Saúde digital e eleições: veja análise de especialista sobre propostas
Segundo Chao Lung, da Faculdade de Medicina da USP, o tema deve ser prioridade, mas propostas carecem de clareza e simplificam a tecnologia
Por Emanuele Almeida
02/10/2026 | 15h05Adobe Stock
A saúde digital se transformou nos últimos anos e tornou-se peça chave na gestão pública de saúde no Brasil, mas há um descompasso entre as propostas dos candidatos à presidência e a realidade, tendo em vista que 56% das propostas apresentadas já são políticas existentes.
Especialista em telemedicina alerta que a saúde digital deve ser vista como uma inteligência de gestão, capaz de resolver os problemas do paciente e reduzir desperdícios significativos no sistema de saúde.
Para Chao Lung, da USP, as propostas dos candidatos falham em abordar a formação de profissionais para um sistema conectado e inovador. Ele sugere que o foco deve ser na organização do sistema existente, priorizando cuidado continuado e a criação de plataformas regionais para melhorar a eficiência do atendimento.
São Paulo - A saúde digital deixou de ser uma promessa futurista para se consolidar como a prioridade estratégica número um na gestão pública de saúde no Brasil. No entanto, a forma como o tema vem sendo abordado nos planos de governo dos candidatos à Presidência revela descompasso entre a retórica eleitoral e a realidade regulatória do País.
Um levantamento realizado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em parceria com a Umane, revela que 95% das propostas para a saúde apresentadas pelos presidenciáveis exigem recursos adicionais sem indicar as fontes de financiamento.
E, mais do que isso, 56% das propostas já correspondem a políticas ou programas existentes, apresentados pelos candidatos como se fossem novidades — a exemplo da utilização do CPF como identificador universal no Sistema Único de Saúde (SUS), medida que já está regulamentada desde 2025.
Diante desse cenário, a análise do chefe da Disciplina de Telemedicina da Faculdade de Medicina da USP, Chao Lung Wen, traz um alerta decisivo: a saúde digital não deve ser encarada como meros aplicativos de consulta ou promessas de campanha, mas como inteligência de gestão capaz de estancar o "vazamento" de até R$ 360 bilhões por ano do SUS, que envolve problemas como falhas operacionais e procedimentos desnecessários.
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O que é a saúde digital?
O professor explica que a saúde digital é um conceito amplo e integrador. Vai muito além da simples teleconsulta por vídeo, que representa apenas um dos diversos recursos assistenciais do conceito.
"Enquanto a telemedicina refere-se estritamente ao exercício médico por meios tecnológicos e a telesaúde abrange todas as profissões da área da saúde, a saúde digital engloba todo o ecossistema tecnológico, incluindo sensores, robótica, inteligência artificial e a interoperabilidade de dados clínicos", pontua.
Na visão do especialista, o verdadeiro propósito da saúde digital é atuar como inteligência de gestão e logística para o SUS, viabilizando o acompanhamento multiprofissional e continuado de pacientes crônicos, garantindo a portabilidade do histórico médico do cidadão por meio do CPF e expandindo o alcance e a eficiência do atendimento presencial.
Onde os candidatos acertam?
Apesar das sobreposições apontadas pelo IEPS, diversos pontos das plataformas digitais dos candidatos convergem com as necessidades reais do SUS e com as diretrizes defendidas por Chao:
Telediagnóstico e estruturação da atenção básica (Lula, Ronaldo Caiado e Augusto Cury)
A expansão da emissão remota de laudos, com o telediagnóstico para eletrocardiogramas, radiografias e biópsias, e a distribuição de kits de telessaúde para Unidades Básicas de Saúde (UBSs) encontram respaldo técnico, segundo Chao. Além disso, o telediagnóstico é apontado como uma ferramenta madura para acelerar exames e reduzir filas sem depender exclusivamente de consultas ao vivo.
Combate à exclusão digital por pontos assistidos (Augusto Cury):
As propostas de criação de pontos públicos de acesso digital assistido em UBSs e comunidades acompanham a tese de que não é preciso esperar que todo cidadão tenha um smartphone de última geração.
Apesar das propostas não desenharem de que forma os pontos assistidos seriam definidos e como operariam, o especialista da USP defende a criação de "estações de telessaúde" descentralizadas, sugerindo o uso de estruturas como as escolas públicas — das quais 97% já possuem conexão de internet — para oferecer atendimento remoto com suporte presencial.
Onde as propostas falham
Para o professor de telemecidina da USP, o debate eleitoral incorre em riscos severos ao simplificar o funcionamento da tecnologia na saúde pública ou ao tentar "reinventar a roda". Os principais pontos de divergência entre as propostas políticas e a análise técnica incluem:
Triagem automatizada por IA
Nessa temática, Augusto Cury propõe o uso de sistemas de inteligência artificial para realizar a coleta prévia de sintomas, classificação automática de risco e priorização dos casos mais graves no atendimento digital. Já Lula defende acelerar a utilização da inteligência artificial para realizar a triagem, regulação por risco clínico e ordenação da fila única digital para exames e consultas.
