São Paulo, 28/12/2025 - A proximidade de um novo ano aguça as expectativas de um 'recomeço' com rotina mais saudável. Não à toa, perder peso costuma ser uma das promessas mais populares de Réveillon. É também nessa fase que surgem dietas restritivas e muitas vezes tidas como 'milagrosas', que envolvem desde jejuns intermitentes até cortar um determinado alimento da rotina com a promessa de desintoxicar.
De acordo com a Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), a crescente popularização de dietas restritivas, motivadas por modismos alimentares e orientações não médicas, tem gerado alerta entre especialistas.
"A exclusão de determinados grupos alimentares, como leite e derivados, glúten, frutose ou alimentos ricos em histamina, sem avaliação clínica adequada, pode acarretar prejuízos à saúde e mascarar doenças mais graves", disse a organização em nota.
Ainda segundo a FBG, embora muitas dessas dietas estejam associadas a quadros clínicos reais como
intolerância à lactose, doença celíaca ou
síndrome do intestino irritável, os profissionais ressaltam que a retirada preventiva ou por autodiagnóstico de determinados alimentos deve ser evitada.
“Quando a pessoa adota uma dieta restritiva por conta própria, sem orientação médica, corre o risco de camuflar sintomas importantes e dificultar o diagnóstico correto de condições gastrointestinais ou autoimunes”, afirma Frederico Marinho, membro titular da FBG.
Dieta restritiva no pós-ceia é armadilha
Segundo o nutricionista Bruno Costa, especialista em emagrecimento e nutrição esportiva, a principal armadilha do pós-ceia é tentar compensar tudo de uma vez só. "Jejuns longos, dietas radicais, uso de laxantes ou treinos intensos, nada disso ajuda", observa o especialista.
O corpo entra em estresse. Quem tenta ‘pagar a conta’ do Natal com essas estratégias pode enfrentar cansaço, compulsão e até problemas intestinais. O exagero de um dia não se corrige com outro exagero."
O importante, diz o nutricionista, é buscar equilíbrio e buscar estratégias realistas. Nesse sentido, ele oferece algumas orientações:
- Hidratação é o primeiro passo, por isso, invista em muita água e complemente com água de coco, isotônicos ou chás leves no decorrer do dia.
- Nada de cortar tudo: retome a alimentação normal, com refeições leves e balanceadas.
- Aposte em alimentos ricos em água e fibras: melancia, abacaxi, pepino, folhas verdes, peixes e temperos como cúrcuma e gengibre ajudam na digestão e combatem a retenção de líquidos.
- Evite álcool e ultraprocessados por pelo menos 24 horas após a ceia e volte à alimentação habitual sem restrições radicais nos dias seguintes.
- Retome as atividades físicas com uma caminhada leve de 20 a 30 minutos.
- “Detox real não vem de sucos mágicos", reforça Bruno Costa, explicando que o detox acontece quando o fígado, os rins e o intestino funcionam bem. "E isso se consegue com comida de verdade, hidratação e sono de qualidade", completa.
O glúten como 'vilão'
No caso do glúten, os especialistas explicam que a doença celíaca é uma condição autoimune séria que exige a exclusão total do glúten da dieta. Contudo, há também a sensibilidade ao glúten não celíaca, que pode apresentar sintomas semelhantes, mas não é uma doença autoimune e sua abordagem pode ser diferente.
Estudos indicam que a prevalência de doença celíaca na população brasileira é de cerca de 1% (similar à média global), enquanto a sensibilidade ao glúten não celíaca pode afetar cerca de 5% da população. Fora dessas condições, o consumo é liberado em moderação.
No entanto, segundo a FBG, seja pelo autodiagnóstico ou por conteúdos disseminados nas redes sociais, o fato é que a tendência de dietas restritivas e o aumento da conscientização sobre intolerâncias alimentares se refletem no mercado.
"O mercado brasileiro de alimentos e bebidas sem glúten tem apresentado um crescimento robusto, com projeções de taxas de crescimento anual compostas que variam, mas chegam a mais de 10% em alguns estudos até 2030, impulsionado pela maior demanda dos consumidores por opções alimentares adaptadas às suas necessidades e pela percepção de produtos sem glúten como mais saudáveis", diz a federação em nota.
A categoria de produtos de panificação, por exemplo, é um dos maiores e mais dinâmicos segmentos dentro desse mercado. O alerta dos especialistas, no entanto, não é sobre o consumo desses produtos em si, mas sobre o risco de adoção indiscriminada de dietas sem acompanhamento profissional.
“Dietas específicas podem ser benéficas quando bem indicadas. O problema está na generalização e na ausência de critério técnico”, complementa Frederico Marinho.
Redes sociais também impactam dieta
De acordo com Edson Ramuth, médico e fundador do Emagrecentro, para além do glúten, as redes sociais têm impactado diretamente nas tendências alimentares. “A influência digital tem seu lado positivo, mas muitas práticas viralizadas não têm respaldo científico, muito menos acompanhamento médico, e podem gerar consequências metabólicas, hormonais e até emocionais”, afirma.
Ele diz que jejuns prolongados, detox restritivos ou combinações “milagrosas”, por exemplo, podem comprometer o organismo, e o problema se intensifica quando influenciadores compartilham cardápios elaborados para seu próprio corpo ou copiados de terceiros sem orientação técnica. “Dietas muito restritivas reduzem nutrientes essenciais, diminuem a massa magra e podem desencadear efeito rebote. O corpo passa a economizar energia, dificultando ainda mais a perda de peso saudável”, explica.
O mesmo vale para os chamados “hacks” de emagrecimento, que vão desde chá em jejum, água com limão e gelo no abdômen até métodos de "reset" de 21 dias.
"Muitos desses atalhos viralizam com promessas rápidas, mas não são seguros, e podem até gerar riscos reais. Não existe solução de 15 segundos. Reduzir medidas envolve consistência, alimentação adequada, atividade física, tratamentos estéticos e acompanhamento profissional. Sem isso, a pessoa apenas ‘tenta de tudo’ e não constrói resultados duradouros”, ressalta o médico.
Ele reforça que o emagrecimento saudável é totalmente possível, desde que o processo seja conduzido por profissionais capacitados. “Cada organismo reage de uma forma, e cada pessoa tem sua rotina, histórico e necessidades específicas. Uma avaliação completa orienta o caminho certo e garante segurança, eficiência e resultados consistentes”, conclui.