Facebook Viva Youtube Viva Instagram Viva Linkedin Viva

Calor extremo pode custar ao país até US$ 353 mi em salários ao dia

Envato

Autores da pesquisa alertam que, sem medidas de adaptação, o calor tende a reduzir a jornada ativa de trabalho - Envato
Autores da pesquisa alertam que, sem medidas de adaptação, o calor tende a reduzir a jornada ativa de trabalho

Por Equipe Broadcast*

redacao@viva.com.br
03/01/2026 | 17h00
São Paulo, 03/01/2026 - O calor extremo pode custar diariamente ao Brasil até US$ 353 milhões em salários que deixariam de ser pagos porque o trabalho se tornará inviável nas horas mais quentes até o fim do século (2075 a 2099). Isso, considerando o cenário mais severo de aquecimento global, no qual a temperatura média global do planeta pode subir mais de 4ºC em relação aos níveis pré-industriais. O cálculo faz parte de um estudo sobre custos econômicos das mudanças climáticas no País, publicado em novembro na revista científica Nature.
Quatro autores da pesquisa ouvidos pela Broadcast alertam que, sem medidas de adaptação, o calor tende a reduzir a jornada ativa de trabalho, afetar a renda de milhões de pessoas e elevar os custos de produção, reduzindo a competitividade da economia brasileira.
"O calor é invisível para a sociedade. As pessoas não o enxergam como risco real", afirma Ismael Silveira, professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) e um dos principais autores do estudo.
Assim, o calor não é tratado com a mesma seriedade por empresas e políticas públicas porque não deixa destruição visível, como uma enchente.
Se for considerado um cenário intermediário de aquecimento global, em que a temperatura média do planeta aumente cerca de 2,7ºC até o fim do século, como mostram as projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as estimativas do estudo indicam perdas diárias de até US$ 228 milhões.

Tempo produtivo em dia de calor extremo

Para chegar ao cálculo, os pesquisadores multiplicaram o número de trabalhadores afetados pelo calor pelo valor do salário que deixariam de receber nas horas em que a atividade se torna inviável. Se um trabalhador perde 10% do tempo produtivo em um dia de calor extremo, considera-se que 10% do salário diário também é perdido. "Essa perda diária seria se o trabalhador realmente deixasse de trabalhar. É o salário dele que se perde", explica Leydson Galvíncio, co-autor do estudo, meteorologista e pesquisador no Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.
A pesquisa, intitulada Perdas de Produtividade e Custos Econômicos Projetados Devido ao Estresse Térmico em Cenários de Mudanças Climáticas no Brasil, avaliou a perda de renda com base no número de trabalhadores em diferentes setores, na remuneração média diária e na proporção do tempo de trabalho comprometido pelo calor. O cálculo segue a chamada abordagem do capital humano, que transforma a perda de produtividade em perda financeira ao aplicar essa proporção diretamente sobre o salário.
Foram usados salários médios de US$ 21,79 por dia na agricultura, US$ 25,27 na construção civil, US$ 34,15 na indústria, US$ 30,34 nos serviços e US$ 17,82 no trabalho informal, considerando o câmbio de R$ 5,80 por dólar.
A partir desses valores, os estudiosos estimaram a renda que deixaria de ser gerada conforme a perda de produtividade medida pelo índice WBGT, que combina temperatura, umidade e radiação solar para avaliar o estresse térmico. Galvíncio explica que esse procedimento foi refeito diversas vezes para confirmar os resultados, já que os valores parecem altos à primeira vista. Ele destaca que a equação de perdas diárias segue uma metodologia já estabelecida em outras pesquisas internacionais.
O estudo também aponta que no setor de serviços o custo econômico é o maior, seguido pelo trabalho informal, indústria, construção civil e agricultura. Com a agricultura e a construção civil podendo registrar quedas de produtividade de até 90% sob altas emissões.

Mais afetados

Beatriz Oliveira, co-autora do estudo e doutora em Saúde Pública e Meio Ambiente pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz no Piauí, ressalta que o trabalho informal tende a ser um dos mais impactados pelo calor. "A preocupação com esses casos é grande porque, sem regulamentação, há pouca autonomia para adotar medidas específicas de proteção [ao trabalhador]", reforça.
As perdas diárias podem variar de US$ 116 milhões a US$ 160 milhões e refletir a vulnerabilidade dos trabalhadores que atuam sem proteção formal, como vendedores ambulantes, entregadores e coletores de recicláveis, que estão mais expostos a jornadas sob o sol, sem pausas adequadas, sombra ou água potável.
Hoje, 39% dos 110 milhões trabalhadores brasileiros são informais. São justamente essas pessoas, que trabalham ao ar livre e sem proteção, que tendem a sofrer os piores impactos do calor, enquanto quem atua profissionalmente em ambientes climatizados será menos afetado, avalia Cleber Cremonese, também co-autor do estudo e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
O impacto é maior no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, onde as condições de calor extremo se tornam mais frequentes. Nessas regiões, o índice de estresse térmico conhecido como WBGT ultrapassa 34ºC em boa parte do dia, limite a partir do qual o trabalho físico ao ar livre deixa de ser viável por longos períodos diariamente.
* Alexandre Barreto, Jadson Luigi, Luísa Giraldo, Mariana Felicio e Vanessa Araújo, com colaboração de Victor Hugo Mendes, Marisa Oliveira e Eliane Damaceno

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.

Gostou? Compartilhe

Últimas Notícias