Não se ensina mais matemática como antigamente; isso é bom, defendem especialistas
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São Paulo - Houve uma época, há uns 40 anos, mais ou menos, em que aprender matemática envolvia longos treinos e repetições. Eram horas tentando decorar tabuada ou fórmula de Bhaskara para depois passar vergonha na chamada oral ou ter que escrever os resultados de cor na lousa. E se não soubesse, perdia ponto.
Apesar da nostalgia que a lembrança possa despertar em algumas pessoas, o ensino da matemática escolar mudou. E para melhor, defendem especialistas entrevistados pelo VIVA.
"Antigamente, a matemática era muito mecanizada e sem trazer uma explicação ou um link entre a realidade do estudante e o que ele estava vendo em sala de aula. A gente ainda vê isso, em algumas escolas ainda se é dado de forma bastante tradicional, mas também há um esforço muito grande dos professores de tentar trazer a matemática mais próxima da realidade do estudantes", explica a presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, Jaqueline Godoy Mesquita.
Muitos estudantes acabam tendo estereótipos com relação à matemática, de que é muito difícil, de que não vai servir para nada, de que não nasceram para isso, e acabam perdendo o interesse. [...] Aquelas aulas tradicionais que a gente tinha antigamente não são mais tão atrativas."
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Mesquita diz que essa desconexão entre o conteúdo e seu uso na realidade é um dos principais responsáveis pelos resultados trágicos nas avaliações dos alunos brasileiros em avaliações nacionais e internacionais.
O último exame PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, por exemplo, mostra que mais de 70% das crianças e adolescentes no Brasil possuem dificuldades básicas na área da matemática, situando o País com cerca de três anos de atraso na aprendizagem em relação à média internacional.
"Já na parte de pesquisa avançada em matemática podemos dizer que o Brasil está muito bem", lembra a dirigente da entidade, citando que o único Prêmio Nobel do País, a Medalha Fields, foi dada a Artur Avila. "Porém, na base escolar a gente vê uma discrepância muito forte. Precisamos melhorar a parte do ensino", complementa.
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Longa jornada de mudança
A professora de matemática e diretora executiva do Instituto Reúna, Katia Smole, concorda e observa que a aprendizagem nessa área sempre foi um desafio no Brasil, mas que vem sendo reformulada com mais intencionalidade desde a década de 1990, quando começaram as avaliações nacionais.
Nós sabíamos menos sobre como os estudantes aprendem, agora sabemos mais."
Hoje, com a aplicação dos exames, os docentes podem ver com mais clareza o que os estudantes não estavam aprendendo e podem tomar decisões. Segundo ela, é falsa a sensação de que antes se aprendia mais. "A ciência muda muito e temos mudanças significativas também na forma de ensinar e aprender, porque os tempos são outros e ciência da educação também evolui."
Outro fator que afeta essa percepção é que nas décadas anteriores, especialmente antes de 1980, menos pessoas tinham acesso à educação formal, explica Smole.
"A escola era muito mais elitista, tanto que muitos adultos hoje que são 50+, 60+, fazem cursos de educação de jovens e adultos justamente por não terem recebido a oportunidade de estudar no tempo certo."
A professora defende estratégias conforme as necessidades de cada grupo, mas sem tirar o papel fundamental da escola no processo. "Eu posso aprender matemática em qualquer idade, mesmo em situações profissionais, mas essa matemática mais ligada à ciência, você precisa da escola para ensinar."
Smole lembra que o ensino da disciplina já foi marcado por uma disputa entre memorização e compreensão. Hoje, o consenso aponta para um equilíbrio entre as duas abordagens.
Os estudos de neurociência mostram que tem uma parte do seu cérebro que vai aprender melhor resolvendo problemas, experimentando, testando, mas a matemática também exige organização e exercitação para fazer o cérebro ganhar memórias. E podemos incentivar isso de muitas formas, desde livros até arte e jogos."
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Iniciativas pós-pandemia
Apesar das pequenas melhoras que vinham sendo trabalhadas desde o início das avaliações em escala, na pandemia o ensino desandou, não só no Brasil, mas no mundo, relembra Katia Smole. "De todas as disciplinas da escola, a matemática foi a que deu problema depois da pandemia. O Brasil tem feito bons programas para evoluir e voltar aos patamares anteriores, mas ainda é um longo caminho".
Dentre essas ações, ela cita iniciativas do governo federal, como o Compromisso Nacional Toda Matemática, que foca na recomposição das aprendizagens perdidas nesse período, e o Pé-de-Meia Licenciaturas, que oferece bolsa mensal para alunos desses cursos.
