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Não se ensina mais matemática como antigamente; isso é bom, defendem especialistas

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Atualmente, o foco é evitar atividades repetitivas e buscar sentido entre o que se aprende nas aulas e a realidade dos estudantes - Freepik
Atualmente, o foco é evitar atividades repetitivas e buscar sentido entre o que se aprende nas aulas e a realidade dos estudantes
Por Bianca Bibiano

06/05/2026 | 15h29 ● Atualizado | 16h35

São Paulo - Houve uma época, há uns 40 anos, mais ou menos, em que aprender matemática envolvia longos treinos e repetições. Eram horas tentando decorar tabuada ou fórmula de Bhaskara para depois passar vergonha na chamada oral ou ter que escrever os resultados de cor na lousa. E se não soubesse, perdia ponto.

Apesar da nostalgia que a lembrança possa despertar em algumas pessoas, o ensino da matemática escolar mudou. E para melhor, defendem especialistas entrevistados pelo VIVA.

"Antigamente, a matemática era muito mecanizada e sem trazer uma explicação ou um link entre a realidade do estudante e o que ele estava vendo em sala de aula. A gente ainda vê isso, em algumas escolas ainda se é dado de forma bastante tradicional, mas também há um esforço muito grande dos professores de tentar trazer a matemática mais próxima da realidade do estudantes", explica a presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, Jaqueline Godoy Mesquita.

Muitos estudantes acabam tendo estereótipos com relação à matemática, de que é muito difícil, de que não vai servir para nada, de que não nasceram para isso, e acabam perdendo o interesse. [...] Aquelas aulas tradicionais que a gente tinha antigamente não são mais tão atrativas."

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Retrato da presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, Jaqueline Godoy Mesquita.
Jaqueline Mesquita vê melhoras no ensino, mas destaca lacunas na formação docente e baixa atratividade da carreira em matemática - Divulgação/SBM

Mesquita diz que essa desconexão entre o conteúdo e seu uso na realidade é um dos principais responsáveis pelos resultados trágicos nas avaliações dos alunos brasileiros em avaliações nacionais e internacionais.

O último exame PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, por exemplo, mostra que mais de 70% das crianças e adolescentes no Brasil possuem dificuldades básicas na área da matemática, situando o País com cerca de três anos de atraso na aprendizagem em relação à média internacional.

"Já na parte de pesquisa avançada em matemática podemos dizer que o Brasil está muito bem", lembra a dirigente da entidade, citando que o único Prêmio Nobel do País, a Medalha Fields, foi dada a Artur Avila. "Porém, na base escolar a gente vê uma discrepância muito forte. Precisamos melhorar a parte do ensino", complementa.

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Longa jornada de mudança

A professora de matemática e diretora executiva do Instituto Reúna, Katia Smole, concorda e observa que a aprendizagem nessa área sempre foi um desafio no Brasil, mas que vem sendo reformulada com mais intencionalidade desde a década de 1990, quando começaram as avaliações nacionais.

Nós sabíamos menos sobre como os estudantes aprendem, agora sabemos mais."

Retrato da professora de matemática Katia Smole
Katia Smole diz que matemática foi a disciplina com mais queda de aprendizagem após a pandemia - Divulgação/Instituto Reúna

Hoje, com a aplicação dos exames, os docentes podem ver com mais clareza o que os estudantes não estavam aprendendo e podem tomar decisões. Segundo ela, é falsa a sensação de que antes se aprendia mais. "A ciência muda muito e temos mudanças significativas também na forma de ensinar e aprender, porque os tempos são outros e ciência da educação também evolui."

Outro fator que afeta essa percepção é que nas décadas anteriores, especialmente antes de 1980, menos pessoas tinham acesso à educação formal, explica Smole.

"A escola era muito mais elitista, tanto que muitos adultos hoje que são 50+, 60+, fazem cursos de educação de jovens e adultos justamente por não terem recebido a oportunidade de estudar no tempo certo."

A professora defende estratégias conforme as necessidades de cada grupo, mas sem tirar o papel fundamental da escola no processo. "Eu posso aprender matemática em qualquer idade, mesmo em situações profissionais, mas essa matemática mais ligada à ciência, você precisa da escola para ensinar."

Smole lembra que o ensino da disciplina já foi marcado por uma disputa entre memorização e compreensão. Hoje, o consenso aponta para um equilíbrio entre as duas abordagens.

Os estudos de neurociência mostram que tem uma parte do seu cérebro que vai aprender melhor resolvendo problemas, experimentando, testando, mas a matemática também exige organização e exercitação para fazer o cérebro ganhar memórias. E podemos incentivar isso de muitas formas, desde livros até arte e jogos."

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Iniciativas pós-pandemia

Apesar das pequenas melhoras que vinham sendo trabalhadas desde o início das avaliações em escala, na pandemia o ensino desandou, não só no Brasil, mas no mundo, relembra Katia Smole. "De todas as disciplinas da escola, a matemática foi a que deu problema depois da pandemia. O Brasil tem feito bons programas para evoluir e voltar aos patamares anteriores, mas ainda é um longo caminho".

Dentre essas ações, ela cita iniciativas do governo federal, como o Compromisso Nacional Toda Matemática, que foca na recomposição das aprendizagens perdidas nesse período, e o Pé-de-Meia Licenciaturas, que oferece bolsa mensal para alunos desses cursos. 

