Primeira ouvidora trans do PR diz que 'Estado ainda falha' com a comunidade
Arquivo Pessoal
29/01/2026 | 15h50 ● Atualizado | 17h27
São Paulo, 29/01/2026 - No Dia da Visibilidade Trans, o Portal VIVA conversou com Karollyne Nascimento, 51 anos, primeira mulher trans a ocupar o cargo de Ouvidora-Geral Externa da Defensoria Pública do Estado do Paraná (DPE-PR). Eleita para o mandato 2021-2023 e reeleita em 2023, Karollyne encerrou sua gestão em dezembro de 2025, marcando um período de avanços no diálogo entre a instituição e a população LGBTQIA+.
Durante dois mandatos, ela atuou para aproximar a Defensoria das demandas da população trans, buscando eliminar barreiras institucionais e promover o respeito à identidade de gênero. “A Ouvidoria tem atuado como ponte entre a população trans e a Defensoria Pública, acolhendo demandas e provocando a instituição a rever práticas excludentes”, afirma a Ouvidora.
Leia também: Laerte Coutinho diz que 'tem achado envelhecer difícil' e pensa na morte
Karollyne avalia que houve avanços simbólicos no reconhecimento das pautas trans dentro da DPE-PR, especialmente na ampliação dos debates sobre diversidade e direitos humanos.
Ainda assim, aponta necessário transformar esse reconhecimento em políticas permanentes. “O reconhecimento precisa se traduzir em protocolos claros e compromissos institucionais mais robustos”, disse.
Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista:
VIVA: Como a Ouvidoria tem atuado para garantir que a população trans tenha acesso efetivo à Defensoria Pública e aos seus direitos?
A Ouvidoria tem atuado como ponte entre a população trans e a Defensoria Pública, acolhendo demandas, denunciando barreiras institucionais e provocando a DPE-PR a rever práticas excludentes. Isso se dá por meio da escuta qualificada, do encaminhamento de casos concretos, da incidência política interna e da defesa permanente de um atendimento livre de discriminação, com respeito ao nome social, à identidade de gênero e às especificidades dessa população.
A falta de dados oficiais sobre identidade de gênero é outro desafio mencionado. Segundo ela, a ausência de informações impede a formulação de políticas eficazes. “A Ouvidoria defende a inclusão do recorte de identidade de gênero nos registros institucionais e o fortalecimento de pesquisas que subsidiem políticas públicas”, explica.
Leia também: Livros para ampliar o olhar sobre envelhecimento e longevidade em 2026
VIVA: Como você avalia o papel do Estado brasileiro na promoção de políticas para pessoas trans adultas e idosas, ainda invisibilizadas nas estatísticas?
O Estado brasileiro ainda falha gravemente com pessoas trans adultas e idosas, que vivem um processo de dupla ou tripla invisibilização. As políticas públicas seguem focadas, quando existem, na juventude, ignorando trajetórias marcadas por exclusão histórica, precarização e violência. É urgente pensar envelhecimento, saúde, trabalho e proteção social a partir da realidade das pessoas trans. Ocupar cargos de poder, por exemplo, ainda é uma exceção para pessoas trans, mas representa uma conquista coletiva. Minha presença na Ouvidoria simboliza a possibilidade de romper com a lógica de exclusão. Pessoas trans podem e devem estar nos espaços de decisão.
Leia também: Falta de dados mantém pessoas trans invisíveis no envelhecimento
VIVA: O Brasil segue sendo um dos países que mais mata pessoas trans. Como a Defensoria pode contribuir para enfrentar essa realidade?
A Defensoria tem papel central no enfrentamento à transfobia estrutural, atuando tanto na defesa individual das vítimas quanto na incidência coletiva e estratégica. Isso inclui o acompanhamento de casos de violência, a atuação em políticas de segurança pública, a responsabilização do Estado por omissões e a promoção de ações educativas e preventivas. Garantir acesso à justiça também é uma forma de proteger vidas.
VIVA: Como fortalecer o diálogo entre Defensoria e movimentos trans, garantindo que essas vozes participem da construção das políticas públicas?
O fortalecimento passa pelo reconhecimento dos movimentos trans como sujeitos políticos legítimos, pela criação de espaços permanentes de participação e pela escuta ativa das demandas vindas da base. A Ouvidoria tem papel estratégico nesse processo, tensionando a instituição para que a participação social não seja apenas consultiva, mas efetivamente deliberativa.
Leia também: UFRJ aprova cota para pessoas trans e se junta a 29 instituições federais
VIVA: Olhando para o cenário político atual, o que você considera mais urgente para que pessoas trans sejam vistas como cidadãs plenas, e não como exceções?
O mais urgente é garantir direitos básicos de forma concreta: viver sem violência, acessar trabalho, saúde, educação e justiça. Isso exige vontade política, enfrentamento à transfobia institucional e compromisso do Estado com a dignidade humana. Pessoas trans não precisam de concessões, mas do reconhecimento pleno de sua cidadania.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
