CONFIRA

‘Filha de aluguel’: novo serviço ajuda idosos em consultas e passeios

Profissional se diferencia do cuidador ao oferecer companhia e apoio a quem mantém autonomia, mas precisa de alguém para atividades do dia a dia

Alexandre Barreto

Por Alexandre Barreto

06/10/2026 | 08h15

Arquivo pessoal

Graziela Benossi atua há cinco anos como filha de aluguel e hoje atende clientes fixos e esporádicos - Arquivo pessoal
Graziela Benossi atua há cinco anos como filha de aluguel e hoje atende clientes fixos e esporádicos
Ouvir texto 2:27 1x

A longevidade crescente da população brasileira está gerando novas demandas de cuidado, como o trabalho de 'filha de aluguel', que acompanha idosos em atividades fora de casa, refletindo uma mudança nas necessidades sociais e familiares.

O aumento da população idosa, que passou de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025, revela uma lacuna entre a autonomia dos idosos e a falta de infraestrutura de suporte, especialmente para aqueles que vivem sozinhos ou têm familiares distantes.

Profissionais como Graziela Benossi destacam a importância da confiança entre acompanhantes e famílias, e especialistas sugerem que a economia do cuidado deve expandir, criando novas oportunidades e serviços para atender essa demanda crescente.

Resumo gerado por IA

São Paulo - A longevidade acelerada da população brasileira começa a criar novas demandas de cuidado que vão além dos serviços tradicionais voltados à pessoa idosa. Entre elas está o trabalho conhecido como “filha de aluguel”, profissional contratada para acompanhar idosos em consultas, compras, passeios, compromissos bancários e outras atividades fora de casa.

Em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, Graziela Benossi atua há cinco anos na área e hoje atende clientes fixos e esporádicos. Durante os 13 anos em que administrou uma farmácia de bairro, manteve uma relação próxima com clientes idosos e, depois da pandemia de covid-19, percebeu uma demanda específica por esse tipo de serviço.

Publicidade
Filha de aluguel acompanhando um casal de idosos
Graziela Benossi destaca que o serviço de filha de aluguel exige confiança entre a profissional e a família - Arquivo pessoal

Alguns clientes precisavam de ajuda para tomar vacinas ou simplesmente para resolver compromissos que os filhos não conseguiam acompanhá-los. Ela começou acompanhando uma cliente, que depois a indicou para outra, e assim, aos poucos, a rede de contatos foi crescendo.

Benossi percebeu ali uma nova oportunidade de trabalho, que passou a ocupar cada vez mais espaço em sua rotina. “Eu vi que eu estava fazendo algo que eu amava. Passei a cobrar porque a gente tem que pagar conta. Vendi a farmácia e estou nesse ramo já faz cinco anos”, afirma.

Filha de aluguel não é cuidadora

Embora os serviços possam se aproximar em algumas situações, Graziela, que patenteou o termo, faz uma distinção entre a “filha de aluguel”, a cuidadora tradicional e um serviço de transporte.

Publicidade

Benossi explica que a cuidadora costuma permanecer na residência e prestar assistência à pessoa idosa em atividades relacionadas aos cuidados diários. Já a profissional que Graziela descreve como “filha de aluguel” atua principalmente no acompanhamento fora de casa.

A profissional pode buscar o cliente em casa, acompanhá-lo a uma consulta médica, esperar durante um exame, fazer compras no hortifruti, ir ao cinema ou simplesmente sair para tomar um café. “Ela não é uma cuidadora e também não é um Uber. Eu costumo dizer que somos filhas mesmo”, explica Graziela.

Depois da pandemia, Graziela deixou o trabalho em uma farmácia de bairro e passou a atuar como filha de aluguel
Depois da pandemia, Graziela deixou o trabalho em uma farmácia de bairro e passou a atuar como filha de aluguel - Arquivo pessoal

O diferencial, segundo ela, está justamente na companhia durante toda a atividade. Se a pessoa precisa ir ao médico, por exemplo, não basta deixá-la na porta do consultório e retornar depois.

Publicidade

“Se você me contratar para pegar sua mãe, eu vou pegar a sua mãe na sua casa, vou fazer as atividades que ela precisa fazer e vou devolver ela em segurança. Ela não fica sozinha”, diz.

A rotina também é adaptada às condições de cada cliente. Em alguns casos, Graziela utiliza o próprio carro. Em outros, quando a pessoa não pode ficar sozinha nem por alguns minutos, recorre a transporte por aplicativo e permanece ao lado dela durante todo o deslocamento.

Tempo da pessoa idosa

A cliente Marize Antônia da Silva, de 72 anos, utiliza o serviço de Graziela e também recorre a ela para acompanhar a própria mãe, de 92 anos. De acordo com ela, a profissional atende necessidades que vão além de compromissos relacionados à saúde.

Publicidade

“Não é apenas levar no hospital ou com exames. O trabalho dela se estende muito mais que isso. Ela nos leva para buscar remédio, para tomar um cafezinho no shopping, para darmos uma volta”.