Outra lacuna que vem sendo endereçada atualmente é a baixa presença feminina na matemática, tema que ganhou diversas ações da Sociedade Brasileira de Matemática, como observa Jaqueline Mesquita.

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"Apesar de todos esses nossos esforços ainda é necessário agir mais, porque mesmo com todas essas ações, a gente vê que ainda é muito baixa a representatividade de mulheres e de grupos minoritários de maneira geral na área da matemática e na área de exatas como um todo", pondera. Ela própria é a terceira mulher a assumir a presidência da institução em 55 anos.

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Dados do Instituto Reúna mostram que cursos de licenciatura em matemática têm taxa de abandono de 70%, um retrato daslacunas na formação de docentes e a baixa atratividade da carreira.

1967. Alunos em escola de aula no ensino primário, em São Paulo, na década de 60.
Em 1967, a prática de chamada oral de tabuada era comum em escolas brasileiras - EC/EQUIPE AE

Katia Smole analisa que as ações para reverter o baixo desempenho em matemática deveriam ir além e permear até mesmo o debate eleitoral.

Nós vemos sempre nos planos de campanha uma preocupação grande de dizer que educação é prioridade, que nós queremos melhorar a qualidade do ensino no Brasil. Se não melhorarmos a aprendizagem de matemática, a educação no Brasil vai ter sempre uma meia qualidade".

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Ela complementa que o ensino de probabilidade poderia proteger a população do alto endividamento, por exemplo. "Se a gente soubesse um pouquinho de probabilidade, a nossa população estaria muito mais protegida de ficar fazendo apostas desmedidas em qualquer tipo de jogo, legalizados ou não".

E pontua que somente em 2031 teremos a primeira turma de nono ano que vai sair da escola sem ter passado pelas aulas durante a pandemia. "Nós estamos só em 2026. Tem muito trabalho pela frente", conclui.

Nem a calculadora escapou das mudanças

Se tem um objeto que remete automaticamente à matemática é a calculadora. Inventada no Japão em 1965 pelos irmãos Kashio, ela tem sido usada amplamente nas escolas e por profissionais de diferentes áreas até hoje. E nem celulares ou computadores com inteligência artificial conseguiram reduzir seu uso.

Reprodução/CASIO
A primeira calculadora foi criada como modelo de mesa e ganhou nos anos 1970 a aparecência mais conhecida dos dias atuais - Reprodução/CASIO

A CASIO, marca criada pelos irmãos responsáveis pelo invento, afirma que sua divisão de calculadoras no Brasil apresentou desempenho "bastante sólido" no último ano fiscal, com crescimento de 20% no faturamento. 

Em dados enviados ao VIVA, o gerente de vendas Artur Kaedei afirma que "o resultado foi fortemente impulsionado pela linha de calculadoras científicas, que registrou uma expansão expressiva de 53% entre 2025 e 2026". A expectativa da marca é atingir ao menos 15% de crescimento em 2027 em relação ao atual ano fiscal.

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Já o matemático Jalman Lima, gestor de negócios educacionais da CASIO Educação, divisão da marca voltada para a parte de ensino, afirma que parte da dinâmica de crescimento se deve também ao investimento em parcerias com escolas públicas, privasas, técnicas e também universidades para promover o uso intencional do equipamento nas salas de aula,  buscando desmistificar a mentalidade de que o aluno não pode usar calculadora em aulas ou provas.

Usar a calculadora está na legislação, na Base Nacional Comum Curricular, e não é de agora, isso vem desde 1992 com os parâmetros educacionais. O grande ponto é que no Brasil ainda tem muito forte a questão de achar que o aluno não vai saber fazer conta ou não vai aprender matemática se usá-la". 

Lima ressalta que em currículos internacionais uso é incentivado, inclusive em países que lideram os rankings, como Finlândia e Singapura, além de França, Canadá, Bélgica, Espanha e Itália, que permitem calculadora até mesmo em vestibulares. "Não é unicamente sobre fazer o cálculo e chegar à resposta, é o processo que é muito enriquecedor".

Jalman Lima, Gestor de Negócios Acadêmicos da CASIO
Jalman Lima diz que o uso da calculadora no ambiente escolar também vem sendo repensado - Divulgação/CASIO Educação

Nesse sentido, ele diz que as formações com professores buscam incentivar o uso da calculadora apoiado na metodologia de resolução de problemas, tendência atual de ensino que propõe atentar mais para as estratégias e o processo de aprendizagem do aluno do que para o resultado final de uma conta.

"Em alguns momentos, o estudante não vai saber resolver um problema de primeira, e tudo bem, porque a matemática não se resolve sempre em três minutos, é um processo."

O educador diz que isso perpassa o uso das ferramentas e defende que a presença da matemática no cotidiano vai muito além da sala de aula. "Quando a gente trabalha matemática, isso serve para tudo, planejamento, estoque, finanças", afirma.

Lima explica que a falta desse conhecimento impacta desde pequenos negócios até a vida pessoal, levando a decisões equivocada sobre dívidas, consumo e até saúde.

Se a gente souber mais matemática, a gente consegue ter muito mais ferramentas para não cair em situações difíceis e também planejar e até empreender".

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