Por que tantos pacientes com doença renal crônica não chegam ao transplante?
O debate acerca do transplante vai muito além da disponibilidade de órgãos e os pacientes enfrentam o obstáculo do diagnóstico tardio
Por Bárbara Ferreira
05/10/2026 | 09h26AdobeStock
O Brasil enfrenta um desafio significativo na área de transplantes renais, com muitos pacientes em diálise não chegando a ser inscritos na lista de espera, apesar de ser um dos países que mais realizam esses procedimentos no mundo.
Dados recentes mostram que, enquanto a população em diálise quase dobrou, a proporção de pacientes inscritos para transplante caiu, evidenciando barreiras logísticas e de informação que impedem o acesso ao tratamento.
Especialistas destacam a necessidade de melhorar o diagnóstico precoce da doença renal crônica e simplificar as etapas de avaliação para o transplante, a fim de aumentar as chances de pacientes serem preparados para receber um órgão compatível.
São Paulo - As filas de espera por um órgão são longas, mas especialistas alertam que o maior obstáculo para pacientes com doença renal crônica pode surgir antes mesmo dela. Embora o Brasil esteja entre os países que mais realizam transplantes renais no mundo, milhares de pacientes que fazem diálise sequer chegam a ser inscritos na lista de espera.
Na prática, o número absoluto de pacientes inscritos permaneceu estável durante mais de uma década, enquanto a população em diálise quase dobrou. É o que observa o nefrologista Bruno Zawadzki, vice-presidente de Serviços Médicos da DaVita. Segundo ele, o debate acerca do transplante vai muito além da disponibilidade de órgãos, pois há um gargalo anterior.
Leia também
Muitos pacientes nunca chegam à fila porque enfrentam uma sequência de barreiras que começa ainda antes da diálise e continua durante toda a preparação para o transplante".
Bruno Zawadzki, nefrologista
Dados do Censo Brasileiro de Diálise 2024, publicado pela Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), mostram que o Brasil contabilizava 172.585 pacientes em diálise em julho de 2024. Enquanto isso, a proporção de pacientes inscritos para transplante diminuiu ao longo dos anos, veja:
- 2011: 35,5% dos pacientes em diálise estavam na lista de espera (32.454 pessoas)
- 2014: 29% dos pacientes em diálise na lista de espera (32.499 pacientes)
- 2018: 22,1% dos pacientes em diálise na lista de espera (29.545 pacientes)
- 2020: 23% dos pacientes em diálise na lista de espera
Obstáculos no transplante de rins
O especialista reforça que o transplante começa muito antes da cirurgia. Segundo estudo brasileiro, publicado nos Cadernos de Saúde Pública, 50,7% dos pacientes clinicamente aptos ao transplante na Região Metropolitana de Fortaleza não estavam inscritos nem em avaliação.
Entre os principais motivos estavam:
- receio de insucesso ou perda do enxerto (32,5%),
- dificuldades de transporte e acesso aos exames (20,9%),
- problemas pessoais ou familiares temporários (13,7%).
O estudo mostra como muitos pacientes ficam fora da fila por barreiras logísticas e de informação, e não por contraindicação médica.
Segundo Zawadzki, as principais barreiras para o transplante são o diagnóstico tardio da doença renal crônica e as muitas fases de avaliação antes da cirurgia.
"O maior desafio não é apenas aumentar a disponibilidade de órgãos, mas garantir que as pessoas cheguem preparadas até essa oportunidade. Quanto mais cedo identificamos e acompanhamos esse paciente, maiores são as chances de que ele percorra todas as etapas necessárias para realizar o transplante quando surgir um órgão compatível", diz.
A fala é comprovada por um estudo do Centro de Regulação da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, publicado na revista International Urologyand Nephrology. O estudo analisou 8.451 solicitações de início de terapia renal substitutiva no SUS paulista entre 2023 e 2024.
O levantamento mostrou que cerca de 70% dos pacientes começaram o tratamento já internados, evidenciando início não planejado da terapia. Apenas 26% dos pacientes receberam tratamento conservador antes da diálise.
Avaliação para o transplante
Para ingressar na lista de espera, o paciente precisa passar por avaliações cardiológica, odontológica e urológica, realizar exames laboratoriais, sorologias, rastreamento de câncer, tipagem imunológica e comparecer ao centro transplantador.
Segundo o nefrologista, cada etapa representa um possível ponto de interrupção, seja por demora na realização dos exames, dificuldade de transporte, distância dos serviços especializados ou ausência de acompanhamento ao longo do processo.
"Muitas vezes, o paciente não deixa de ser transplantado porque existe uma contraindicação médica definitiva. Grande parte das barreiras é potencialmente reversível, como anemia, desnutrição, hipertensão descontrolada, sobrecarga de volume ou ausência de um acesso vascular adequado", explica Zawadzki.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
Agora

