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Câncer de ovário é silencioso e gera alerta de cuidados para mulheres 40+

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Não existe exame que detecta precocemente o câncer de ovário, o que eleva os riscos da doença, especialmente na fase da menopausa - Envato Elements
Não existe exame que detecta precocemente o câncer de ovário, o que eleva os riscos da doença, especialmente na fase da menopausa
Por Bianca Bibiano

08/05/2026 | 12h10 ● Atualizado | 12h11

São Paulo - Quando percebeu que sua barriga estava constantemente inchada, a relações-públicas Paola Penina pensou ser um problema com a alimentação ou o estresse da rotina intensa que levava.

Aos 40 anos, conciliando carreira, maternidade e vida familiar, ela minimizou os sintomas por meses. "Eu estava num ritmo frenético de trabalho, como muitas mulheres estão todos os dias. Além de profissional, mãe, esposa, enfim, várias questões. E eu não estava me olhando, me percebendo", relata.

A gente não tem tempo para a gente. O corpo dando sinais, eu empurrando. A barriga foi crescendo, e eu achando que era alguma intolerância ao glúten, à lactose. Fui à nutricionista, fiz uma dieta específica, a barriga não diminuía."
Foto de acervo pessoal de Paola Penina
Paola Penina, atuamente com 49 anos, descobriu o câncer de ovário aos 40 - Acervo Pessoal/Beatriz Lara

Ela conta que sentiu outras mudanças gastrointestinais, mas que ignorou no início, como prisão de ventre e diarreia. Depois, vieram as dores pélvicas. O que parecia um desconforto gastrointestinal acabou se revelando um câncer de ovário já em estágio avançado.

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Hoje, perto de completar 50 anos, Paola convive com a doença em tratamento contínuo e decidiu transformar a própria experiência em alerta para outras mulheres neste Dia Mundial do Câncer de Ovário, celebrado em 8 de maio.

"A gente tem que falar sobre câncer de ovário. É um câncer subestimado, mas é letal e silencioso".

O que é o câncer de ovário?

Considerado um dos cânceres ginecológicos mais silenciosos, essa doença costuma apresentar sintomas vagos, muitas vezes confundidos com problemas digestivos ou alterações hormonais, semelhantes aos descritos por Paola. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar mais de 8.000 novos casos anuais da doença no triênio 2026-2028. A data comemorativa chama atenção justamente para os desafios de identificar a doença ainda no início. 

"O câncer de ovário é frequentemente chamado de 'assassino silencioso' porque seus sintomas são muito vagos. A grande diferença está na persistência. Se a mulher notar inchaço abdominal, dor pélvica ou rápida saciedade ao se alimentar quase todos os dias e por mais de duas semanas, ela deve investigar", afirma o médico oncoginecologista Rodolpho Truffa, do Grupo Santa Joana. Ele diz ainda que o diagnóstico precoce aumenta drasticamente as chances de sucesso no tratamento.

A doença pode ocorrer em diferentes fases da vida, sendo mais frequente em mulheres após a menopausa, especialmente a partir dos 50 anos. Dados do Observatório de Oncologia apontam que a faixa etária de 50 a 59 anos concentra 30,3% dos casos analisados, enquanto 47,5% das mulheres diagnosticadas tinham mais de 60 anos.

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Difícil diagnóstico

A dificuldade no diagnóstico precoce também está relacionada à ausência de um exame preventivo eficaz. O câncer de ovário ainda não tem um método de identificação precoce, diferentemente do câncer de mama, que pode ser descoberto pela a mamografia, ou de colo do útero, que pode ser evitado com meios de rastreamento como o papanicolau ou o teste molecular de DNA-HPV, que chegou ao Sistema Único de Saúde (SUS) em 2025.

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A professora Daiana Zupirolli, do curso de Medicina do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (Ceunsp), explica que o rastreamento não é recomendado pelas principais referências utilizadas no Brasil e que exames como ultrassonografia transvaginal e o marcador sanguíneo CA-125 apresentam limitações para o câncer de ovário

"Esses exames podem indicar alterações mesmo em condições benignas, como cistos ovarianos ou endometriose, além de não identificarem, em alguns casos, tumores em estágio inicial", destaca a especialista.