Renan Santos sugere substituir a fila cronológica tradicional por uma "fila viva" pautada pela Escala Nacional de Estratificação de Risco (ENER) — que avalia gravidade clínica, risco de progressão e vulnerabilidade —, integrada a triagens automáticas por IA.
As propostas que prometem entregar a triagem inicial e o reordenamento de filas exclusivamente a algoritmos de inteligência artificial são advertidas pelo professor. Chao alerta que a IA pode falhar ao interpretar sintomas graves por falta de contexto clínico do paciente, ao confudir uma insuficiência respiratória com um quadro leve, por exemplo.
Caso ocorra um óbito, a responsabilidade jurídica e médica torna-se um gargalo crítico. A IA pode ser usada para pré-coleta de dados e suporte operacional, mas a classificação de risco exige obrigatoriamente auditoria e supervisão médica."
Chao Lung Wen, professor da Fmusp
Teleconsulta por aplicativo (Flávio Bolsonaro, Renan Santos e Augusto Cury)
Grande parte dos candidatos reduz a saúde digital à oferta de consultas médicas por vídeo. A teleconsulta é apenas um dos diversos recursos assistenciais da telessaúde, que abrange desde o telemonitoramento e teletriagem, até a teleinterconsulta, telediagnóstico, entre outros.
"Atendimentos virtuais isolados não resolvem o problema do paciente se não estiverem inseridos em uma cadeia de cuidado contínuo e multiprofissional", avalia o professor da USP.
Falta de proposta sobre formação de profissionais
Em geral, os planos de governo dos candidatos à presidência não discutem a formação qualificada de profissionais para atuar em um sistema de saúde conectado e inovador, assim como também não levam em conta os profissionais já atuantes dentro do sistema.
Chao alerta para a necessidade de formação acadêmica obrigatória dos profissionais de saúde em ferramentas digitais e para a instituição de um sistema que garanta o controle de qualidade e segurança antes que os serviços sejam ofertados à população.
Qual seria a proposta ideal de saúde digital?
A partir do arcabouço legal já existente no Brasil — como a Lei 14.510/2022 de Telesaúde e a criação da Secretaria de Informação e Saúde Digital (Seidigi) no Ministério da Saúde em 2023 —, a proposta ideal para os próximos anos, para o especialista da USP, não exige criar novas leis, mas sim organizar o sistema com foco em resolutividade e cuidado continuado.
Um modelo ideal de saúde digital para o ciclo 2027–2030 deve se estruturar sobre quatro pilares de alto impacto:
- Cuidado continuado de doenças crônicas: a aplicação da telessaúde no acompanhamento multiprofissional, com médicos, nutricionistas, enfermeiros e educadores físicos, de pacientes hipertensos e diabéticos;
- Plataformas regionalizadas: em vez de grandes sistemas nacionais desconectados do território, a telessaúde deve ser organizada por "Áreas Regionais de Saúde", segundo Chao. Assim, em vez de tentar conectar os mais de 5.500 municípios do Brasil em uma única fila ou plataforma abstrata, o sistema é organizado em blocos territoriais de municípios vizinhos. O especialista cita como exemplo a região da Baixada Santista - local onde as cidades compartilham a mesma geografia, os mesmos problemas epidemiológicos e as mesmas vias de acesso;
- Coordenadoria Nacional de Telepreceptoria: Criação de um canal permanente de teleinterconsulta médica. Quando um médico recém-formado em uma UBS do interior enfrenta um caso complexo, ele aciona em tempo real uma central de especialistas para discutir o diagnóstico. Isso resolve o problema do paciente na ponta, capacita o profissional local e evita deslocamentos e internações desnecessárias;
- Ampliação virtual de leitos hospitalares: a telessaúde permite realizar avaliações clínicas pré-internação e acompanhamento pós-alta em domicílio. "Sabendo-se que cerca de 30% dos idosos são reinternados até 35 dias após a alta hospitalar por falta de orientação adequada em casa, o monitoramento remoto por parte do profissional pode reduzir essa taxa pela metade. Na prática, isso otimiza o uso da rede existente de tal forma que um hospital de 1.000 leitos passa a funcionar como se tivesse 1.150 leitos, sem que o Estado precise construir uma única parede", explica Chao.
- IA e estação presenciais de conectividade: incorporação da inteligência artificial estritamente para agendamentos operacionais e otimização de agendas sob auditoria humana, combinada à expansão de pontos públicos de telessaúde em escolas e postos de saúde para garantir inclusão digital real a idosos e populações vulneráveis, sem que eles precisem arcar necessariamente com um aparelho celular.
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