Estreia documentário que expõe rede de abusadores na Roblox e no metaverso
Divulgação
19/01/2026 | 12h36 ● Atualizado | 12h37
São Paulo, 19/01/2026 ‒ Na semana passada, crianças brasileiras ‒ muitas ainda não alfabetizadas ‒ organizaram protestos virtuais após a Roblox tornar mais rígidos o controle parental, a verificação de idade e o acesso ao chat. Por coincidência, estreou neste fim de semana no Brasil o documentário canadense "Jogos Perigosos: Roblox e o Metaverso".
A Roblox é o foco principal do de 2025, disponível desde a última sexta-feira, 16, ao público brasileiro no streaming CurtaOn, presente na Amazon Prime Video, Claro TV+ e no site oficial da plataforma.
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Em agosto, o youtuber Felca ganhou projeção nacional ao denunciar redes de pedofilia nas redes sociais e no metaverso. A repercussão do vídeo impulsionou a aprovação do Projeto de Lei 2628/22, conhecido como "ECA Digital", que reforça, no País, a proteção de crianças e adolescentes na internet.
Antes disso, em junho do ano passado, o VIVA Notícias mostrou a facilidade de encontrar convites virtuais em plataformas digitais para grupos hostis no Discord, as chamadas “panelinhas”, que aliciam menores de idade.
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Agora, pais, mães, avôs e avós podem entender melhor os mecanismos de segurança dessas plataformas por meio do documentário. O VIVA conversou com a produtora e roteirista do filme, Erica Leendertse, sobre os esforços para divulgar os riscos do metaverso. Esse ambiente de realidade virtual funciona quase como uma extensão da vida real, social e econômica.
O filme mostra o esforço de três jovens Alex, Janae e Katie, para tornar a Roblox e o metaverso mais seguros. Aos 12 anos, Katie foi vítima de aliciamento (grooming) por um dos mais famosos desenvolvedores da plataforma, Arnold Castillo, condenado a 15 anos de prisão federal nos Estados Unidos por manipular uma adolescente a deixar a casa dos pais para manter relações sexuais com ele.
Na tentativa de fazer justiça, Janae e Alex, fãs do Minecraft e de games da Roblox, publicam vídeos no YouTube e fazem transmissões ao vivo para expor os perigos dessas plataformas e pressionar por medidas de segurança mais fortes.
Em determinado momento, as meninas relatam sofrer ameaças constantes por mostrarem o modus operandi de predadores sexuais, que convencem jovens usuários da Roblox a ingressarem em servidores no Discord ‒ plataforma que, segundo o filme, oferece ainda menos proteção ‒, evidenciando falhas de monitoramento no metaverso. Os esforços incluem uma reunião de Alex e Janae, em Washington D.C., com a senadora republicana Marsha Blackburn, autora do Kids Online Safety Act (KOSA), para pressionar o Congresso americano.
Acompanhe os principais trechos da entrevista:
VIVA: Após a exposição das evidências descobertas por sua equipe, houve alguma mudança prática nas políticas de segurança dessas plataformas?
Erica Leendertse: Sim, embora seja difícil dizer se as mudanças foram diretamente por causa do filme ou parte de um ajuste mais amplo. Desde que começamos a produção do filme, vimos que:
- O Roblox lançou controles parentais mais rigorosos, incluindo ferramentas para bloquear jogos específicos e gerenciar listas de amigos.
- Um novo Conselho de Adolescentes foi formado para incluir vozes jovens nas discussões de segurança.
- O Roblox agora está bloqueando o acesso de menores de 13 anos a alguns recursos;
- Vários veículos comunicação destacaram falhas de segurança.
Então, mudanças estão acontecendo, mas ainda precisamos de mais transparência e consistência nas plataformas.
Quais protocolos de segurança e apoio psicológico foram adotados pela produção para evitar estresse emcional das adolescentes?
Desde o início, nos comprometemos com uma abordagem de não causar danos. Este filme não era apenas sobre revelar verdades sombrias — era sobre garantir que as pessoas que compartilhavam essas verdades se sentissem seguras ao fazê-lo. Construímos confiança com Katie e os outros ao longo do tempo. Eles foram envolvidos na forma como suas histórias foram contadas e demos a eles espaço para definir limites sobre o que queriam compartilhar.
Katie assistiu ao filme em particular com sua mãe e nossos produtores antes de qualquer coisa ser divulgada publicamente. Criamos um espaço para diálogo aberto depois e garantimos que ela se sentisse apoiada. Também oferecemos acesso contínuo a suporte de saúde mental, caso ela precisasse.
Tratamos suas experiências com cuidado — e também celebramos pequenos momentos juntos, como encerrar uma filmagem com sorvete para todos. É importante centrar o cuidado e a comunidade, especialmente quando o assunto é pesado.
As falhas de moderação observadas são uma questão de limitações tecnológicas ou negligência corporativa?
Um pouco de ambos. Plataformas como o Discord reconheceram a escala do problema. Na verdade, eles nos deram uma declaração dizendo que a exploração infantil é um "problema em toda a indústria" e apontaram para iniciativas como o Lantern [programa de compartilhamento de sinais multiplataforma para segurança infantil].
Mas a tecnologia sozinha não é suficiente. Predadores são espertos e sabem como contornar filtros. Precisamos de supervisão humana real, tempos de resposta mais rápidos e empresas dispostas a colocar a segurança acima do lucro.
À luz de suas descobertas, é atualmente possível para uma criança usar essas plataformas 100% de forma segura?
Não acho que possamos garantir 100% de segurança — online ou off-line. Mas existem medidas que podem tornar esses espaços muito mais seguros. Como o jornalista investigativo Quintin Smith diz no filme, não queremos tirar as crianças dessas plataformas — é onde elas socializam e aprendem. Mas elas precisam estar melhor protegidas. Isso significa ferramentas parentais mais fortes, melhor moderação e educação tanto para crianças quanto para cuidadores.
Na verdade, criamos um centro de recursos com guias de segurança e dicas aqui: www.fathomfilm.ca/dangerous-games
Como você espera que este documentário influencie o debate sobre a regulamentação das Big Techs, especialmente em países onde as leis de proteção de dados e segurança online para crianças são consideradas permissivas?
Primeiro, espero que aumente a conscientização. Pais, educadores e jovens precisam entender que esses riscos não são hipotéticos — estão acontecendo agora. Em países onde a regulamentação ainda está se atualizando, espero que este filme se torne um alerta.
E, embora não possamos mudar diretamente as leis em todos os países, muitas dessas empresas — como Roblox e Discord — estão sediadas nos EUA. Políticas de segurança mais fortes lá podem estabelecer padrões globalmente. Minha esperança é que este filme impulsione isso, mesmo que um pouco.
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