Dia do aposentado para além do INSS: o novo perfil do idoso
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São Paulo, 24/01/2026 - O perfil do aposentado de hoje foge do estereótipo fixado no imaginário coletivo, daquela pessoa que chegou ao momento do descanso, conforto e previsibilidade de renda para o resto da vida. Hoje, a face do aposentado mostra um indivíduo ainda ativo no mercado de trabalho e que representa uma base financeira para a família.
O dia 24 de janeiro remete ao Dia do Aposentado, primeira lei brasileira destinada à previdência social, em 24 de janeiro de 1923, chamada de "Lei Eloy Chaves".
Mais de um século depois, o cenário é bem diferente para o trabalhador que deseja solicitar a aposentadoria mas que não sabe mais se vai conseguir se manter com o benefício ou se terá que continuar batalhando para se sustentar.
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A fila de quase 3 milhões de pedidos de aposentadorias, pensões e benefícios por incapacidade até novembro do ano passado revela uma lacuna no sistema do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e um desafio para aqueles que querem se aposentar ou rever seus direitos.
Enquanto a fila aumenta, o trabalhador espera. Isso porque o tempo médio de espera chegou a 45 dias para 46% dos processos parados na primeira fase de análise, enquanto 10% superaram 180 dias.
Tendo em vista esse contexto, a necessidade exige mudança. É o que aponta o professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Renan Pieri. Ele alerta sobre a situação atual do sistema previdenciário, sustentado pelos trabalhadores jovens, que já estão em menor número e entram no mercado de trabalho cada vez mais tarde, assim como o alto número de trabalhadores informais — cerca de 40 milhões de brasileiros.
"Estamos falando de uma questão de 20 anos para que o sistema se torne insustentável. Primeiro, a gente precisa discutir rapidamente um novo desenho de previdência social, que seja mais equilibrado e que leve em conta esse problema. E o segundo ponto é a questão do planejamento do trabalhor para poupar, tendo em vista a incerteza do momento".
Realidades distintas
O especialista em Direito Previdenciário e mestre em Direito das Relações Sociais e Trabalhistas, Washington Barbosa pondera que é preciso dividir esse público de aposentados em dois grandes grupos. O primeiro, que apresenta um histórico econômico financeiro melhor, com acesso constante aos serviços de educação e saúde, e chega aos 60 anos em plena capacidade produtiva. "Essa pessoa realmente sequer consegue ficar parada. É uma parcela da população idosa que busca alternativas para continuar ativa dentro da sua realidade."
O outro grupo, por sua vez, é o dos que não têm escolha de parar de trabalhar por que são essenciais para compor o orçamento familiar. "Por falta de planejamento, de estrutura ou mesmo de opções de trabalho com salários melhores, essa pessoa acabou tendo aposentadoria fixada no piso de um salário mínimo ou um pouco mais do que isso e por isso precisa continuar ativa". Esse grupo, no geral, tem familiares que ainda moram com ele e dependem da sua renda.
O grande ponto, reforça Barbosa, é que a situação social mudou.
As pessoas mudaram, os hábitos alimentares mudaram, o próprio acesso à saúde. Tudo isso corrobora para uma nova cara da população idosa. Com 60 anos, muitos estão hoje no auge".
Diante desse novo perfil o especialista sugere que é necessário uma reflexão mais profunda sobre o sistema. Há de se mudar a própria estrutura da previdência social para essa nova realidade e mudar o pensamento da sociedade quanto a como contribuir, de que forma contribuir, qual o valor contribuir e por quanto tempo contribuir.
O advogado previdenciarista sócio do GMPR Advogados, Heitor Costa, destaca que o perfil financeiro do aposentado é misto: “Um pouco da aposentadoria, mais um pouco do trabalho. Isso acontece porque a vida ficou mais cara e porque muita gente se aposenta com um valor que não mantém o padrão de vida”, diz.
Em 2025, do total da folha de pagamentos do INSS, que ultrapassa 40 milhões de benefícios, 28,5 milhões são de até um salário-mínimo.
