Emilio Moriguchi
Colunista VIVA
26/06/2026 | 08h00
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Médico PhD e geriatra é fundador do Instituto Moriguchi, em Veranópolis (RS), a 'blue zone' brasileira. É professor de medicina na UFRGS e professor-visitante em Chiba e Keio (Japão).
Pílula da longevidade não existe nem suplemento; o segredo está nas relações
Envato
Veranópolis (RS) - “Doutor, quais são os suplementos que o senhor recomenda para envelhecer bem e ter uma longevidade feliz?” Essa é uma pergunta relativamente comum que recebo não somente no meu consultório, mas nos diálogos em círculos sociais e até na rua.
A verdade é que não há nenhum suplemento que possa melhorar o processo de envelhecimento, prevenir doenças ou que possa promover uma longevidade saudável.
Os estudos clínicos com embasamento científico rigoroso e as evidências científicas mostram que o uso indiscriminado de suplementos, sem uma indicação precisa de profissional de saúde, pode inclusive aumentar o risco de doenças cardiovasculares e até de câncer, levando até a uma morte mais precoce.
O que sabemos hoje, baseado em evidências de estudos sérios de pessoas envelhecendo em comunidades - como o "Desenvolvimento de Adultos" da Universidade de Harvard (EUA), com mais de 75 anos de seguimento; e o nosso Projeto Veranópolis, com mais de 30 anos de seguimento - é o fato de que a longevidade não se compra.
A longevidade feliz não está nos balcões de uma farmácia ou numa loja de suplementos, mas na vida simples com família e com amigos."
Quais os componentes da longevidade
Os dados mostram claramente que vale mais viver o dia-a-dia de uma forma simples. Dentre os componentes essenciais e mais importantes para uma longevidade saudável e feliz estão:
- rotina definida de repouso adequado
- horário para acordar e dormir
- refeições com familiares ou amigos
- alimentação natural, sem aditivos ou suplementos
- atividades frequentes com familiares ou amigos que nos motivem cada dia a nos levantarmos e 'fazer alguma coisa boa', sair com eles;
- poder dormir à noite com a consciência tranquila
- boa qualidade de sono.
Não há, até o momento, nenhuma pílula da longevidade! Os bons relacionamentos, as boas companhias e os momentos compartilhados junto com pessoas que nos amam são os fatores que realmente impactam de forma positiva em pessoas longevas e felizes de hoje.
Impacto negativo do tempo de tela
A grande preocupação que nos assola é essa revolução tecnológica da era digital que está afastando as pessoas, apesar de multiplicar as conexões. O tempo de tela está aumentando cada vez mais em detrimento do tempo face a face. Os estudos mostram que isso é ruim, piorando a saúde das pessoas quanto maior o tempo de tela, pois o ser humano necessita da proximidade concreta para poder sentir-se cuidado e feliz.
O Efeito Vila
A psicóloga canadense Susan Pinker (1957- ), pesquisadora na área do envelhecimento, acompanhou por anos alguns longevos dos vilarejos da ilha de Sardenha, na Itália, e escreveu o livro “The Village Effect – Why face-to-Face Contact Matters” (“O Efeito Vila – Porque o Contato Face-a-Face é Importante”). Neste livro em que ela descreve as características dos longevos felizes na ilha ao sul da Itália, Pinker descreve que o que leva as pessoas viverem mais e melhor é uma vida comunitária, de pessoas vivendo e convivendo juntas o dia a dia, em contato face a face, numa proximidade concreta.
No livro, ela escreve que “(...) relacionamentos próximos de amizade e de amor curam, ajudam as crianças a aprenderem o que é importante e faz as pessoas viverem mais e serem felizes (...).
As origens do cuidado
Ser humano precisa deste contato concreto para viver e envelhecer. A antropóloga americana Margaret Mead (1901-1978), uma das maiores autoridades nos estudos sobre a origem do ser humano, numa das suas falas, que se tornou mundialmente famosa, ela aponta que o primeiro sinal da civilização humana não foi um artefato de pedra em forma de ponta de flecha ou pinturas em cavernas, mas sim um fêmur fraturado e cicatrizado.
Ela comenta que “(...) um fêmur quebrado que cicatrizou é evidência de que alguém teve tempo para ficar com aquele que caiu, tratou da ferida, levou a pessoa à segurança e cuidou dela até que se recuperasse. Ajudar alguém durante dificuldade é onde a civilização começa(...)”.
E, na era Paleolítica, quando a espécie Homo Sapiens surgiu na face da Terra (cerca de 300.000 a 200.000 anos atrás), nós éramos as espécies animais mais frágeis, sem garras ou dentes poderosos para nos proteger. Poderíamos ter sido extintos por outros predadores se não fosse este espírito de ajudar, de colaborar e de sobrevivermos em coletividade.
Certamente, este espírito de coletividade e de ajuda mútua foi que permitiu a nós, Homo Sapiens, sobrevivermos até os dias de hoje. E este espírito que está, literalmente, no nosso DNA, parece ser exatamente o que precisamos para viver mais e melhor e podermos ser longevos saudáveis e felizes.
Portanto, as evidências mais importantes hoje sobre o que realmente importa para uma longevidade feliz falam sobre bons relacionamentos, preocupar-se uns com os outros e viver e conviver em harmonia com as pessoas queridas - e não de suplementos.
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