Marize conta que está há quatro anos com Graziela e considera que o serviço também ajuda os familiares que não conseguem estar presentes em todos os compromissos. “Não somente aos idosos, aos filhos dos idosos que não têm como levá-los porque não têm tempo, o trabalho, a vida é uma corrida”, afirma.

Uma das características que Graziela considera fundamentais no trabalho é respeitar o ritmo de cada cliente. Para ela, atividades corriqueiras, como ir ao supermercado, também podem representar momentos de lazer e convivência.

Publicidade
Eu trouxe para esse meu trabalho o tempo do idoso. Porque o tempo do idoso não é o mesmo tempo que o nosso e eu respeito muito isso.
Graziela Benossi, empreendedora e 'filha de aluguel'

Longevidade abre espaço para novos serviços

A expansão de serviços desse tipo está relacionada a uma transformação demográfica que já altera a organização das famílias e do mercado de trabalho. O envelhecimento da população aumenta a necessidade de soluções para pessoas que ainda têm autonomia, mas precisam de apoio pontual.

Candice Pomi, consultora e mentora em longevidade e psicóloga especialista em gerontologia, explica que existe uma lacuna entre a autonomia plena e a necessidade de cuidados clínicos. “O Brasil está envelhecendo mais rápido do que criou infraestrutura de suporte para isso”, afirma.

Candice Pomi é psicóloga especializada em longevidade
Candice Pomi é psicóloga especializada em longevidade - Divulgação

Segundo a especialista, cresce a quantidade de idosos que vivem sozinhos, possuem familiares distantes geograficamente ou convivem com filhos e netos que têm agendas cheias.

Publicidade

Dados do IBGE divulgados em 2026 mostram que a parcela da população com 60 anos ou mais subiu de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025. No ano passado, os idosos representavam 41,2% das pessoas que moravam sozinhas.

Nesse cenário, aparece uma demanda por um tipo de cuidado que não é necessariamente médico ou assistencial.

É um meio-campo que nem a família consegue sustentar em tempo integral, nem o sistema de saúde cobre, porque tecnicamente a pessoa não está doente.
Candice Pomi, consultora em longevidade

Esse espaço pode envolver tarefas simples, como acompanhar uma consulta ou uma refeição, mas também situações nas quais a presença de outra pessoa ajuda a preservar a autonomia e a segurança do idoso.

Publicidade

Profissional precisa de habilidades relacionais

Apesar de não ser uma cuidadora, a profissional que atua como acompanhante precisa estar preparada para lidar com situações que podem envolver riscos. Candice recomenda conhecimentos básicos de primeiros socorros, identificação de sinais de alerta cognitivos e emocionais e compreensão das principais condições de saúde que podem afetar pessoas idosas.

A formação também precisa envolver habilidades relacionais. Entre elas estão escuta ativa, respeito à autonomia e capacidade de estabelecer limites sobre o que cabe ao profissional. “Sem isso, o serviço vira informal demais para ser confiável ou formal demais para ser afetivo. O equilíbrio entre os dois é o produto, na verdade”, avalia Pomi.

Para quem pretende entrar na área, a especialista recomenda buscar formação básica em gerontologia social, primeiros socorros e saúde mental da pessoa idosa, além de supervisão ou mentoria de profissionais mais experientes.

Publicidade
Filha de aluguel acompanhando um idoso
A filha de aluguel acompanha idosos em consultas e outras atividades fora de casa - Arquivo pessoal

Pomi ressalta que um dos pontos de atenção está justamente em reconhecer os limites da atividade. O acompanhamento social não deve substituir um cuidador profissional ou uma equipe de saúde quando o idoso passa a apresentar necessidades mais complexas.

Ela cita como sinais de alerta alterações cognitivas que comprometem a segurança, perda de mobilidade que exige suporte físico direto, uso de múltiplos medicamentos com risco de erro e quedas recorrentes.

Nessas situações, a recomendação é ampliar a rede de cuidado. O profissional pode continuar exercendo o papel de acompanhante, mas deve atuar em conjunto com cuidadores formais, equipes de saúde ou serviços de assistência.

Publicidade
Isso exige humildade profissional para reconhecer os limites do próprio escopo e comunicação antecipada com a família, para que a mudança não seja percebida como abandono, mas como uma ampliação da rede de cuidado.

Trabalho exige confiança entre profissional e família

De acordo com Graziela, a confiança é um dos principais obstáculos para quem deseja começar na profissão. Os familiares precisam conhecer o trabalho e se sentir seguros antes de deixar um parente sob responsabilidade de uma profissional.

“Ninguém vai pegar um cartãozinho e falar: ‘Eu vou ligar para essa moça para levar minha mãe em tal lugar’. É dentro do dia a dia, do teu próprio trabalho”, afirma. Ela também defende que a atividade seja reconhecida oficialmente diante do crescimento da população idosa e da demanda por serviços de acompanhamento.

Para Candice, a tendência é que a chamada economia do cuidado ganhe novas ocupações nos próximos anos. Entre as possibilidades estão serviços de acompanhamento, mediação familiar, consultoria para empresas que têm funcionários responsáveis pelo cuidado de pais idosos e novas soluções de moradia para pessoas mais velhas.

Publicidade

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.