Favela Compassiva leva dignidade no fim da vida a moradores da Rocinha
Paula Bulka Durães/VIVA
Belém - Nas periferias cariocas, onde as ambulâncias não entram, são os próprios moradores que assumem a linha de frente do cuidado.
Apresentado no último dia do Congresso Norte/Nordeste de Geriatria e Gerontologia (CoNNeGG 2026), em Belém, o projeto de extensão universitária e ONG Favela Compassiva expõe as desigualdades no acesso à saúde pública no Brasil.
Liderada pelo professor e enfermeiro especialista em cuidados paliativos, Alexandre Silva, a iniciativa treina voluntários da Rocinha, no Rio de Janeiro, para prestar os primeiros socorros a vizinhos que experienciam sintomas extremos, como dores, degeneração cognitiva e restrições de mobilidade.
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A magnitude do desafio começa nos números: embora os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontem 72 mil habitantes na Rocinha até 2022, estatísticas locais calculam cerca de 228 mil pessoas, de acordo com Silva.
A discrepância gera uma sobrecarga na rede de Atenção Primária, estruturada para atender uma demanda menor. Nas incursões pelos becos, a equipe do projeto esbarra em cenários de abandono extremo e barreiras físicas.
O professor relata e compartilha imagens de uma paciente com esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa severa, confinada em uma casa com paredes cravadas de tiros de fuzil.
Outro idoso, após alta de um tratamento de câncer, foi encontrado com mordidas de ratos espalhadas pelo corpo e uma úlcera, tendo apenas restos de um copo de Guaravita como alimento.
Como carros não entram nos becos e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) frequentemente não acessa a comunidade por segurança, moradores improvisam a "rede-lança" - redes amarradas a pedaços de madeira - para carregar enfermos por quilômetros.
Para Silva, o termo vulnerabilidade não dá conta dessa realidade urbana. "Vulnerabilidade é risco. Esse povo não é vulnerável, ele é vulnerado. Ele não recebe o que tinha que receber de cuidado, de assistência", define.
É neste cenário que o projeto atua, levando conforto na fase final da vida. O professor é categórico ao desmistificar o cuidado como um rótulo para o paciente. "Não existe pessoa paliativa. Paliativo é o cuidado que eu faço com a pessoa".
Longe de ser um prolongamento artificial do sofrimento ou um eufemismo para eutanásia, o cuidado paliativo foca na ortotanásia: a morte no tempo certo e com qualidade de vida. Alexandre Silva alerta, inclusive, sobre o perigo de se discutir a legalização da eutanásia em um País desigual.
O Brasil não tem maturidade para isso nunca. Poderia virar uma condição higienista. Ia morrer bem por eutanásia quem tem dinheiro ou ia virar uma matança de negro, periférico, mulher e população LGBTQIA+, chamando de eutanásia."
O que são comunidades compassivas?
O projeto aplica o conceito de Comunidades Compassivas, idealizado em 1998 pelo sociólogo Allan Kellehear. Consiste em capacitar a própria vizinhança para cuidar dos seus no processo de adoecimento e finitude. Na Rocinha, mulheres voluntárias aprendem técnicas vitais, como higiene oral e troca de fraldas.
A ausência de uma rede de cuidados, no entanto, não é uma exclusividade das favelas. O professor traça um paralelo contundente com Copacabana, bairro que ostenta a maior concentração de pessoas idosas do País, mas que lidera os índices de pessoas encontradas mortas em estado de decomposição dentro de seus próprios apartamentos de luxo.
"Não é vulnerabilidade por dinheiro. É por solidão", ressalta Silva. De acordo com ele, a tentativa de inserir o modelo compassivo em condomínios de alto padrão costuma esbarrar no individualismo dos moradores.
Expansão para Belém
A escolha de Belém para sediar o debate foi estratégica, já que a capital paraense possui 54% de seu território classificado como aglomerados subnormais, favelas e palafitas, segundo o professor.
Para que a capital paraense estabeleça fortes comunidades compassivas, fundamentadas pela Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP), e que atendam às necessidades das áreas favelizadas e da população ribeirinha, é necessário, prioritariamente, entender que o cuidado não deve ser romantizado, defende Silva.
Compaixão não é ato de contemplar o outro, é fazer. É estar sujo, dar banho, boca suja limpa, troca fralda".
Para o pesquisador, a Favela Compassiva rejeita a postura de espectador diante da dor. "O mundo está lotado de simpatia. Nós precisamos caminhar para a empatia. Diante do sofrimento do outro, eu não me conforto, eu fico incomodado. A partir disso vem a compaixão", concluiu o professor.
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