Muito além do tremor: qual é o principal sintoma de Parkinson?
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São Paulo - Quando se fala em Doença de Parkinson, a primeira imagem que vem à mente da maioria das pessoas é a de alguém com tremores nas mãos. No entanto, a Associação Brasil Parkinson (ABP) alerta que reduzir a doença ao tremor é ignorar sua complexidade clínica e o seu verdadeiro impacto no corpo.
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Na realidade, o sintoma mais característico e limitante do Parkinson é a lentidão. O neurologista do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Danilo Donizete explica que a doença compromete o movimento, tornando-o mais lento e rígido, uma condição medicamente chamada de bradicinesia.
Ele ressalta que "não necessariamente o tremor obrigatoriamente vai estar presente e de forma geral nem é o sintoma que mais incomoda os pacientes".
O neurocirurgião funcional e pesquisador da Unicamp, Marcelo Valadares reforça que a percepção de que Parkinson é sinônimo de tremer está errada. Segundo ele, o que ocorre é uma lentificação de movimentos que antes eram fluidos e ágeis, somada a uma rigidez muscular em que as mãos e as pernas parecem pesadas e duras para abrir e fechar.
O que a doença faz com o corpo e os primeiros sinais
A Doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa causada, principalmente, pela deficiência na produção de dopamina no cérebro. As estimativas apontam que um milhão de pessoas acima dos 60 anos terão diagnóstico da doença em 2046 e, até 2060, ultrapassar 1,2 milhão de casos.
No desenvolvimento da condição, a falta desse neurotransmissor afeta diretamente o controle motor. No entanto, muito antes de a lentidão motora, a rigidez e os possíveis tremores aparecerem, o corpo manifesta sinais silenciosos e precoces que frequentemente passam despercebidos.
Segundo os especialistas, anos antes das alterações de movimento, os pacientes podem apresentar sinais como:
- Distúrbios do sono;
- Depressão;
- Constipação intestinal;
- Perda do olfato.
Como o Parkinson se desenvolve?
O Parkinson é uma condição que afeta majoritariamente idosos — cerca de 90% dos pacientes têm 60 anos ou mais. Contudo, há uma minoria de casos, entre 5% e 10%, em que a doença se manifesta de forma precoce, atingindo pessoas na faixa dos 40 anos de idade ou até menos.
Sobre a origem da doença, Marcelo Tavares esclarece que o Parkinson não é primariamente genético, sendo assim, a doença não segue uma regra hereditária de pai para filho. Ele reforça que não indica que sequenciamento genético seja feito especificamente para indicar probabilidade de desenvolvimento da doença, tendo em vista que o resultado não confere uma certeza absoluta e pode gerar estresse e ansiedade.
“A gente não precisa fazer aconselhamento genético de família que tem uma pessoa com doença de Parkinson, porque a gente sabe que essa codificação nos genes nunca vai dizer, com certeza, se a pessoa vai ter ou não doença”, explica.
Parkinson não é uma sentença de vida díficil
Apesar do diagnóstico assustar, os especialistas são taxativos: o Parkinson não é uma sentença de incapacidade ou de morte. Com o diagnóstico adequado e o avanço da medicina, é perfeitamente possível viver com qualidade.
Nós temos que tirar da cabeça da sociedade de entender que uma pessoa vivendo com Parkinson, ele teria uma sentença de uma vida muito difícil. Não necessariamente. A gente pode aliviar isso, porque hoje há muitas ferramentas na medicina para isso.”
Danilo Donizete, neurologista do Oswaldo Cruz.
Nesse contexto, os especialistas afirmam que o aspecto emocional e o suporte humano fazem grande diferença na jornada de quem tem Parkinson. Segundo eles, manter o convívio social, as reuniões familiares e ter estímulos constantes ajuda na neuromodulação cerebral, permitindo que o paciente enfrente a doença de forma muito mais leve
Donizete destaca a importância de visitar o familiar, evitar o estigma, oferecer um "olhar humano" e valorizar os pontos positivos da pessoa, em vez de focar apenas em suas limitações. “O apoio da família conta como um dos pontos mais importantes para a adesão e o sucesso do tratamento”, conclui o especialista.
Tratamento aliado a exercício físico
O tratamento principal continua sendo a reposição de dopamina através do medicamento Levodopa, que inclusive está disponível na rede pública de saúde (SUS). Mas, além do foco na medicação e no acompanhamento multiprofissional, com fisioterapia, fonoaudiologia e psicologia.
A grande virada de chave para a qualidade de vida está no movimento, segundo os especialistas. Donizete pontua que a atividade física aeróbica e de resistência é fundamental, pois cria uma "reserva" no corpo e no cérebro, garantindo uma evolução clínica muito mais favorável, ajudando os pacientes a manterem a autonomia por muito mais tempo.
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Parkinson hoje e daqui alguns anos
O Brasil possui hoje cerca de 500 mil pessoas acima dos 60 anos convivendo com a doença, mas, com o envelhecimento e o aumento da longevidade da população, estima-se que esse número possa ultrapassar a casa do milhão em diagnósticos.
Esse aumento de casos devido ao envelhecimento populacional acende um alerta para o sistema de saúde público e privado, exigindo políticas estruturadas e acesso ao tratamento. A Associação Brasileira Parkinson observa que o sistema público precisa ser aprimorado para realizar o diagnóstico, principalmente na atenção primária.
A identificação dos sinais iniciais da doença ainda é um desafio, inclusive na atenção primária. Propomos a ampliação de programas de capacitação para profissionais de saúde, com foco em reconhecimento precoce e encaminhamento adequado, reduzindo o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo.”
Além disso, a ABP também pede o investimento no atendimento multidisciplinar na saúde pública, defendendo a incorporação estruturada de abordagens multiprofissionais no SUS, incluindo fisioterapia especializada, fonoaudiologia, terapia ocupacional e suporte psicológico, garantindo funcionalidade e qualidade de vida ao paciente.
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