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Existe dose segura de álcool e drogas? Entenda riscos e a redução de danos

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Redução de danos não é oposta ao tratamento de dependência química - Pexels
Redução de danos não é oposta ao tratamento de dependência química
Por Bárbara Ferreira

15/08/2026 | 12h00

São Paulo - Não há uma quantidade de álcool ou drogas que possa ser considerada livre de riscos, segundo especialistas. Mesmo assim, a redução de danos atua com as pessoas que ainda não estão prontas ou dispostas a interromper o consumo, a fim de diminuir os impactos do uso de substâncias, sejam elas lícitas ou ilícitas.

Essa estratégia de cuidado é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde. A redução de danos busca oferecer informação, acolhimento e medidas para mitigar os impactos negativos durante o uso. 

A proposta é lidar com o consumo a partir da realidade de cada pessoa. Segundo Déborah Valadares, médica e coordenadora do Rensga!, grupo de redução de danos, em vez de exigir inicialmente a abstinência completa, a abordagem oferece condições para que o indivíduo compreenda os riscos e faça escolhas que favoreçam seu próprio cuidado.

Para além das consequências físicas, a abordagem considera os impactos do consumo sobre a vida social e emocional. Déborah explica que o estigma associado ao uso de substâncias pode levar pessoas a se isolarem e negligenciarem o autocuidado. Por isso, a escuta é uma parte importante do trabalho.

Há situações em que o essencial para a pessoa é ser ouvida".

Existe dose segura de álcool e drogas?

A psicogeriatra Miriam Gorender, diretora secretária adjunta da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), afirma que não existe dose segura de álcool ou drogas para nenhuma idade.

Segundo ela, mesmo uma quantidade pequena pode causar danos e não há como garantir que determinada dose não produzirá efeitos negativos. A ideia de que é possível consumir uma quantidade segura seria uma falsa sensação de proteção. A questão é ainda mais latente em pessoas que já desenvolveram dependência. 

Uma das grandes fantasias do dependente é poder 'usar com segurança'. E isso não existe", afirma a psiquiatra.

Déborah explica que a redução de danos não parte da premissa de que o uso é seguro. A proposta é diminuir os prejuízos que podem ocorrer enquanto a pessoa ainda faz uso.

O que é redução de danos?

A redução de danos é uma abordagem de cuidado que oferece informações, orientação e estratégias para diminuir os riscos associados ao uso de substâncias psicoativas. Na prática, isso leva a ações diferentes dependendo da situação e da população atendida.

A medida pode ser simples como oferecer água, alimento e um espaço para descanso. Em outros contextos, podem ser disponibilizados preservativos, materiais de higiene ou outros insumos.

Em situações envolvendo drogas injetáveis, por exemplo, estratégias de redução de danos podem incluir a oferta de seringas descartáveis para evitar o compartilhamento de objetos e, consequentemente, reduzir o risco de transmissão de infecções.

A abordagem pode acontecer em diferentes espaços, como Centros de Atenção Psicossocial (Caps), serviços voltados à população em situação de rua e festas e festivais.

Redução de danos não é tratamento

Uma das principais controvérsias em torno da estratégia está justamente na diferença entre reduzir riscos e fazer tratamento. Miriam Gorender critica o que considera uma interpretação equivocada da prática, que não é uma substituta do tratamento para dependência.

Reduzir danos é ótimo, desde que você também ofereça tratamento", afirma a psiquiatra.

Já Déborah ressalta que a estratégia respeita a autonomia da pessoa e pode acompanhar diferentes momentos da relação com a substância. Para ela, reduzir o consumo também pode ser um passo importante para recuperar a qualidade de vida.

Muitas vezes a pessoa não vai conseguir cessar completamente o uso daquela substância. Mas ao reduzir ou encontrar outros hábitos que substituam o lugar que aquela substância ocupou na vida dela, consegue resgatar a autonomia", explica.

Assim, redução de danos e abstinência não precisam ser tratadas como conceitos excludentes. A pessoa pode receber cuidados para diminuir os riscos imediatamente e, ao mesmo tempo, ser acompanhada por médicos caso decida reduzir ou interromper o consumo.

Como funciona a redução de danos na prática?

No Rensga!, grupo do qual Déborah faz parte, uma equipe multiprofissional atua principalmente em festas e festivais. O trabalho inclui oferecer:

  • água e hidratação;
  • protetor solar;
  • protetor auricular;
  • produtos de higiene;
  • espaço para descanso;
  • acolhimento e escuta.
Grupo de redução de danos pode oferecer água, comida, escuta, preservativo e outros itens de segurança
Grupo de redução de danos pode oferecer água, comida, escuta, preservativo e outros itens de segurança - Divulgação / Rensga!

Nem toda situação de intoxicação exige medicação, explica Déborah. Em alguns casos, a principal necessidade é permitir que a pessoa permaneça em um ambiente seguro enquanto os efeitos da substância diminuem.

Há também situações em que a pessoa apresenta alterações psíquicas provocadas pelo uso da substância. Nesses casos, o acolhimento e a escuta podem ajudá-la a recuperar gradualmente suas condições para deixar o local e retomar suas atividades. "Permitir que ele se restaure", disse a médica.

Por que os riscos aumentam com a idade?

O envelhecimento acrescenta uma preocupação importante ao debate sobre álcool e drogas. Segundo Déborah, pessoas com 50 anos ou mais podem apresentar maior vulnerabilidade às consequências do consumo porque o próprio envelhecimento está associado ao surgimento de doenças e alterações no funcionamento do organismo.

Manter na velhice os mesmos padrões de consumo da juventude pode aumentar a gravidade de problemas de saúde já existentes ou favorecer o surgimento de novas complicações. Além disso, o uso de substâncias pode dificultar o controle de doenças comuns nessa faixa etária, como diabetes e hipertensão.

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