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Falta de dados mantém pessoas trans invisíveis no envelhecimento

Fernando Frazão/Agência Brasil

O Dia Nacional da Visibilidade Trans é celebrado nesta quinta-feira, 29 de janeiro - Fernando Frazão/Agência Brasil
O Dia Nacional da Visibilidade Trans é celebrado nesta quinta-feira, 29 de janeiro
Por Alexandre Barreto

29/01/2026 | 15h31 ● Atualizado | 17h28

São Paulo, 29/01/2026 - Envelhecer como pessoa trans no Brasil é desafiador. Mesmo com o aumento da população idosa no País, a falta de dados oficiais sobre identidade de gênero mantém esse contingente invisível e exposto a barreiras no acesso à educação, ao trabalho e à saúde.

Segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, o equivalente a 10,9% da população, um crescimento de 57,4% em relação a 2010. No entanto, o levantamento não coleta dados sobre identidade de gênero e orientação sexual, o que impede saber qual parcela desse grupo é formada por pessoas trans ou LGBTQIAPN+.

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Na semana do Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira, 29 de janeiro, instituições divulgam levantamentos com dados e análises sobre a população trans no Brasil. É o caso do dossiê de 2026 da Rede Trans Brasil, que aponta que a expectativa média de vida de pessoas trans no País é atualmente de 69 anos.

O número corrige uma distorção comum: os 35 anos frequentemente citados na mídia dizem respeito à média de idade das vítimas assassinadas no Brasil, e não à expectativa de vida.

Quando se afirma que a expectativa de vida de uma pessoa trans é 35 anos, cria-se uma sentença biológica que invisibiliza quem está envelhecendo e gera um pânico mental na juventude trans”, afirma Sayonara Nogueira, secretária de Comunicação da Rede Trans Brasil.

Ela explica que o cálculo que resultou na média de 69 anos decorre de uma nova metodologia baseada no cruzamento de dados de títulos de eleitor com o uso do nome social.

Brasil é o País que mais mata pessoas trans e travestis

Mesmo com avanços em visibilidade, o Brasil continua sendo o País que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Em 2025, segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), foram registradas 80 mortes – uma queda de 34% em relação ao ano anterior, mas que nos mantém no topo do ranking global há 18 anos. A maioria das vítimas é de mulheres trans e travestis jovens, negras e em situação de vulnerabilidade.

“Essas vítimas são majoritariamente pessoas pretas, expulsas de casa ainda na adolescência, empurradas para a prostituição e sem acesso à educação ou mercado formal de trabalho”, destaca Sayonara.

Em novembro de 2025, uma reportagem do VIVA destacou que pessoas negras, sobretudo jovens, têm menor expectativa de vida em comparação à população branca, o que reduz o número de pessoas negras que chegam à velhice. O estudo “Envelhecimento, Cuidado e Raça no Brasil” apresenta o conceito de “acúmulo de desigualdades” para mostrar como a falta de oportunidades e de suporte desde a infância resulta em uma velhice marcada por desgaste físico e emocional.

A mesma lógica pode ser aplicada à população trans, que também enfrenta exclusão estrutural, barreiras no acesso à educação, ao trabalho e à saúde, impactando diretamente suas possibilidades de envelhecer com dignidade.

São Paulo é o Estado mais letal para a população trans 

Os dados do dossiê da ANTRA também mostram que, entre 2017 e 2025, São Paulo foi o estado mais letal para pessoas trans, com 155 assassinatos. No último levantamento, a faixa etária entre 18 e 29 anos concentrou mais da metade das mortes. Não há registros de vítimas acima de 60 anos.

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Essa ausência de vítimas idosas nas estatísticas não indica maior segurança para as gerações mais velhas, mas sim a trágica realidade de que poucos indivíduos trans conseguem atingir a velhice no Brasil, sobrevivendo a um sistema que combina a negação de direitos básicos com a violência física sistemática”, destacou a ANTRA no dossiê.

Para Sayonara, a dificuldade em envelhecer é resultado da soma de fatores estruturais. “Falamos de transfobia, mas também de gênero, raça e classe. A questão racial é primordial. Vivemos num país em que o racismo é constante e a transfobia se torna estrutural. Por isso, é tão difícil ver pessoas trans envelhecendo. A estrutura social não permite que todas tenham as mesmas condições de sobrevivência”, afirmou.

Servidora pública desde 1999, Sayonara, 52 anos, reconhece que o acesso à educação e ao emprego formal foram fundamentais para que ela conseguisse envelhecer com dignidade. “Transicionei na juventude, mas tive privilégios que muitas não têm. A educação é a principal arma contra a transfobia. Ela e a família são as duas colunas que podem romper o ciclo de exclusão”, declarou.

Ato no Rio relembra pessoas mortas pela transfobia no país
Ato no Rio relembra pessoas mortas pela transfobia no país - Tomaz Silva/Agência Brasil

O dossiê da ANTRA recomenda que o poder público desenvolva políticas voltadas às pessoas trans idosas, com foco na inclusão social e no acesso à saúde.

Sayonara ressaltou que a falta de dados oficiais sobre essa população é um dos principais obstáculos à formulação de políticas eficazes. “O Estado precisa de estatísticas para agir. Enquanto o IBGE não incluir a identidade de gênero no Censo, o País continuará sem saber quantas somos. E sem informações, não há como garantir o direito de envelhecer com dignidade”, afirmou.

A pesquisa da Rede Trans Brasil reforça a urgência de produzir e divulgar dados oficiais, além de adotar ações que assegurem a permanência de pessoas trans nas escolas, no mercado de trabalho e na assistência social. Para a instituição, esses fatores são fundamentais para melhorar as condições de vida e o envelhecimento da população trans.

O Portal VIVA procurou o IBGE para comentar a ausência de perguntas sobre identidade de gênero no Censo 2022 e questionou se há previsão de inclusão do tema em próximos levantamentos ou pesquisas do instituto. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

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