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Protocolo propõe nova abordagem para dar más notícias a pacientes durante exames

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A proposta busca orientar médicos que muitas vezes precisam comunicar resultados preocupantes em um único encontro com o paciente - AdobeStock
A proposta busca orientar médicos que muitas vezes precisam comunicar resultados preocupantes em um único encontro com o paciente
Por Bianca Bibiano

21/03/2026 | 18h04

São Paulo - Exames de imagem passam a fazer parte da rotina de saúde de muitas pessoas a partir dos 50 anos de idade, seja para rastreamento de doenças, acompanhamento ou investigação de sintomas. Nesse contexto, a forma como um achado suspeito é comunicado pode fazer grande diferença na experiência do paciente, especialmente em um momento marcado por medo, insegurança e dúvidas sobre os próximos passos.

Pensando em como comunicar melhor as más notícias de saúde, pesquisadores brasileiros desenvolveram um protocolo para ajudar radiologistas a conduzir conversas difíceis com pacientes de forma mais clara, empática e estruturada.

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A proposta, apresentada em artigo na revista científica da Sociedade de Radiologia da América do Norte, busca orientar médicos radiologistas que muitas vezes precisam comunicar resultados preocupantes em um único encontro, e nem sempre com vínculo prévio com o paciente.

“O objetivo do protocolo é oferecer um ponto de partida para que essas conversas aconteçam de forma mais humana. Explicar o exame com calma, validar as emoções do paciente e esclarecer os próximos passos pode fazer diferença na maneira como essa notícia é recebida e enfrentada”, afirma a médica Natália Orthmann, uma das autoras do estudo e palestrante da 56ª Jornada Paulista de Radiologia, que acontecerá de 30 de abril a 3 de maio, em São Paulo.

Chamado RADNEWS, o protocolo criado por Orthmann e seus colegas propõe sete etapas para orientar as conversas sobre exames médicos, desde a preparação e a contextualização do exame até o acolhimento das reações emocionais e a explicação dos próximos passos do cuidado (veja um resumo abaixo). 

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De acordo com o Atlas da Radiologia no Brasil 2025, o País contava, até o ano passado, com 20.453 médicos especialistas em radiologia e diagnóstico por imagem, especialidade comumente referida pelo termo 'radiologista'.

O radiologista frequentemente é o primeiro médico a identificar um achado suspeito em um exame de imagem. Para o paciente, especialmente aquele que já realiza exames periódicos por conta da idade, esse pode ser um momento de grande impacto emocional. Por isso, é fundamental traduzir a informação técnica em uma conversa clara, acolhedora e orientada."

Em que consiste o protocolo?

O protocolo está detalhado no artigo original em inglês, mas, de forma resumida, ele contempla sete momentos essenciais que envolvem a realização de um exame e a eventual necessidade do médico de dar más notícias ao paciente:

  1. Recapitular previamente o contexto clínico do paciente, buscando entender a motivação do exame e exames anteriores.
  2. Apresente-se e proporcione um ambiente acolhedor para o exame.
  3. Descreva o exame e seu propósito.
  4. Informe o procedimento com clareza e linguagem empática, evitando demonstrações de estresse.
  5. Garanta uma postura empática também com a linguagem não verbal, evitando ficar com braços cruzados, por exemplo.
  6. Acolha as perguntas do paciente e compartilhe os próximos passos.
  7. Podem ocorrer reações estressantes dos pacientes, mas o objetivo é manter sempre uma abordagem acolhedora.

Possibilidades de uso

Ao VIVA, Orthmann explicou que hoje, no Brasil, ainda não há uma prática estruturada e amplamente fundamentada para orientar radiologistas sobre como comunicar achados graves ou suspeitos diretamente aos pacientes.

"Existem poucos estudos nacionais sobre esse momento específico na radiologia, mas ainda falta um protocolo passo a passo, validado e incorporado à rotina assistencial. É justamente nessa lacuna que o novo modelo ganha relevância: ao oferecer um norte mais claro para profissionais que, muitas vezes, encontram o paciente em situações críticas, sem histórico clínico completo e sem vínculo prévio com ele."

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Ela acredita que o espaço para esse tipo de protocolo crescer no Brasil é grande. "Hospitais e clínicas têm demonstrado atenção crescente à jornada do paciente e ao acompanhamento após exames com alterações importantes, mas, na prática, esse contato inicial ainda costuma depender muito da experiência individual de cada profissional, sem treinamento formal ou padronização", pondera.

O protocolo pode ganhar espaço ao funcionar como ferramenta de capacitação e apoio, ajudando equipes médicas a conduzir essas conversas com mais segurança, clareza e acolhimento."

A especialista destaca que a ideia não é padronizar de forma rígida a comunicação, mas oferecer uma base científica e prática para treinar profissionais para atuar com emparia em momentos sensíveis. "A proposta reúne aprendizados da experiência assistencial com referências já discutidas em outros contextos da saúde, como frameworks voltados à comunicação de más notícias, e pode ser incorporada tanto à rotina dos serviços quanto à formação de residentes e equipes". 

Orthmann acredita que esse aspecto amplia seu potencial de adoção no Brasil, especialmente em instituições que querem qualificar a experiência do paciente sem perder de vista os limites do papel do radiologista. "A tendência é que esse tipo de protocolo avance justamente por responder a uma necessidade real do setor: transformar uma comunicação muitas vezes improvisada em uma abordagem mais estruturada, segura e centrada no paciente."

Exames mais realizados pelos 50+

A discussão ganha relevância especial no público acima de 50 anos, faixa etária em que exames como mamografia e outras avaliações por imagem se tornam mais frequentes e podem trazer achados que exigem investigação complementar, como uma biópsia.

Nessas situações, mais do que comunicar um resultado, o desafio é ajudar o paciente a compreender o que aquele achado significa e, principalmente, o que vem depois.

Um levantamento da Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem (FIDI) enviado ao VIVA mostra que, entre os pacientes 50+, o exame mais frequente é a tomografia computadorizada.

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Em seguida, aparecem exames de ultrassonografia, ressonância magnética, raio X, mamografia, densitometria óssea, tomografia computadorizada do crânio, ecocardiograma, ecografia e tomografia computadorizada do abdômen. Os dados consideram exames realizados até o primeiro semestre de 2025.

Segundo a FIDI, que realiza em média mais de 2 milhões de exames anuais, a análise desse 'top 10' sugere que as maiores preocupações de saúde para a faixa etária acima de 50 anos estão relacionadas a doenças cardiovasculares, neurológicas, oncológicas (câncer de mama), osteoporose e a saúde geral de órgãos internos.

A fundação destaca ainda que a alta demanda por exames como tomografias, ultrassonografias e ressonâncias magnéticas demonstra a necessidade de diagnósticos precisos e detalhados para gerenciar as condições de saúde associadas ao envelhecimento.

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