O gerente de Experiência do Cliente do Banco Mercantil, Guilherme Nunes, concorda que a relação do brasileiro com o dinheiro após a aposentadoria tem mudado. Segundo ele, principalmente em razão da maior longevidade da população, essa etapa da vida tem passado a ser vista como um momento de continuidade e não de ruptura. Estatísticas indicam que em 2070, cerca de 37,8% dos brasileiros serão idosos.
Diante dessa nova realidade, planejar o uso dos recursos, organizar a renda e tomar decisões com visão de longo prazo se tornam fundamentais para garantir autonomia e sustentar novos projetos pessoais", acrescenta.
O despreparo para a aposentadoria
O impacto da ausência de planejamento e educação financeira no futuro dessa população pode ser comprovado em números. Segundo pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), em parceria com o Instituto Axxus, a maior parte dos brasileiros economicamente ativos não está preparada para a aposentadoria. De acordo com o levantamento, 62% dos entrevistados declararam não guardar nenhum recurso para a aposentadoria. De acordo com a Abefin, os números são um reflexo da incapacidade do brasileiro em planejar o futuro, combinada a uma falta de orientação financeira.
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Outra pesquisa recente, da fintech meutudo, confirma essa realidade ao revelar que 6 em cada 10 aposentadosnão tem uma rotina de planejamento financeiro. Aliado a isso, seis em cada dez entrevistados afirmaram que concentram os gastos em contas de moradia, alimentação e saúde.
A doutora em saúde pública e especialista em gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Marisa Accioly adiciona que, para os trabalhadores que não conseguiram cumprir os requisitos de contribuição do INSS — muitas vezes por terem atuado na informalidade —, o acesso à proteção social torna-se ainda mais restrito.
"Esses cidadãos dependem da Assistência Social, especificamente do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que exige idade mínima de 65 anos e comprovação de miserabilidade. Isso difere da aposentadoria contributiva, deixando uma parcela da população descoberta até atingir uma idade mais avançada do que as regras de transição da previdência comum exigem", observa.
Ela lembra também que a gestão da renda do idoso é pressionada por despesas de saúde que não são totalmente cobertas pelo Estado. Segundo Marisa, o declínio da saúde física traz custos adicionais com cuidadores e medicações que muitas vezes são indisponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), consumindo a já escassa renda da aposentadoria.
"Isso cria um ciclo de vulnerabilidade econômica difícil de romper sem políticas públicas mais robustas", diz Accioly.
Mudanças de regras ainda não são conhecidas
Heitor Costa ressalta que, na prática, muitas pessoas ainda não estão cientes das mudanças nas regras de transição para a aposentadoria este ano. “A maioria só descobre na hora de pedir, e aí aparecem surpresas: tempo que não entrou, salários que não constam, vínculos com erro”, conta.
Ele elenca as principais mudanças:
- Na idade mínima progressiva, a idade exigida subiu: 59 anos e 6 meses (mulher) e 64 anos e 6 meses (homem), mantendo o tempo mínimo de contribuição, de 30/35 anos, respectivamente;
- Na regra dos pontos (idade + tempo de contribuição), a pontuação também sobe: em 2026 são 93 pontos (mulher) e 103 pontos (homem);
- Já as regras do “pedágio” (pagar um tempo extra) não mudam: pedágio de 50% e de 100% continuam com as mesmas bases.
Tendo em vista as mudanças, o advogado ressalta que o trabalhador ainda não busca ativamente as informações necessárias para solicitar o benefício. “É preciso verificar as regras antes no aplicativo Meu INSS e, se tiver dúvida, buscar orientação”, alerta.
O professor da FGV, Renan Pieri reforça que o grande problema ainda é a formação educacional para os trabalhadores. “No sentido financeiro, esse é o principal calcanhar de Aquiles porque pouca gente fica atenta a essas mudanças de dinâmica de mercado, que podem muitas vezes tirar essas pessoas da vida produtiva e dificultar o acesso à aposentadoria”, conclui.
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