Fraude no INSS vai completar 9 meses; veja o que se sabe até agora
Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
12/01/2026 | 09h40
São Paulo, 12/01/2026 – Prestes a completar nove meses, a fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), deflagrada em abril do ano passado pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU), se aproxima de um desfecho.
A última fase da Operação Sem Desconto, que apura o desvio de ao menos R$ 6,3 bilhões em descontos associativos não autorizados entre 2019 e 2024, ocorreu em 18 de dezembro, quando foram cumpridos 52 mandados de busca e apreensão e 16 de prisão preventiva.
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Entre os principais alvos estavam o filho do empresário Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, Romeu Carvalho Antunes, e o senador Weverton Rocha (PDT-MA). Em etapa anterior, foram atingidos os ex-presidentes do INSS Alessandro Stefanutto e José Carlos Oliveira, também ex-ministro do Trabalho e Previdência Social.
Agora, em 2026, a PF prepara o relatório final da apuração, que deve ser apresentado ao Ministério Público Federal (MPF) no primeiro semestre, estima o advogado criminalista, professor e especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Ricardo Martins.
“Após uma série de buscas, apreensões e prisões temporárias em 2025, a Polícia Federal está agora em um trabalho de bastidores, selecionando e catalogando a vasta documentação apreendida para elaborar o relatório final.”
Procurada pelo VIVA Notícias, a PF não confirmou a atual etapa das investigações.
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O advogado explica que isso não impede que novas etapas da operação sejam deflagradas antes da entrega do documento. “Em investigações complexas como esta, a análise dos documentos pode revelar novas informações que desencadeiam outras investigações ou mudam o rumo da apuração atual”, explica.
É um processo demorado porque o volume de documentos é muito grande e a Polícia Federal possui um efetivo reduzido em comparação às polícias estaduais, o que torna essa demora perfeitamente normal para um caso desta complexidade.”
Quem é o culpado pela fraude?
Ao longo das investigações, diversos nomes – ligados às associações de aposentados, ao INSS e ao meio político ou empresarial – foram alvos das ações da PF ou citados no processo. Entre as pessoas apontadas como responsáveis pela liderança e pela lavagem de dinheiro, alvos de mandados autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), estão:
Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”
Empresário apontado como operador financeiro e um dos líderes do esquema criminoso. De acordo com a decisão de prisão preventiva, autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, Antunes intermediava repasses entre associações beneficiadas e empresas de fachada.
Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho
Ex-procurador federal vinculado ao INSS, apontado como líder e beneficiário direto que usava sua posição funcional para viabilizar as fraudes.
Thaísa Hoffmann Jonasson
Esposa de Virgílio, apontada como gestora operacional e financeira do núcleo de lavagem de capitais. Controlava empresas de fachada para emitir notas falsas e ocultar bens.
Alessandro Antônio Stefanutto
Ex-presidente e ex-procurador-chefe do do INSS, apontado como o facilitador institucional que viabilizou juridicamente a fraude. Estava no cargo quando a primeira etapa da Operação foi deflagrada.
Ahmed Mohamad Oliveira Andrade (José Carlos Oliveira)
Ex-Ministro do Trabalho e Previdência Social durante o governo de Jair Bolsonaro; teria autorizado repasses ilegais e recebeu vantagens indevidas.
André Paulo Félix Fidelis
Ex-diretor de Benefícios do INSS, teria recebido propinas para blindar o esquema de fiscalizações.
Carlos Roberto Ferreira Lopes
Presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), apontado como o mentor intelectual do esquema específico de assinaturas falsas. Ele é suspeito de ter detido o poder decisório sobre os núcleos e é suspeito de manter a cadeia de pagamentos ilícitos.
Cícero Marcelino de Souza Santos
Empresário, teria atuado como o “braço financeiro”, criando empresas de fachada para receber valores desviados e repassá-los aos beneficiários do esquema, chamados de “heróis”.
Tiago Schettini Batista
Segundo as apurações, tinha status equivalente ao de Antônio Camilo, atuando como coordenador operacional e articulador financeiro, gerenciando pagamentos e contratos simulados.
Deputado Euclydes Marcos Pettersen Neto (Republicanos-MG)
Deputado Federal considerado a “pessoa melhor paga na lista de propina”; era o responsável por garantir proteção política e influenciar indicações para a cúpula do INSS.
Senador Weverton Rocha (PDT-MA)
O senador é apontado pela PF como uma figura central no núcleo político da organização criminosa investigada na Operação Sem Desconto, garantindo a influência e a blindagem institucional necessárias para viabilizar e proteger as atividades criminosas.
Adroaldo da Cunha Portal
Ex-secretário-executivo do Ministério da Previdência, representava o aparelhamento do alto escalão para fins ilícitos, com indícios de recebimento de propina.
Romeu Carvalho Antunes
Filho do “Careca do INSS”, teria assumido o papel de sucessor operacional após o desgaste público do pai, conduzindo lavagem de capitais inclusive no exterior.
Tiago Abraão Ferreira Lopes
Vice-presidente da Conafer e irmão de Carlos Roberto, era quem inseria dados falsos diretamente no sistema do INSS para gerar as receitas indevidas.
