Internações por endometriose no SUS crescem 162% em 5 anos; entenda razões
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São Paulo - O impacto da endometriose na saúde pública tem se tornado cada vez mais evidente. Dados exclusivos obtidos pelo VIVA via Ministério da Saúde apontam um aumento de quase três vezes nas internações por endometriose no Sistema Único de Saúde (SUS) de 2021 a 2025. Os registros saltaram de 8,4 mil para 22,2 mil hospitalizações, cerca de 162%.
Especialistas apontam que o crescimento expressivo nas hospitalizações é resultado de uma combinação de fatores positivos, com falhas ainda presentes no sistema público de saúde.
O maior crescimento anual de internações ocorreu de 2021 para 2022, com alta de 74,43%. O Ministério da Saúde aponta que uma das razões para isso é a melhoria nos registros de diagnósticos da endometriose, que é uma doença ginecológica inflamatória, crônica e progressiva.
A endometriose ocorre quando o tecido que reveste a parte interna do útero — o endométrio — cresce e se instala em outros órgãos da cavidade abdominal, como ovários, intestino e bexiga. Os sintomas intensos podem levar a casos de internação e de procedimentos cirúrgicos.
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Exames avançam, mas dor ainda é subestimada
Para especialistas, esse salto expressivo nas hospitalizações é resultado de uma combinação de fatores positivos, como o avanço tecnológico e o acesso à informação.
O chefe do Setor de Dor Pélvica Crônica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), Luciano Gibran, destaca a melhoria no reconhecimento das próprias mulheres sobre suas dores, aliado à identificação da condição por exames modernos através do ultrassom transvaginal com preparo intestinal e da ressonância magnética.
Antigamente, o diagnóstico costumava depender de cirurgias para visualizar as lesões, mas hoje é possível ver os focos de endometriose sem precisar abrir a barriga da mulher”, explica o médico.
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Além disso, a internet teve um papel fundamental, segundo ele. “Com o advento da internet, das redes sociais, as mulheres estão descobrindo, fazendo autodiagnóstico sobre endometriose, porque o próprio ginecologista dela fala que aquilo é normal. Então ela passou a fazer o diagnóstico sozinha da doença e começou a procurar especialistas e ajuda hospitalar quando necessário”, completa Gibran.
O lado negativo é a gravidade dos quadros que chegam aos hospitais. A médica obstetra especialista em endometriose, Ana Carolina Romanini, alerta que a dor feminina é subestimada historicamente. Isso faz com que o diagnóstico demore em média sete anos para ser concluído.
“Como a endometriose é uma doença progressiva, esse longo período de negligência permite que os focos cresçam silenciosamente”, explica. Dessa forma, quando a paciente finalmente é diagnosticada, a doença já atingiu um estágio avançado que exige internações e cirurgias de alta complexidade, em vez de poder ser controlada preventivamente.
Cirurgias recorrentes
Gibran acrescenta outro fator alarmante que infla as internações: o déficit de cirurgiões qualificados. A cirurgia de endometriose exige altíssima complexidade e, devido à falta de capacitação de muitos profissionais, há "uma quantidade exorbitante de cirurgias incompletas". Ao retirar apenas uma parte da doença, as lesões voltam a crescer, forçando as mulheres a passarem por três ou mais reoperações e internações.
Ele aponta que a causa dessas cirurgias incompletas é a falta de capacitação dos médicos.
O procedimento correto e definitivo para a retirada dos focos da doença é a videolaparoscopia (ou laparoscopia), o que exige do profissional uma especialização específica em endoscopia ginecológica – capacitação que ainda não é abrangente no sistema público de saúde, segundo o especialista.
Por ser uma operação que lida com severas distorções anatômicas e aderências que tiram os órgãos do lugar, a videolaparoscopia é um procedimento com alto índice de complicações, o que faz com que muitos médicos evitem realizá-lo por falta de preparo e treinamento adequado.
Esse cenário de escassez de profissionais capacitados se agrava de forma dramática pela falta de centros especializados para o tratamento no Brasil. Gibran ressalta que nem todos os hospitais do SUS possuem a estrutura e os equipamentos necessários para realizar cirurgias por videolaparoscopia.
Além disso, ele alerta que ter apenas um ou dois grandes hospitais de referência — como o Hospital das Clínicas, em São Paulo, ou outros centros localizados apenas em capitais — é insuficiente para absorver e resolver a alta demanda de um País que estima ter cerca de 7 milhões de mulheres sofrendo com a endometriose.
Hoje, a maioria dos centros de tratamento especializado para endometriose são localizados em hospitais universitários em capitais.
Endometriose também dói no bolso e pesa no sistema
Segundo os especialistas, os exames de ponta para identificar a endometriose – ultrassom transvaginal com preparo intestinal e ressonância magnética da pelve – são de acesso difícil e demorado no SUS, estendendo os períodos de dores intensas e demandando internações longas e cirurgias de emergência na rede pública. Esse atraso sistêmico acaba encarecendo todo o processo de saúde.
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O custo da doença também afeta gravemente o bolso das pacientes, evidenciando o quão cara a endometriose se torna quando não tratada precocemente.
A jornalista Mariana Spezia, 43, descobriu a doença perto dos 30 anos na saúde privada, quando os focos já haviam comprometido seu intestino.
Ela precisou passar por uma cirurgia complexa de 7 horas e meia, teve 15 centímetros do intestino retirados e ficou na UTI. Há cerca de 12 anos, ela desembolsou R$ 35 mil na rede particular apenas com honorários médicos, valor não coberto pelo plano de saúde. Mariana reflete sobre o peso financeiro do atraso:
Se nós tivéssemos um diagnóstico precoce, talvez ficasse mais barato tratar, principalmente para quem precisa do SUS nesse tratamento. Se eu tivesse descoberto com 20 anos a minha endometriose, a minha cirurgia teria sido muito mais simples".
Para pacientes mais jovens, como Julia Brito, 25, o custo foca na manutenção para barrar a doença. Julia sofria com dores severas desde os 14 anos, que eram tratadas com a prescrição comum de pílulas que mascaravam o problema.
Apenas em 2022 ela obteve o diagnóstico assertivo, também por meio do sistema privado de saúde.
Hoje, ela arca com gastos fixos mensais para custear os medicamentos (cerca de R$ 100) e consultas particulares para ter um atendimento mais adequado para o seu diagnóstico de endometriose profunda nos ligamentos uterossacros, que causa dores constantes nas pernas e lombar.
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O que o Ministério da Saúde diz
Sobre o expressivo aumento nas internações, o Ministério da Saúde justificou que esse fenômeno possui caráter multifatorial e não deve ser interpretado, isoladamente, como um aumento na incidência de novos casos da doença. Segundo a pasta, esse crescimento está atrelado principalmente à melhoria no registro dos diagnósticos realizados pelos profissionais de saúde e à maior conscientização da própria população sobre a endometriose.
O Ministério afirmou que o SUS oferece tratamento clínico e cirúrgico para a endometriose, com o uso contínuo de progestagênios isolados ou combinados com estrogênios. O órgão destacou a recente incorporação, neste ano de 2025, do DIU-LNG (dispositivo intrauterino liberador de levonorgestrel) e do desogestrel como novas opções terapêuticas gratuitas nas redes estaduais e municipais.
A pasta também reforçou que vem trabalhando para diminuir a demora nos diagnósticos e promover educação médica. Desde 2022, em parceria com a Beneficência Portuguesa de São Paulo, desenvolve um programa de aprimoramento que já capacitou profissionais da rede de Atenção Primária em todo o país para identificar e manejar a doença corretamente.
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