Outra lacuna que vem sendo endereçada atualmente é a baixa presença feminina na matemática, tema que ganhou diversas ações da Sociedade Brasileira de Matemática, como observa Jaqueline Mesquita.
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"Apesar de todos esses nossos esforços ainda é necessário agir mais, porque mesmo com todas essas ações, a gente vê que ainda é muito baixa a representatividade de mulheres e de grupos minoritários de maneira geral na área da matemática e na área de exatas como um todo", pondera. Ela própria é a terceira mulher a assumir a presidência da institução em 55 anos.
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Dados do Instituto Reúna mostram que cursos de licenciatura em matemática têm taxa de abandono de 70%, um retrato daslacunas na formação de docentes e a baixa atratividade da carreira.
Katia Smole analisa que as ações para reverter o baixo desempenho em matemática deveriam ir além e permear até mesmo o debate eleitoral.
Nós vemos sempre nos planos de campanha uma preocupação grande de dizer que educação é prioridade, que nós queremos melhorar a qualidade do ensino no Brasil. Se não melhorarmos a aprendizagem de matemática, a educação no Brasil vai ter sempre uma meia qualidade".
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Ela complementa que o ensino de probabilidade poderia proteger a população do alto endividamento, por exemplo. "Se a gente soubesse um pouquinho de probabilidade, a nossa população estaria muito mais protegida de ficar fazendo apostas desmedidas em qualquer tipo de jogo, legalizados ou não".
E pontua que somente em 2031 teremos a primeira turma de nono ano que vai sair da escola sem ter passado pelas aulas durante a pandemia. "Nós estamos só em 2026. Tem muito trabalho pela frente", conclui.
Nem a calculadora escapou das mudanças
Se tem um objeto que remete automaticamente à matemática é a calculadora. Inventada no Japão em 1965 pelos irmãos Kashio, ela tem sido usada amplamente nas escolas e por profissionais de diferentes áreas até hoje. E nem celulares ou computadores com inteligência artificial conseguiram reduzir seu uso.
A CASIO, marca criada pelos irmãos responsáveis pelo invento, afirma que sua divisão de calculadoras no Brasil apresentou desempenho "bastante sólido" no último ano fiscal, com crescimento de 20% no faturamento.
Em dados enviados ao VIVA, o gerente de vendas Artur Kaedei afirma que "o resultado foi fortemente impulsionado pela linha de calculadoras científicas, que registrou uma expansão expressiva de 53% entre 2025 e 2026". A expectativa da marca é atingir ao menos 15% de crescimento em 2027 em relação ao atual ano fiscal.
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Já o matemático Jalman Lima, gestor de negócios educacionais da CASIO Educação, divisão da marca voltada para a parte de ensino, afirma que parte da dinâmica de crescimento se deve também ao investimento em parcerias com escolas públicas, privasas, técnicas e também universidades para promover o uso intencional do equipamento nas salas de aula, buscando desmistificar a mentalidade de que o aluno não pode usar calculadora em aulas ou provas.
Usar a calculadora está na legislação, na Base Nacional Comum Curricular, e não é de agora, isso vem desde 1992 com os parâmetros educacionais. O grande ponto é que no Brasil ainda tem muito forte a questão de achar que o aluno não vai saber fazer conta ou não vai aprender matemática se usá-la".
Lima ressalta que em currículos internacionais uso é incentivado, inclusive em países que lideram os rankings, como Finlândia e Singapura, além de França, Canadá, Bélgica, Espanha e Itália, que permitem calculadora até mesmo em vestibulares. "Não é unicamente sobre fazer o cálculo e chegar à resposta, é o processo que é muito enriquecedor".
Nesse sentido, ele diz que as formações com professores buscam incentivar o uso da calculadora apoiado na metodologia de resolução de problemas, tendência atual de ensino que propõe atentar mais para as estratégias e o processo de aprendizagem do aluno do que para o resultado final de uma conta.
"Em alguns momentos, o estudante não vai saber resolver um problema de primeira, e tudo bem, porque a matemática não se resolve sempre em três minutos, é um processo."
O educador diz que isso perpassa o uso das ferramentas e defende que a presença da matemática no cotidiano vai muito além da sala de aula. "Quando a gente trabalha matemática, isso serve para tudo, planejamento, estoque, finanças", afirma.
Lima explica que a falta desse conhecimento impacta desde pequenos negócios até a vida pessoal, levando a decisões equivocada sobre dívidas, consumo e até saúde.
Se a gente souber mais matemática, a gente consegue ter muito mais ferramentas para não cair em situações difíceis e também planejar e até empreender".
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