Aferição de idade, prevista no ECA Digital, deve reforçar controle parental
Envato
23/01/2026 | 08h43
São Paulo, 23/01/2026 - Uma das mudanças legais para este ano mais aguardadas por pais preocupados com o comportamento das crianças nas redes sociais é o novo Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei n. 15.211/2025); lei sancionada em setembro de 2025 que entra em vigor em março de 2026.
O maior motivador para a nova legislação é a exposição de menores de idade; como no caso da IA Grok e sua falta de filtros para a geração de imagens sexualizadas. Para lidar com este problema, o ECA Digital prevê de mecanismos de aferição de idade.
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A adição de mais barreiras de proteção ao usuário pode ser encarada também como uma barreira aos lucros da plataforma. O pesquisador de governança e regulação de IA pela USP, Tiago Augustini de Lima, toma o exemplo do X — plataforma responsável pelo Grok — para explicar a resistência das Big Techs à regulação.
E quanto mais lucrativo, mais resistência à regulação. Não é coincidência que o (dono do X) Elon Musk seja contra legislações de redes sociais e IA”
A coordenadora do CGI.br, Renata Mielli, explica que as novas ferramentas previstas no ECA Digital devem cumprir dois propósitos: auxiliar a supervisão parental e dividir a responsabilidade pela segurança dos jovens online.
"O ECA Digital busca promover ambientes mais adequados à idade de cada criança e adolescente e reforça que a proteção no ambiente digital é uma responsabilidade compartilhada, que não recai apenas sobre as famílias", explica.
A nova lei também reconhece o papel fundamental de pais e responsáveis, ao incentivar que tenham ferramentas de supervisão parental mais simples e acessíveis para apoiar o cuidado de seus filhos online."Leia também: Crianças e adolescentes estão expostas à violência em plataformas digitais
Como funciona hoje?
Atualmente, para acessar sites considerados perigosos para menores de idade; como venda de bebida alcoólica ou conteúdo pornográfico, basta que o usuário se autodeclare maior de idade, geralmente clicando em um botão "Tenho mais de 18 anos".
Com a nova regra, as plataformas serão responsáveis por aferir a idade do usuário, a partir de documentação ou foto.
Como fiscalizar?
A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), responsável pela fiscalização da lei, acredita que esse movimento transformará a aferição de idade em requisito estrutural, impactando diretamente o desenho, o desenvolvimento e a oferta de produtos e serviços voltados a crianças e adolescentes, "em consonância com os princípios de proteção integral e o seu melhor interesse”, afirmou, por meio de nota.
Em um relatório publicado no final de 2025 a ANPD explica que as tecnologias de aferição se dividem em duas categorias: verificação de idade e estimativa de idade.
Na verificação de idade, o processo ocorre por meio de documentos oficiais, dados de cartão de crédito ou serviços de terceiros responsáveis pela confirmação das informações. Já a estimativa de idade baseia-se em elementos como biometria facial, voz e padrões de comportamento para determinar a faixa etária do usuário.
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Apesar de não especificar os métodos que deverão ser utilizados, deixando a cargo das plataformas, a agência afirmou que vai “respeitar princípios como a minimização de dados, evitando a coleta desnecessária de informações sensíveis, como a biometria”.
Após uma consultoria pública, o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) lançou sete recomendações para a aferição de idade; formando princípios que possivelmente guiarão as plataformas a partir de março:
- Proporcionalidade e necessidade: as soluções de aferição etária devem ser aplicadas conforme o grau de risco da atividade, evitando exigências excessivas para ambientes de baixo risco, como plataformas educacionais e de serviços públicos.
- Privacidade e proteção de dados: a implementação deve seguir rigorosamente os princípios da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com minimização da coleta e vedação de uso secundário das informações.
- Inclusão e não discriminação: os mecanismos devem ser acessíveis a todos, prevendo alternativas para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, que não possuem documentos ou dispositivos próprios.
- Segurança técnica: as ferramentas devem adotar elevados padrões de segurança para prevenir fraudes, vazamentos e outros incidentes, contando com a expertise de órgãos como o CERT.br/NIC.br.
- Não fragmentação: as regras devem preservar o caráter global e aberto da Internet, evitando a criação de “muros” ou sistemas que isolem o usuário brasileiro da rede mundial.
- Interoperabilidade e padrões abertos: a regulamentação deve incentivar o uso de padrões técnicos abertos e interoperáveis para evitar a dependência de tecnologias proprietárias e a concentração de mercado.
- Transparência e auditabilidade: os sistemas de aferição devem ser transparentes e passíveis de auditoria externa, garantindo a responsabilidade e prestação de contas por ações e resultados, envolvendo transparência, comprometimento e tomada de decisões e o direito de contestação por parte dos usuários.
Controle Parental no Roblox
Mesmo antes do ECA Digital entrar em vigor; a Roblox Corporation, dona do famoso jogo infantil Roblox, aplicou a aferição de idade na plataforma. A medida gerou protestos virtuais dos jogadores, tornando necessária a confirmação de idade e um controle dos responsáveis para o uso do bate-papo presente no jogo.
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Vincular a conta de Roblox da criança a um responsável permite diversos monitoramentos do jogo, como nível de maturidade de conteúdo (como jogos muito violentos), as interações (com quem a criança consegue conversar, ou adicionar amigos), gastos (no caso o dinheiro interno do jogo, chamado de "Robux"), e tempo de jogo.
Para vincular a conta de uma criança a do responsável, basta seguir estes passos:
- Dentro do aplicativo conectado a conta da criança, abrir "configurações" e " Controles dos responsáveis".
- Selecionar "Adicionar responsável" e inserir o endereço de e-mail do responsável.
- Verificar se recebeu um e-mail da "Roblox". A partir dele é possível criar uma conta na plataforma
- O aplicativo solicitará que o responsável verifique a idade; através de um cartão de crédito ou documento de identidade
- Agora, o responsável pode controlar o conteúdo acessado pela criança, além de aprovar a idade declarada por ela.
*Estagiário sob supervisão de Luana Pavani
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