Em mulheres na pós-menopausa, que frequentemente já apresentam algum grau de insuficiência venosa crônica, isso costuma se manifestar por pernas inchadas, sensação de peso, queimação e dor ao final do dia.

De acordo com o cirurgião vascular Vinícius Bertoldi, diretor da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, Regional São Paulo (SBACV-SP), as altas temperaturas provocam a dilatação dos vasos sanguíneos, o que dificulta o retorno do sangue das pernas para o coração, favorecendo o aumento de volume e a sensação de peso, especialmente ao final do dia.

"O calor funciona como um verdadeiro teste de estresse para a circulação, tornando mais evidentes problemas que antes eram silenciosos."

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Entre os principais sinais de alerta estão o edema persistente nos tornozelos, marcas de meia que demoram a desaparecer, coceira, queimação, escurecimento da pele e piora progressiva dos sintomas ao longo do dia. Essas alterações, segundo o especialista, vão além da questão estética e podem indicar comprometimento progressivo e até mesmo uma doença venosa crônica.

Além do desconforto, o quadro pode evoluir. A combinação entre estase venosa e desidratação, comum nos dias quentes, aumenta a viscosidade do sangue e cria um ambiente favorável à trombose venosa profunda, sobretudo em mulheres com fatores de risco associados, como obesidade, sedentarismo, histórico familiar ou uso de terapia hormonal. Quadros mais avançados de doença venosa também tendem a piorar no verão, com maior incidência de dermatite de estase, alterações da pele e dificuldade de cicatrização de úlceras venosas.

A ingestão insuficiente de líquidos também tem seu papel, diz o médico, deixando o sangue mais concentrado e favorecendo a retenção de líquidos e aumento de cãibras. Além disso, hábitos comuns dessa época do ano, como permanecer longos períodos sentado ou em pé, consumir álcool em excesso, realizar viagens prolongadas e usar roupas muito apertadas, contribuem para o comprometimento do fluxo sanguíneo.

Artérias sob estresse

O calor extremo também impõe desafios ao sistema arterial, explicam os médicos. A perda de líquidos pelo suor pode provocar desidratação relativa e reduzir o volume intravascular, gerando instabilidade da pressão arterial.

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A SBACV Nacional destaca que mulheres menopausadas com aterosclerose subclínica ou já estabelecida, esse cenário pode precipitar hipoperfusão dos membros inferiores. Na prática, sintomas como dor em panturrilhas ao caminhar, redução da tolerância ao esforço ou até dor em repouso podem surgir ou se intensificar durante o verão. 

Inchaço persistente

Embora a menopausa não seja considerada causa direta de linfedema primário, o calor favorece o aumento da permeabilidade capilar e o extravasamento de líquidos para os tecidos, diz a SBACV Nacional.

Como consequência, ocorre piora do retorno linfático e surgimento de edemas mais intensos. Na rotina dos consultórios, isso costuma se manifestar como edema misto, de origem venosa e linfática, particularmente frequente em mulheres com insuficiência venosa crônica, lipedema ou obesidade.

Pessoas com varizes, histórico de trombose, gestantes, idosos, pessoas com obesidade e aquelas que passam longos períodos na mesma posição devem ter atenção redobrada. "Quando o inchaço melhora ao elevar as pernas, mas retorna diariamente, é importante investigar. O diagnóstico precoce ajuda a prevenir complicações futuras", conclui o médico Vinícius Bertoldi.

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Prevenção 

Os especialistas em angiologia e cirurgia vascular reforçam que o calor não cria a doença circulatória, mas atua como um potente amplificador de alterações já existentes. Ao perceber algum sintoma, a recomendação é buscar orientação médica antes de recorrer à automedicação ou a soluções caseiras.

Embora possam trazer alívio pontual, essas práticas não abordam a origem do problema e podem retardar a avaliação correta, alerta a nota da SBACV Nacional, que conclui:

"Na saúde vascular, o recado é que pernas inchadas de forma anormal, dor ao caminhar ou feridas que não cicatrizam não fazem parte do envelhecimento normal. Reconhecer a interação entre menopausa e calor extremo permite diagnóstico mais precoce, prevenção de complicações e uma abordagem integrada da saúde circulatória da mulher." 

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