Todos os investigados serão réus?
Apesar da abrangência dos investigados, o advogado criminalista Ricardo Martins lembra que nem todos os nomes citados no processo serão necessariamente indiciados pelo Ministério Público.
Na fase de investigação, ser citado não garante que a pessoa será denunciada ou se tornará ré. É um caminho longo e muitas vezes surgem novas ramificações durante a consolidação dos dados”, esclarece.
Na semana passada, o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, voltou a ser associado à fraude. De acordo com o Estadão, a PF teria informado o STF sobre menções ao nome de Lulinha nas investigações. Para o advogado, é cedo para confirmar seu envolvimento.
“Ele foi mencionado no processo por ter tido contato com investigados, mas, até o momento, não há nada de concreto ou seguro que o ligue efetivamente ao esquema; pode ser inclusive especulação política.”
Quais são as associações envolvidas?
- Amar Brasil Clube de Benefícios (Amar Brasil - ABCB)
- APPN Benefícios (Aapen - ABSP)
- Associação Brasileira de Aposentados e Pensionistas do Instituto Nacional de Seguridade Social (Abrapps - antiga Anapps)
- Associação Brasileira dos Aposentados e Pensionistas da Nação (Abapen)
- Associação Brasileira dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Prevabrap - antiga Asbrapi)
- Associação Brasileira dos Contribuintes do Regime Geral Previdência Social (Abrasprev)
- Associação de Amparo aos Aposentados e Pensionistas do Brasil (Ampaben Brasil - antiga Abenprev)
- Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionista (Aasap)
- Associação de Assistência Social à Pensionistas e Aposentados (Aaspa)
- Associação de Aposentados Mutualista para Benefícios Coletivos (Ambec)
- Associação de Proteção e Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (Apdap Prev - antiga Acolher)
- Associação de Suporte Assistencial e Beneficente para Aposentados Servidores e Pensionistas do Brasil (Asabasp Brasil)
- Associação dos Aposentados do Brasil (AAB)
- Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (Aapb)
- Associação Nacional de Benefícios para Aposentados e Pensionistas (Keeper)
- Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (Anddap)
- Associação no Brasil de Aposentados e Pensionistas da Previdência Social (Apbrasil)
- Caixa de Assistência aos Aposentados e Pensionistas (Caap)
- Casa de Apoio ao Beneficiário Previdenciário de Aposentadoria e Pensão do INSS (Cabprev)
- Central Nacional de Aposentados e Pensionistas - Associação Santo Antônio (Cenap.asa)
- Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap)
- Círculo Nacional de Assistência dos Aposentados e Pensionistas (Cinaap)
- Confederação Brasileira dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Cobap)
- Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA)
- Confederação Nacional dos Agricultores Familiares Rurais e Empreendedores familiares Rurais do Brasil (Conafer)
- Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Brasil (Contraf)
- Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag)
- Master Prev Clube de Benefícios (Master Prev)
- Rede Ibero-Americana de Associações de Idosos do Brasil (Riaam)
- Sindicato Nacional dos Aposentados do Brasil (Sinab)
- Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Central Única dos Trabalhadores (Sintapi-CUT)
- Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical (Sindnapi/FS)
- Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da União Geral dos Trabalhadores (Sindiapi/UGT)
- Sindicato Nacional dos Trabalhadores Aposentados e Pensionistas e Idosos de Mogi Guaçu (Sintraap)
- União Brasileira de Aposentados da Previdência (Unibap)
- União dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (Unabrasil - antiga Unsbras)
- União Nacional de Auxílio aos Servidores Públicos (Unaspub)
- Universo Associação dos Aposentados e Pensionistas dos Regimes Geral da Previdência Social (Universo - Aapps)
Quais medidas foram tomadas?
Embora as investigações e as responsabilizações ainda estejam em curso, Martins ressalta que os órgãos competentes já adotam medidas para reparar os danos e prevenir novos golpes. “Independentemente do relatório da PF, o governo, por meio da Advocacia-Geral da União (AGU) e da CGU, já está tomando providências.”
Até dezembro, a AGU solicitou o bloqueio de R$ 6,6 bilhões por meio de 37 ações cautelares abertas desde o início da apuração; desse total, as liminares determinaram o congelamento de R$ 4,4 bilhões.
O governo federal já ressarciu R$ 2,83 bilhões a 4,1 milhões de aposentados e pensionistas, segundo balanço divulgado na segunda-feira, 5, com recursos provenientes de crédito extraordinário – autorização financeira emergencial para despesas urgentes e imprevisíveis.
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Na quarta-feira, 7, o presidente sancionou a Lei nº 15.327/2026, que proíbe descontos de mensalidades nos benefícios do INSS. Porém, vetou o uso de recursos do orçamento do instituto para reembolsar os segurados.
A biometria foi adicionada como camada extra de segurança no desbloqueio de crédito consignado e na concessão de novos benefícios do INSS.
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Nesse segundo caso, a implantação ocorre de forma gradual – a orientação é que aposentados e pensionistas mantenham o cadastro biométrico atualizado nos seguintes bancos de dados públicos:
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE);
- Carteira de Identidade Nacional (CIN);
- Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
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