Na prática, isso gera muitos falsos positivos, que levam à ansiedade, repetição de exames e até cirurgias desnecessárias, sem impacto real na redução de mortes."

Barriga inchada é sinal de alerta

Zupirolli explica que o ideial é manter as consultas médicas em dia e atentar para os sintomas iniciais, que podem incluir distensão abdominal (barriga inchada), dor pélvica, alterações urinárias ou intestinais e perda de peso sem causa aparente. "É importante observar a frequência e a persistência desses sinais, principalmente após a menopausa", orienta.

Mesmo sem um exame preventivo específico, o acompanhamento ginecológico regular é fundamental. As consultas permitem identificar sinais suspeitos, revisar o histórico familiar e definir quando investigar. O mais importante hoje é não ignorar sintomas persistentes e manter o cuidado contínuo com a saúde".

Além desses sintomas descritos, Paola lembra de sentir desconforto ao se alimentar. "Você come pouco e se sente satisfeita logo, não consegue comer muito", e diz que demorou a buscar ajuda direcionada.

"Se eu soubesse que esses sintomas que eu tive poderiam ser evidências de um câncer de ovário, eu teria procurado ajuda logo", pondera.

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Foto de acervo pessoal de Paola Penina
Paola passou a usar práticas integrativas para amenizar os efeitos adversos das terapias convencionais - Acervo Pessoal/Taine Cardoso

No caso dela, o alerta para buscar ajuda veio durante uma sessão de acupuntura. "A acupunturista falou: ‘Tem alguma coisa muito errada com o seu corpo, as agulhas não entram. Vá ao médico urgente’", relembra. Paola procurou um gastroenterologista e após análise, recebeu o diagnóstico de câncer de ovário metastático.

Além dos sintomas persistentes, especialistas alertam para fatores de risco como idade, obesidade, endometriose e histórico familiar de câncer de mama, ovário ou colorretal. Mutações genéticas nos genes BRCA1 e BRCA2 também elevam significativamente o risco ao longo da vida, mas devem ser analisadas com cuidado por especialistas.

"A consulta anual não serve apenas para exames preventivos de rotina, mas para que o médico conecte os sintomas relatados pela paciente com seu histórico familiar", reforça Rodolpho Truffa.

Conhecer o próprio corpo e não normalizar desconfortos abdominais crônicos é o primeiro passo para um desfecho positivo."

Como é o tratamento

O tratamento de câncer de ovário varia conforme o tipo e estágio do tumor, podendo incluir cirurgia para remoção ou quimioterapia, antes ou após o procedimento, com o objetivo de reduzir o tamanho da lesão. 

No caso de Paola, após a confirmação, a primeira opção foi a cirurgia, que revelou um cenário mais grave do que o esperado. Desde então, ela passou por mais procedimentos e quimioterapia, com duas recidivas da doença em 2022 e 2024.

Atualmente realiza terapia-alvo, uma das mais avançadas nesse campo, porque atua sobre mutações genéticas específicas do tumor de cada paciente.

A cobertura pelo plano de saúde, porém, só veio após judicialização do caso, devido aos altos custos e dificuldade de aprovação. "É um avanço do tratamento do câncer que está segurando, digamos assim, mantendo a doença sob controle", explica.

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Ao longo dos anos, ela também passou a incorporar práticas integrativas na rotina de tratamento para amenizar dores, ansiedade e fadiga causadas pelas terapias convencionais. Além da acupuntura, recorreu à fisioterapia, reiki, osteopatia e contato frequente com a natureza.

Segundo ela, os cuidados complementares ajudam a enfrentar os efeitos colaterais do tratamento oncológico e melhorar a qualidade de vida. "Sem as minhas práticas integrativas, acho que eu não teria aguentado tanto assim", finaliza. 

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